Funcionários criticam práticas comerciais dentro da Radiobras
Estatal é oficialmente incorporada à Empresa Brasileira de Comunicação (EBC); funcionários criticam condutas como publicação de reportagens sem fonte, com discurso governista, e aproximação de práticas comerciais
Dafne Melo
da Redação
No dia 12 de junho, a Radiobras – empresa estatal de comunicação – foi finalmente incorporada à Empresa Brasileira de Comunicação (EBC). Com essa medida, os funcionários da empresa poderão ter a representação no Conselho Curador, como já ocorria na Radiobras, e garantir uma participação mais efetiva em sua gestão.
Em assembléia geral realizada dia 31 de maio, os trabalhadores da EBC também decidiram formar uma nova Comissão de Empregados, que deverá ser constituída por representantes de todos os setores da empresa. Essa comissão, além de escolher o representante no Conselho Curador, irá também buscar uma maior interlocução com a direção da EBC para tratar de assuntos trabalhistas e editoriais.
O presidente do Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal, Romário Schettino, que esteve presente na assembléia, conta que foram muitas as críticas feitas pelos funcionários. Falta de infra-estrutura para trabalhar, pouca clareza do processo de fusão da Radiobras à EBC e de suas conseqüências para os funcionários, ocorrências de assédio moral, tercerizados com salários superiores a empregados concursados, foram algumas delas.
Outra importante observação foi feita: a linha editorial da empresa estaria privilegiando práticas da imprensa comercial, com utilização de informações sem fonte, por exemplo. Para uma empresa ainda pouco autônoma financeira e politicamente, essas práticas – proibidas no manual de jornalismo da Radiobras – a deixariam suscetível a manipulações do governo.
Nem mercado, nem governo
A reportagem do Brasil de Fato encontrou algumas matérias da Agência Brasil sem citação de fonte. “Lula não gostou da forma como foi anunciada a saída de Marina” (13 de maio); “Medida Provisória deverá regulamentar sistema e unificar empresas do setor elétrico” (18 de março); “Junta Orçamentária decide cortes no orçamento de 2008” (5 de março); “Ministérios empenham 14,4% dos recursos do PAC até abril” (30 de maio); “Troca de e-mails mostra que assessor da Casa Civil vazou dados sobre contas de FHC” (8 de maio) são algumas delas.
Schettino critica essa conduta. “Agência pública pode publicar matéria sem fonte? Essa é uma pergunta importante, pois deve haver transparência e regras claras”, opina. Para o sindicalista, “a esquizofrenia de uma empresa que é estatal, mas se pretende pública, ao mesmo tempo, aparece nessas horas”.
Funcionários ouvidos pela reportagem também afirmaram que há um rigor excessivo com pautas críticas ao governo, como as que tratam da questão dos agrocombustíveis. João Brant, do Intervozes - Coletivo Brasil de Comunicação Social, também acredita que a falta de mecanismos para garantir uma gestão e programação públicas de fato acaba dando margem a essas práticas pouco transparentes.
Além disso, como a atual diretoria da EBC tem feito esforço para se diferenciar da Radiobras, dando respostas aos que a acusam de ter um perfil mais estatal que público, tem deixado de lado o manual construído na gestão anterior da Radiobras – de Eugênio Bucci. “Em termos da construção de um jornalismo focado nos interesses do cidadão, esse manual tinha muitos avanços. Ao deixá-lo de lado, a empresa perde ao invés de ganhar, pois descartam alguns avanços da gestão anterior”, avalia Brant, completando que a emissora “deixa de ter caráter público não só quando fica próximo ao governo, mas quando se aproxima do mercado também”.
O Brasil de Fato entrou em contato com a assessoria de imprensa da diretoria da EBC, mandou todos os questionamentos e denúncias feitas pelos funcionários por email, mas não obteve resposta.
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Para entender:
Empresa Brasileira de Comunicação (EBC) - é uma empresa pública de economia mista vinculada à Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República. Foi criada pelo governo dia 25 de outubro de 2007, por meio de decreto, referendado pela Câmara de Deputados em fevereiro de 2008. A empresa abarca todos veículos de comunicação federais, como a recém criada TV Brasil. A empresa nasceu da fusão dos patrimônios da Radiobras e da Associação de Comunicação Educativa Roquette Pinto (Acerp), que coordenava a TVE. A jornalista Tereza Cruvinel é sua presidente e o cineasta Orlando Senna, diretor-geral.
Conselho Curador da Empresa Brasileira de Comunicação - é o órgão reponsável pela supervisão dos veículos de comunicação da EBC. É composto por 20 membros, sendo quatro representantes do Governo, através dos Ministérios da Educação, Cultura, Ciência e Tecnologia e Comunicação Social, um represente dos funcionários da EBC, e 15 da sociedade civil escolhidos pelo Executivo, entre eles: os economista Luiz Gonzaga Belluzzo e Delfim Neto, o ex-governador de São Paulo Cláudio Lembo, o empresário José Bonifácio de Oliveira Sobrinho (Boni), e o rapper MV Bill.















