Inquérito da Polícia Federal acusa 36 em esquema de caixa 2
MENSALÃO TUCANO Procurador-geral irá denunciar investigados por esquema de corrupção de campanha do PSDB em Mingas Gerais
Tatiana Merlino
da Redação
O tema é o mesmo: caixa dois e desvio de dinheiro público. Mudam apenas alguns dos beneficiados. Sai o PT; e entra o PSDB no banco dos réus. O crime é semelhante, mas o discurso sobre ele tem sido bem diferente. Para os meios de comunicação hegemônicos, o episódio envolvendo José Dirceu e a cúpula petista era chamado de "mensalão do governo Lula" ou "mensalão petista". Agora, a designação é mais sutil: "mensalão mineiro" - embora o principal envolvido seja o ex-presidente do PSDB, ex-governador de Minas Gerais e atual senador Eduardo Azeredo (MG).
Para o jornalista e sociólogo Venício de Lima, é evidente que a mídia corporativa tem atuado de forma distinta na cobertura destes episódios. “No primeiro caso, identificou a crise com o partido e agora vem usando uma referência geográfica. Para ser coerente, deveria tratar do esquema ligado ao PT como ´mensalão paulista´”, diz.
O tucano Azeredo será um dos políticos denunciados pelo procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, ao Supremo Tribunal Federal (STF) por envolvimento num esquema de caixa dois na campanha do PSDB ao governo mineiro, em 1998. A denúncia, que deve ser apresentada ao STF até o dia 30 de setembro, será feita com base num inquérito da Polícia Federal que aponta Azeredo como principal beneficiário de um modelo de arrecadação ilegal de recursos quando disputou a reeleição ao governo do Estado.
Mais que isso, o esquema é apontado como o precursor do utilizado depois pela cúpula petista. O inquérito relacionou 36 pessoas, entre elas o atual ministro das Relações Institucionais, Walfrido dos Mares Guia, o publicitário Duda Mendonça e o empresário Marcos Valério, que também foi responsável pela arrecadação e distribuição de recursos no chamado mensalão petista.
Segundo o relatório da PF, a coligação de Azeredo, que tinha como vice o ex-deputado Clésio Andrade, do PFL (atual DEM), injetou dinheiro ilegal na campanha, por meio de caixa dois. A coligação só declarou à Justiça Eleitoral R$ 8,55 milhões, dos mais de R$ 80 milhões gastos na campanha, sem contar os R$ 20 milhões que ficou devendo.
Doações sigilosas
A lista inclui ainda os coordenadores da campanha de Azeredo, dirigentes de estatais mineiras e executivos de empresas, sobretudo empreiteiras, que tinham negócios com o governo e fizeram grandes doações sigilosas. O esquema teria arrecadado mais de R$ 100 milhões entre desvios de estatais e empréstimos de fachada feitos pelo empresário. Com os resultados obtidos pela PF, parte dos envolvidos poderá ser enquadrada nos crimes de peculato e lavagem de dinheiro.
O documento também reproduz lista que descreve o envio de R$ 110 mil do esquema para a campanha do então candidato a deputado e atual governador de Minas, Aécio Neves (PSDB). Embora a imprensa corporativa tenha citado brevemente o envolvimento do governador mineiro no esquema de caixa dois, “ele teve participação ativa, pois na época estava em plena campanha para deputado federal”, afirma Willian Santos, advogado do diretório estadual do PT de Minas Gerais.
Segundo Luis Ronaldo Carvalho, da Consulta Popular, quando o esquema de desvio de verbas foi descoberto no Estado, os setores que começaram a denunciá-lo foram alvo de ameaças. “Sem falar na imprensa que num geral não noticia nada porque é totalmente refém do Estado e os jornalistas que ousam tratar do assunto são ameaçados de demissão”, revela.
Lista de Furnas
O deputado estadual Padre João (PT-MG) lembra que, além do caixa dois que ocorreu em 1998, nas eleições de 2002, em que os candidatos eram os tucanos José Serra (para presidente), Geraldo Alckmin (para governador de São Paulo) e Aécio Neves (para governador de Minas Gerais), o esquema se manteve com a chamada Lista de Furnas, “com o caixa dois superando o valor de R$ 25 milhões somente para os cargos majoritários”, diz ele.
