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Governo sonega informações sobre os donos da mídia

by jpereira — last modified 2007-09-19 15:28

Ministério das Comunicações desrespeita a Constituição e não informa cadastro das entidades concessionárias de radiodifusão

19/09/2007

Mayrá Lima,

de Brasília (DF)


A premissa desta reportagem: obter do poder público a informação das concessões de redes de televisão que vencem neste ano. Os movimentos sociais preparam uma campanha, em 5 de outubro, para exigir mais transparência sobre os critérios de renovação das concessões. Segundo pesquisadores e especialistas do tema, nesta data, vencem as outorgas da Rede Globo, Bandeirantes, da Record e do SBT.

A resposta do Ministério das Comunicações (Minicom): silêncio. Nenhuma manifestação. A reportagem do jornal Brasil de Fato tentou conversar com o diretor de Outorgas, Carlos Freire que, segundo a assessoria de comunicação do ministério, é o responsável pelas informações. O funcionário público se negou a responder as perguntas. Tampouco a assessoria de imprensa do Ministério cumpriu com o seu papel e não retornou para o jornal até a noite do dia 18, fechamento desta edição.

A negativa do MiniCom de divulgar uma informação pública desrespeita a Constituição. É o que avalia Ana Claúdia Vazzoler, advogada do Escritório Modelo Dom Paulo Evaristo Arns da Pontíficia Universidade Católica de São Paulo. A sonegação fere diretamente o artigo 37 da Carta Magna. “O artigo 37 diz que a administração pública tem que obedecer alguns princípios e dentre eles está o princípio da publicidade. Todos os atos do poder público, quando não considerados sigilosos, como não é o caso, ele tem que ser publicizado, não necessariamente só pela internet”, explica.

Verdade seja dita: até o final do ano passado, a informação estava disponível na página na internet MiniCom. De uma hora para outra, o arquivo desapareceu, impedindo a livre consulta de qualquer pessoa da sociedade, interessada em saber quem são os “donos” das concessões públicas de radiodifusão. O Ministério não deu justificativa para restringir a informação.

A listagem dos concessionários havia se tornado pública desde novembro de 2003, quando o então ministro das Comunicações Miro Teixeira (PDT-RJ) abriu a “caixa-preta” da radiodifusão ao divulgar na internet as informações com os nomes dos sócios das emissoras de rádio e TV do país. Foi a primeira vez que a sociedade pode tomar conhecimento desta listagem.

De acordo com Venício Artur de Lima, pesquisador sênior do Núcleo de Estudos de Mídia e Política da Universidade de Brasília, o documento passou a ser uma referência básica. “O cruzamento dos nomes constantes no cadastro com a relação de políticos no exercício de mandato eletivo, por exemplo, revelou que muitos deles controlavam boa parte das emissoras de rádio e televisão pelo país afora. Claro, os "laranjas" e os parentes não são detectados nesses cruzamentos”, relatou o pesquisador em artigo publicado no Observatório da Imprensa.

Segundo a advogada Ana Cláudia Vazzoler, o MiniCom não poderia recuar na questão e, novamente, esconder o nomo dos “donos da mídia” no Brasil. “É um retrocesso em um direito, que é o direito à informação. Esse direito é fundamental, humano. Há a teoria da proibição do retrocesso, ou seja, os direitos fundamentais deferidos não podem ser retirados e é o que está acontecendo neste caso. Foi dado o direito à informação e esse direito foi tirado do cidadão”, informou Ana Cláudia.


Sociedade Civil

Para Celso Augusto Schröder, coordenador-geral do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), a ocultação do cadastro mostra mais uma vez uma contradição do governo federal em suas políticas de comunicação. “A gente tem que admitir que a publicação das listas foi um elemento importante de democratização histórica, porque até então não nós não tínhamos. Agora, se o próprio governo recolhe as listas, demonstra essa contradição. A publicação das listas é uma das obrigações de Estado. Tem uma dimensão pública que precisa ser conhecida pela sociedade. Seja qual for a razão, precisa voltar atrás”, afirmou.

O coordenador do Coletivo de Comunicação Social, Intervozes, João Brant questiona a maneira como o o Sistema de Acompanhamento de Controle Societário da Anatel (Siacco) organiza os dados do quadro societário de rádio e TV – hoje, a única fonte de informação sobre o assunto. “Claramente, o Ministério opta pela política nublada, sem transparência. Em todos os outros temas, há como se fazer cruzamento de dados. No entanto, quando o assunto é quadro societário, esse cruzamento é prejudicado. Por que não permitir o cruzamento de dados?”, disse.

Comentários - 13

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1 Eduardo Marinho - 20-09-2007 - 13:44:00h

Estado, Poder e Povo

O Estado é refém do Poder. O Poder é tirano do povo, se alimenta da sua espoliação. A quem prestam contas os "donos" da mídia? A quem prestam contas os políticos? O que se vê é um grande teatro de marionetes, com os bonecos - mais ou menos privilegiados, mais ou menos importantes no enredo - ocupando cargos de destaque, tirando onda de representantes do povo para defender interesses contrários aos da maioria. O que não se vê são os donos dos dedos que manipulam as marionetes. Eventualmente é preciso retirar uma das marionetes, troca-se por outra nova e os mesmos dedos continuam no controle, enquanto a mídia alardeia a "renovação". E o povo, desinstruído, desinformado, assiste sem entender e sofre as conseqüências.

