FSM: ator da mudança na América Latina
Em sua 10ª edição, o Fórum Social Mundial acontece em uma América Latina com cenário melhor, mas repleto de desafios
03/02/2010
Renato Godoy de Toledo
da Redação
Em
janeiro de 2001, a cidade de Porto Alegre (RS) recebia a primeira
edição do Fórum Social Mundial, reunindo militantes de todo o
mundo contrários ao neoliberalismo. A própria cidade e o Estado
eram apontados como vitrines do outro mundo possível.
Janeiro de 2010. Em sua décima edição, o FSM volta a Porto Alegre após 5 anos. Agora, a cidade não é mais modelo, no entanto, diversas experiências contrárias ao neoliberalismo podem ser observadas na América Latina.
Essa é a grande mudança no cenário latino-americano no processo do FSM. Em 2001, a região era controlada pelo pensamento único representado pelo Consenso de Washington. A única exceção era o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, então há três anos no comando do país.
Coincidência ou não, desde o início do FSM, começaram a surgir outros governos na região com características de enfrentamento ao neoliberalismo e à hegemonia dos EUA na região (Bolívia e Equador). Além de governos de partidos de esquerda com uma atuação mais moderada (Brasil, Argentina e Uruguai). O que antes era hegemônico perdeu expressividade. O projeto dos EUA sobrevive de forma “pura” na Colômbia, no Peru, no México e, agora, no Chile.
Nesse ano, o Fórum dará continuidade à sua tendência de descentralização, tendo ao menos 27 eventos regionais em diversos locais do mundo. Entre os dias 25 e 29, a capital gaúcha recebe o evento denominado“Fórum Social 10 anos: Grande Porto Alegre”, em que deve ser feito um balanço do processo. Estão confirmadas a presença de chefes de Estado como Lula, Evo Morales (Bolívia), José Mojica (Uruguai) e Fernando Lugo (Paraguai). Ainda no Brasil, deve ser realizado em Salvador uma outra parte do Fórum. Estava previsto um debate entre presidentes do continente sul-americano, mas a ida de Lula ao Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, deve comprometer o evento.
Reciprocidade
Para Cândido Grzybowski, do Ibase, o processo que levou às mudanças nos países foi ajudado pelo FSM da mesma maneira que as mudanças consolidaram o espaço. “O FSM contribuiu para essas mudanças, e vice- versa. Vários desses presidentes, com a exceção de Chávez que já estava no cargo, eram militantes que foram ao FSM e depois viraram presidentes. Há uma mudança na América Latina. É uma área de inovação do mundo. Ao olharmos para o mapa mundi, vemos que não há outro lugar onde aconteça tanta coisa nova. A Europa foi para trás, a África continua com problemas gigantescos”, avalia.
Num balanço do que mudou nesses anos, Grzybowski mostra como as principais ameaças apontadas pelo 1º FSM não assombram mais o continente. “Nossa agenda, começou contra OMC e a Alca e hoje pouco se fala nisso. Nós ajudamos a enterrar todas essas coisas, com essa força renovadora nos países latino-americanos”, analisa.
Para o sociólogo Luis Fernando Novoa, o processo foi importante para conter o domínio do capitalismo neoliberal na região. “O FSM expressou, a partir de 2001, um impasse no regime de dominação capitalista neoliberal. Os diversos pontos de ruptura gerados pela nova ofensiva do capital ganharam uma tela para ecoar de novo uma alternativa sistêmica. Esse foi o papel histórico do FSM : expor os limites para a continuidade da globalização desregulada e proporcionar o exercício da articulação de formas de contra-poder social, em distintas escalas”, afirma Novoa, que é membro da Attac, entidade internacional que luta pela taxação das transações financeiras e é um dos alicerces do FSM.
Nova agenda
No início da década, o Fórum apontava os equívocos de se manter a economia mundial baseada nos princípios do livre mercado e da auto-regulação. Tais apontamentos mostraram-se corretos menos de 10 anos depois. Grzybowski confessa que até o FSM foi surpreendido com a rapidez da confirmação de sua própria tese.
“As próprias contradições da globalização aconteceram antes do que esperávamos. O tamanho da confusão gerada pela crise econômica, associada a outras crises, como a civilizatória, só nos deu razão”, pontua.
A questão ambiental colocada sobretudo pelas mudanças climáticas também deu uma nova cara ao processo. “Viemos de uma cultura de justiça social, agora temos um público muito jovem que participa do Fórum e chega com uma visão socioambiental. Isso traz uma renovação automática”, aponta. Segundo a organização do FSM, os jovens representavam cerca de 75% dos participantes da última edição, em 2009 em Belém (PA).
Luis Fernando Novoa acredita que o FSM foi importante na luta contra bandeiras dos EUA, mas o movimento altermundialista precisa avançar em outros embates. “O FSM potencializou a luta continental contra a Alca e pela soberania sobre os recursos naturais e pelos territórios. No entanto esse impulso inicial de resistência não se traduziu em conquistas políticas e materiais concretas. Governos compostos a partir das frentes únicas contra o neoliberalismo não conseguiram romper a lógica hegemônica do capital financeiro e oligopolista. A forma como a crise do neoliberalismo em 2008 está sendo contornada, com espaços “ampliados” de mediação global (G20) e com discurso ambiental e multicultural, demonstra também o limite do movimento alter-mundialista”, contesta.