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Pobreza chega à classe média

by cleber last modified 2006-03-17 20:04

Nas décadas de 80 e de 90, cerca de 7 milhões de pessoas perderam seus empregos e não conseguiram manter o mesmo padrão de vida

Tatiana Merlino,
> da reda&ccedil;&atilde;o<em>
> <br> A classe média, que viveu seu "apogeu" no período da ditadura militar - em especial durante o chamado milagre econômico -, passou por empobrecimento nas duas últimas décadas. Destaque para dois processos nesse período: os baixos índices de crescimento econômico do país desde o início dos anos 80 e as reformas neoliberais realizadas durante os 90 por meio da abertura comercial e produtiva do país. Combinadas, essas políticas "impuseram juros altos, forçaram a diminuição do Estado, reduziram a população assalariada e empobreceram a classe média", avalia o economista Ricardo Amorim que, em conjunto com outros pesquisadores de universidades paulistas, entre eles Márcio Pochmann, publicou o estudo Classe Média - Desenvolvimento e Crise, a partir dos dados do Censo de 2000.
> De 1980 a 2000, 7 milh&otilde;es de pessoas perderam seus empregos. Sem conseguir voltar ao mercado de trabalho, deixaram de fazer parte da classe m&eacute;dia. &quot;Nos anos 90, muitas empresas fecharam ou diminu&iacute;ram o n&uacute;mero de funcion&aacute;rios. A reestrutura&ccedil;&atilde;o do mercado de trabalho se deu sobretudo em cargos ocupados pela classe m&eacute;dia&quot;, explica Amorim, lembrando que pessoas que foram demitidas ganhando de R$ 4 mil a R$ 5 mil por m&ecirc;s tiveram que aceitar empregos por sal&aacute;rios de R$ 1,5 mil. &quot;A precariza&ccedil;&atilde;o do trabalho chegou &agrave;s camadas m&eacute;dias. Houve uma piora na distribui&ccedil;&atilde;o de renda no Brasil nos &uacute;ltimos 20 anos. A classe m&eacute;dia empobreceu e o capital especulativo enriqueceu&quot;, conclui.<br>

Privatizações e informalidade
> Os anos 90, classificados pelo soci&oacute;logo Ricardo Antunes como a &quot;d&eacute;cada da desertifica&ccedil;&atilde;o social no Brasil&quot;, foram marcados por in&uacute;meras privatiza&ccedil;&otilde;es, crescimento da informalidade e &quot;financeiriza&ccedil;&atilde;o da economia&quot;. Segundo Antunes, juntamente com a aplica&ccedil;&atilde;o de uma pol&iacute;tica econ&ocirc;mica neoliberal, houve uma reestrutura&ccedil;&atilde;o produtiva com o objetivo de adequar o pa&iacute;s a uma nova divis&atilde;o do trabalho, da qual nasceu um novo proletariado, terceirizado. &quot;Esse processo tamb&eacute;m atingiu a classe m&eacute;dia&quot;, afirma. Segundo ele, as privatiza&ccedil;&otilde;es dos setores de energia, siderurgia e telefonia &quot;trouxeram novos elementos para as classes dominantes brasileiras que se tornaram ainda mais subordinadas &agrave;s transnacionais&quot;. <br> Se, de um lado milhares de pessoas dos setores médios da sociedade "desceram vários degraus da hierarquia social, outras poucas subiram mais ainda, e a concentração de riqueza aumentou ainda mais no país", aponta Antunes. Dados da publicação estadunidense Forbes confirmam a afirmação do sociólogo. A lista de bilionários divulgada pela revista mostra que, no Brasil o número de integrantes na relação dos mais ricos do planeta dobrou em apenas um ano. O ranking tem agora 16 brasileiros, contra oito em 2005, e é liderado pelo banqueiro Joseph Safra.
> <p>


> Padr&atilde;o de consumo <br> O estudo feito pelos pesquisadores também aponta mudanças no padrão de consumo da classe média, formada por 15,4 milhões de famílias (31,7% das famílias existentes no país). "Foram reduzidos gastos mais luxuosos e aumentaram o consumo de itens mais básicos", explica o economista Ricardo Amorim. Em 1987, os gastos com alimentação tinham participação de 24,5% nas despesas do mês; em 2003, caíram para 15,9%. Já a participação em vestuário era de 11% e caiu para 5% no mesmo período. Já o gasto em itens como habitação, transporte e educação subiu de 17,6% para 29,5%, de 8,7% para 16,9% e de 2,2% para 3,6%, respectivamente.
> O impacto do neoliberalismo no bolso da classe m&eacute;dia tamb&eacute;m se d&aacute; pela precariza&ccedil;&atilde;o da atua&ccedil;&atilde;o do Estado na &aacute;rea social. &quot;Com a diminui&ccedil;&atilde;o do Estado e o sucateamento dos servi&ccedil;os p&uacute;blicos, a classe m&eacute;dia arca duas vezes com os mesmos servi&ccedil;os. Paga os impostos, mas como sabe que o servi&ccedil;o p&uacute;blico &eacute; ruim, acaba gastando com servi&ccedil;os p&uacute;blicos&quot;, analisa.<p>


> Mais conservadorismo<br> A pauperização da classe média, historicamente conhecida como conservadora, poderia indicar uma aproximação com as classes trabalhadoras. Será? "Poderíamos, sim, esperar que a classe média se politizasse, mas aconteceu o contrário, está mais conservadora". Os números explicam: em 1980, 64,6% da classe média era assalariada em relação à População Economicamente Ativa (PEA) urbana. Esse percentual caiu para 55,8% em 2000. No mesmo período, aumentou a participação da classe média proprietária sobre a PEA urbana, de 35,4% para 44,2%. "Quando a classe média é assalariada fica mais próxima dos trabalhadores, como era na década de 80. A partir do momento que se torna proprietária, fica mais individualista e conservadora", constata Amorim.

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(Leia mais na edição 159 do Jornal Impresso)