Segundo o deputado, “a perícia da Polícia Federal constatou isso na lista em que Serra aparece como beneficiário de R$ 7 milhões, Alckmin de R$ 9,3 milhões e Aécio Neves com R$ 5,5 milhões. Além do atual governador de Minas, pessoas ligadas a ele, como a sua irmã Andréia Neves e o Secretário de Governo também receberam recursos”.
De acordo com o relatório da PF, o ministro das Relações Institucionais, Walfrido dos Mares Guia (PTB), atuou para indicar políticos que receberiam dinheiro da campanha de Eduardo Azeredo, organizou a contratação do publicitário Duda Mendonça e levantou empréstimos no Banco Rural. O relatório aponta que foram repassados a Mares Guia R$ 24 milhões para pagamentos das despesas. (Leia reportagem completa na edição 239)
Comentários - 6
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2 Jão - 26-09-2007 - 19:26:11h
joaojao78@yahoo.com.brMuito interessante. A lista divulgada tem 159 nomes. A matéria só lembrou do nome do Aécio. Vejam só: "Embora a imprensa corporativa tenha citado brevemente o envolvimento do governador mineiro no esquema de caixa dois, “ele teve participação ativa, pois na época estava em plena campanha para deputado federal”, afirma Willian Santos, advogado do diretório estadual do PT de Minas Gerais", de acordo com essa matéria. Esqueceram de dizer que tem 35 nomes do PT entre os 159. Eles também estavam "em plena campanha"? Ou era só o Aécio que estava? O problema dessa matéria é se basear numa lista cujo conteúdo não tem qualquer comprovação. Vocês acusam tanto a mídia de ser parcial e estão usando os mesmos métodos que criticam - citam o Aécio e omitem os nomes dos petistas. É ou não é?
3 Jão - 26-09-2007 - 20:10:41h
Fogo no WalfridoAgora, está ficando claro. O Brasil de Fato engrossa a campanha para “detonar” o Walfrido e passar a vaga dele no ministério para alguém do PT. A última frase é um “exocet” contra o Walfrido. O problema dessa matéria do Brasil de Fato é dar credibilidade a duas listas fajutas: a Lista de Furnas e a Lista do Mourão, escritas por uma só pessoa, o lobista Nilton Monteiro. A Lista de Furnas não resistiu às diversas perícias feitas, incluindo a do Instituto de Crimininalística. Deputado Padre João, que coisa feia... O Sr. está querendo derrubar o Walfrido que é “cumpanheiro” e aliado de primeira hora...
4 Carlinhos Medeiros - 27-09-2007 - 10:26:45h
Fogo no WalfridoO que lasca o Brasil e este tipo de comentário, sem nenhuma ponderação ou lógica racional, aliás, nós os brasileiro somos tão passionais que cegamos. Por isso, instituições como Igrejas, Rede Globo, Demotuca e futebol, sempre irão prevalecer.
5 Flávio Prieto - 27-09-2007 - 14:50:48h
Mensalão TucanoDesta vez, estou certo de que não teremos CPI e nem 'corrente da ética e da moralidade' exigindo igual tratamento aos PSDBistas que utilizaram esquemas de financiamento sombrios. Nossa mídia seletiva (e golpista, como bem diz Paulo Henrique Amorim) ficará quieta e não fará estardalhaço, partidária que é. Precisamos discutir o papel da mídia de massa no Brasil, que manipula informações e tenta influir na percepção política da população, privilegiando sempre um lado e uma ideologia.
6 Eloá Teles de Souza Carajol Delvage - 29-09-2007 - 17:38:50h
Mensalão Tucano Quando comecei a ler o texto, precisei conferir a data para ver se não havia lido antes. É que a mídia mais assistida e lida do país sempre apronta com os partidos do povo. Mas como diria Berthold Brecht (?), "A verdade é filha do tempo."
Pena que não temos muito tempo, pois gastamos muito dele nos defendendo de generalizações maldosas da mídia, do constante ataque aos nossos direitos tão arduamente conquistados, da desigualdade social...
Fazer o quê? Vamos continuar na luta!
Atenciosamente.
