Pobreza chega à classe média
Nas décadas de 80 e de 90, cerca de 7 milhões de pessoas perderam seus empregos e não conseguiram manter o mesmo padrão de vida
Tatiana Merlino,
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da redação<em>
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A classe média, que viveu seu "apogeu" no período da ditadura militar - em especial durante o chamado milagre econômico -, passou por empobrecimento nas duas últimas décadas. Destaque para dois processos nesse período: os baixos índices de crescimento econômico do país desde o início dos anos 80 e as reformas neoliberais realizadas durante os 90 por meio da abertura comercial e produtiva do país. Combinadas, essas políticas "impuseram juros altos, forçaram a diminuição do Estado, reduziram a população assalariada e empobreceram a classe média", avalia o economista Ricardo Amorim que, em conjunto com outros pesquisadores de universidades paulistas, entre eles Márcio Pochmann, publicou o estudo Classe Média - Desenvolvimento e Crise, a partir dos dados do Censo de 2000.
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De 1980 a 2000, 7 milhões de pessoas perderam seus empregos. Sem conseguir voltar ao mercado de trabalho, deixaram de fazer parte da classe média. "Nos anos 90, muitas empresas fecharam ou diminuíram o número de funcionários. A reestruturação do mercado de trabalho se deu sobretudo em cargos ocupados pela classe média", explica Amorim, lembrando que pessoas que foram demitidas ganhando de R$ 4 mil a R$ 5 mil por mês tiveram que aceitar empregos por salários de R$ 1,5 mil. "A precarização do trabalho chegou às camadas médias. Houve uma piora na distribuição de renda no Brasil nos últimos 20 anos. A classe média empobreceu e o capital especulativo enriqueceu", conclui.<br>
Privatizações e informalidade
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Os anos 90, classificados pelo sociólogo Ricardo Antunes como a "década da desertificação social no Brasil", foram marcados por inúmeras privatizações, crescimento da informalidade e "financeirização da economia". Segundo Antunes, juntamente com a aplicação de uma política econômica neoliberal, houve uma reestruturação produtiva com o objetivo de adequar o país a uma nova divisão do trabalho, da qual nasceu um novo proletariado, terceirizado. "Esse processo também atingiu a classe média", afirma. Segundo ele, as privatizações dos setores de energia, siderurgia e telefonia "trouxeram novos elementos para as classes dominantes brasileiras que se tornaram ainda mais subordinadas às transnacionais". <br>
Se, de um lado milhares de pessoas dos setores médios da sociedade "desceram vários degraus da hierarquia social, outras poucas subiram mais ainda, e a concentração de riqueza aumentou ainda mais no país", aponta Antunes. Dados da publicação estadunidense Forbes confirmam a afirmação do sociólogo. A lista de bilionários divulgada pela revista mostra que, no Brasil o número de integrantes na relação dos mais ricos do planeta dobrou em apenas um ano. O ranking tem agora 16 brasileiros, contra oito em 2005, e é liderado pelo banqueiro Joseph Safra.
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Padrão de consumo <br>
O estudo feito pelos pesquisadores também aponta mudanças no padrão de consumo da classe média, formada por 15,4 milhões de famílias (31,7% das famílias existentes no país). "Foram reduzidos gastos mais luxuosos e aumentaram o consumo de itens mais básicos", explica o economista Ricardo Amorim. Em 1987, os gastos com alimentação tinham participação de 24,5% nas despesas do mês; em 2003, caíram para 15,9%. Já a participação em vestuário era de 11% e caiu para 5% no mesmo período. Já o gasto em itens como habitação, transporte e educação subiu de 17,6% para 29,5%, de 8,7% para 16,9% e de 2,2% para 3,6%, respectivamente.
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O impacto do neoliberalismo no bolso da classe média também se dá pela precarização da atuação do Estado na área social. "Com a diminuição do Estado e o sucateamento dos serviços públicos, a classe média arca duas vezes com os mesmos serviços. Paga os impostos, mas como sabe que o serviço público é ruim, acaba gastando com serviços públicos", analisa.<p>
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Mais conservadorismo<br>
A pauperização da classe média, historicamente conhecida como conservadora, poderia indicar uma aproximação com as classes trabalhadoras. Será? "Poderíamos, sim, esperar que a classe média se politizasse, mas aconteceu o contrário, está mais conservadora". Os números explicam: em 1980, 64,6% da classe média era assalariada em relação à População Economicamente Ativa (PEA) urbana. Esse percentual caiu para 55,8% em 2000. No mesmo período, aumentou a participação da classe média proprietária sobre a PEA urbana, de 35,4% para 44,2%. "Quando a classe média é assalariada fica mais próxima dos trabalhadores, como era na década de 80. A partir do momento que se torna proprietária, fica mais individualista e conservadora", constata Amorim.
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(Leia mais na edição 159 do Jornal Impresso)