2 Flávio Prieto - 20-09-2007 - 14:44:41h

Princípio da publicidade

O que reza a Constituição Federal Brasileira é que os atos da administração pública devem ser divulgados pela via hábil: publicação nos órgãos oficiais. Não há, que eu saiba, dispositivo legal que diga que há obrigatoriedade de conceder entrevistas (especialmente sobre assuntos ainda não decididos, como é o caso da renovação das concessões vigentes) - ou que publicar, por outros meios, aquilo que já é publicado por obrigação legal nos diários oficiais. Geralmente, nos sites das instituições públicas (empresas públicas, ministérios, secretarias) há farta informação sobre os detalhes de cada setor. Concordo, no entanto, que se deva democratizar os meios e exigir sua transparência e fidelidade à verdade factual. Atenciosamente.

3 Anna Claudia Vazzoler - 20-09-2007 - 18:21:57h

publicidade e direito à informação

Pela lei que rege o processo administrativo no âmbito da administração pública federal, os atos administrativos devem ser publicizados (mesmo que o procedimento não esteja finalizado), como transcrevo a seguir:

Art. 2o Parágrafo único. Nos processos administrativos serão observados, entre outros, os critérios de:

V - divulgação oficial dos atos administrativos, ressalvadas as hipóteses de sigilo previstas na Constituição;

Quanto a dar entrevistas, obviamente os agentes não estão obrigados. Entendo questionável, no entanto, retirar do site oficial informações que anteriormente eram prestadas. Isso sim, sob meu ponto de vista, viola a constituição federal tanto no artigo 5º (direito à informação), quanto ao art. 37, que trata dos princípios da administração, incluindo, o princípio da publicidade. Assunto interessante. Cordialmente.

4 Antonio Carlos da Cunha - 20-09-2007 - 23:00:37h

concessões - vencimentos

Prezada Maíra Lima,

Neste endereço você encontrar os nomes das emissoras cujas concessões terão de ser renovadas em outobro: http://www.fndc.org.br/arquivos/Outorgas2007.pdf

abraço

5 arthur henrique coelho - 20-09-2007 - 23:29:37h

reflexão

Pelo que a matéria expressa, o Ministério das Comunicações não confirma o vencimento de concessões que são públicas. Além disso, o governo também não torna público quem são os proprietários dos meios de comunicação. É gravíssimo o fato de que isso fere a Constituição. Mas é ainda pior a grotesta promiscuidade com os oligopólios do setor

6 Mayrá - 21-09-2007 - 01:27:23h

comentários

Como não vejo nenhum problema em repórter comentar a própria matéria (rs) e debater com o conjunto das pessoas, lá vão umas questões. Afinal, neste momento de comentários, podemos explorar mais o que é opinião.

O fato do Diretor de Outorgas não querer ter dado a entrevista não é o que se configura como desobediência à constituição federal, mas sim o fato de uma informação que é pública, de bens públicos (como é o caso das concessões) não estarem sendo disponibilizadas como deveriam. Obviamente, acho complicadíssima a postura do Ministério das Comunicações, o que acaba confirmando a teoria da "nebulosidade", como o João do Intervozes argumentou. O interessante neste tipo de discussão é que as pessoas possam estar levando o debate para seus espaços para que a gente consiga mudar algo nesta conjuntura de oligopólios, neste "latifúndio" do ar.

abs

7 Paulo - 21-09-2007 - 01:59:02h

Incentivo à reportagem

Como jornalista que vive fora do Brasil há alguns anos, só tenho a incentivar a repórter pelo foco da matéria. Por outras obrigações não tenho tido oportunidade de participar diretamente da mídia no Brasil, mas o mínimo que posso fazer é encorajar que reportagens como esta se multipliquem das mais diversas formas. O estudo da mídia deve fazer parte do currículo de toda escola. Aprender a ler abc não é o mesmo que aprender a ler a realidade por trás das notícias. E os meios de comunicação que colocam interesses econômicos antes de tudo se aproveitam dessa diferença na alfabetização da população para fazerem e dizerem o que bem entendem (mas que pouco bem causa). Por isso o tema da concessão de rádios (e televisões) é tão importante num país audiovisual e musical como o Brasil. Quem não pode ler jornais e tem pouco ou limitado acesso à Internet merece ao menos atualizar-se através de rádios conscientes socialmente -- e para isso que rádios comunitárias devem não só ter espaço mas serem incentivadas por um governo que realmente preze pela população. Parabéns pela matéria e que essa voz provoque ecos pelo país.

8 rodrigo lentz - 21-09-2007 - 21:52:26h

informação

Parabéns pela matéria camarada. Já foi tentada judicialmente a informação? uma ação popular?

9 Sunia terra - 22-09-2007 - 21:25:40h

Ministério das Comunicações

Está de parabéns a reportagem, pois é através do Direito à informação que uma sociedade é edificada em seus princípios. Lamentavelmente essa situação esdrúxula está acontecendo e a jornalista a expôs para nós.Vamos repassar e exigir transparências, para agir dentro dos nossos direitos! 22/09/07

10 Foguinho - 24-09-2007 - 20:06:33h

Composiç

Entra nesse endereço http://sistemas.anatel.gov.br/siacco/ Clica em Consultas Gerais, Depois em Perfil das Empresas aí é só colocar qual canal quer consultar. Informação tá lá sim é só procurar - composição societária, só não tem inicio e fim das outorgas

11 cássio - 24-09-2007 - 21:13:07h

sem resposta

Acessei o endereço. E pra mim, não está respondida a principal questão: quando vencem as concessões das redes de TV.

12 Tomás Higino de Morais - 03-11-2008 - 23:05:46h

Concessão de Radio e TV

Refens de algozes do poder - mais confio no Deus todo poderoso que em Provérbios 29;2 Quando os justos se engrandecem, o povo se alegra, mas quando o ímpio domina, o povo suspira. em outra tradução: Quando o justo domina, o povo se alegra, mas quando o ímpio manda, o povo geme. missaoev@uol.com.br


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