Eloa Delvage
1 Luiz - 26-09-2007 - 17:28:33h
Mensalão TucanoNão sei se tiveram acesso a entrevista do senador Azeredo a Folha de SP. Estou enviando abaixo. Abraços
Azeredo afirma que ajudou na campanha de FHC em 98 Segundo senador, dinheiro arrecadado foi usado por comitês do ex-presidente Sobre Walfrido, o tucano diz que o ministro não tinha o papel de coordenador, mas que "participou da campanha ativamente" ANDREZA MATAIS DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
Pivô do escândalo que colocou o PSDB sob suspeita de ter se beneficiado do valerioduto, o senador Eduardo Azeredo (MG) afirmou que prestações de contas de campanhas políticas, no passado, eram mera "formalidade", que não "existia rigor". Azeredo disse que teve "problemas" ao prestar contas, mas que a campanha envolvia outros cargos e partidos. Disse que contou na eleição para o governo de Minas, em 1998, com o apoio do ministro Walfrido dos Mares Guia (Relações Institucionais), inclusive na captação de recursos. Segundo o senador, Walfrido não tinha o papel de coordenador, mas participava de tudo. Azeredo afirmou ainda que o dinheiro arrecadado para sua campanha -oficialmente foram gastos R$ 8,5 milhões- foi usado para campanhas de deputados e senadores da sua coligação e, até mesmo, do então candidato à Presidência Fernando Henrique. "Ele não foi a Minas, mas tinha comitês bancados pela minha campanha."
FOLHA - A Polícia Federal diz que houve caixa dois na sua campanha... EDUARDO AZEREDO - Tivemos problemas na prestação de contas da campanha, que não era minha só, mas de partidos coligados, que envolvia outros cargos, até mesmo de presidente da República. FOLHA - Que "problemas"? AZEREDO - Essas prestações de contas no passado eram mais uma formalidade, é hipocrisia negar isso, não existia rigor. O que se conclui é que no caso de Minas, a minha [prestação] foi a mais alta naquele ano, foi ela que se aproximou mais da realidade. E se concluiu que houve recursos a mais que não chegaram a ser formalizados. FOLHA - O sr. acha que sua campanha custou quanto na verdade? AZEREDO - Os R$ 8,5 milhões que informamos e alguma coisa a mais que teve do empréstimo que eu não autorizei. Mas nunca perto dos R$ 100 milhões que estão falando. FOLHA - Qual foi a participação do Walfrido na campanha do sr.? AZEREDO - Ele não foi coordenador [da campanha], o coordenador foi o ex-deputado Carlos Eloy, mas é evidente que o Walfrido participou da campanha ao meu lado ativamente. FOLHA - De que forma? Na parte política ou na captação de recursos? AZEREDO - Participou da campanha como um todo. FOLHA - A PF achou papéis em que o ministro fez anotações de valores arrecadados. Ele tem conhecimento dos valores não contabilizados? AZEREDO - Acho que ele é quem deve explicar. Cabe a mim dizer que ele participou da campanha, mas não era coordenador. FOLHA - Mas o senhor disse que ele participou de toda a campanha, o que me faz concluir que também da parte de arrecadação de dinheiro. AZEREDO - É evidente que ele tinha relações com pessoas que podiam apoiar a campanha. FOLHA - Com relação ao empréstimo que o ministro Walfrido disse que pagou em seu nome por dívidas de campanha. O sr. pediu para ele? AZEREDO - Como não tinha e não tenho até hoje posses que me garantam tirar empréstimo bancário maior, o Walfrido é que tirou o empréstimo, com meu aval para quitar a dívida. FOLHA - O sr. vai pagar o ministro? AZEREDO - Não. É uma dívida que foi quitada porque ele é meu amigo, continua sendo e tem condições de poder arcar com uma dívida dessas. FOLHA - Com relação ao PSDB, o governador José Serra não quis comentar sobre o senhor. AZEREDO - Sempre tive apoio do partido e tenho total confiança de que terei o apoio necessário no momento necessário. Serra me deu não só solidariedade, mas apoio também. FOLHA - O dinheiro da sua campanha financiou a de FHC em Minas? AZEREDO - Sim, parte dos custos foram bancados pela minha campanha. Fernando Henrique não foi a Minas na campanha por causa do Itamar Franco, que era meu adversário, mas tinha comitês bancados pela minha campanha. FOLHA - Por que o senhor acha que esse assunto voltou à tona agora? AZEREDO - O PT colocou esse assunto no seu congresso porque não está satisfeito com a presença de um ministro [Walfrido] que não seja do seu partido e como compensação para o desgaste que o partido sofreu pela aceitação do STF de abertura do processo do mensalão.