Trabalhadores cobram do governo a estatização de fábricas ocupadas
Cerca de mil operários de quatro empresas foram a Brasília exigir que Lula faça como Chávez e apóie as fábricas ocupadas
Bruno Terribas,
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de Brasília (DF)<em>
Cerca de mil pessoas foram à Brasília terça-feira (18) exigir que o governo Lula estatize quatro fábricas ocupadas e garanta os empregos dos seus trabalhadores. A mobilização, organizada pelos operários das empresas catarinenses Cipla e Interfibra e das paulistas Flasko e Flakepet, cobrou do presidente Lula a suspensão as ações dos ministérios que ameaçam de prisão os dirigentes das fábricas em virtude das dívidas dos antigos patrões.
"Queremos também que cessem os leilões do maquinário do parque fabril das empresas", diz com Serge Goulart, coordenador das fábricas ocupadas. Desde a ocupação das fábricas (entre 2002 e 2003), os trabalhadores esperam a decisão do governo de estatizá-las para manter de maneira duradoura os empregos dos trabalhadores. Uma medida nesse sentido ratificaria o parecer favorável do relatório elaborado por um grupo de trabalho criado pelo próprio governo federal após audiência em 2004.
"A estatização não custa nada, já que a maior parte das dívidas são com o próprio governo federal. Falta decisão política para que o presidente Lula faça como Hugo Chávez na Venezuela e estatize as fábricas. Infelizmente, ele não se compromete com isso, pois ajuda latifundiários e banqueiros, mas se recusa a garantir os empregos", critica Goulart. O governo venezuelano mantém acordo de trocas de tecnologias e materiais entre as fábricas brasileiras e a estatal PDVSA.
Os trabalhadores das fábricas rejeitam propostas como a criação de cooperativas porque "conduzem os operários a aceitarem a perda de seus direitos ao convertê-los em ações. Não queremos ser ‘operários-patrões’, pois sem capital e submetidos às leis do mercado, vamos ser esmagados pelas transnacionais e pelo capital financeiro especulativo", analisa Goulart. Hoje, as quatro empresas empregam mais de mil trabalhadores.
Com a pressão dos manifestantes em frente ao Palácio, o governo atendeu uma delegação de representantes da Caravana das Fábricas Ocupadas no gabinete da Presidência. Além disso, foi realizada uma reunião com representantes do Ministério do Trabalho para protocolar as reivindicações. Os manifestantes também fizeram um protesto em frente à embaixada de Israel contra a ofensiva lançada sobre o Líbano.
Ocupar para produzir
Os trabalhadores catarinenses e paulistas decidiram ocupar as fábricas em que trabalhavam diante da ameaça de perda de emprego e da espera por anos pelo recebimento de direitos trabalhistas - os quais podem nunca chegar a receber. Desde então, tem conseguido manter a produção.
Domingos da Rosa, mais conhecido como Dominguinhos, trabalha há 30 anos na empresa Interfibra e conta que apenas a partir das mobilizações que levaram à ocupação da empresa em 2002 ele acreditou que as greves poderiam trazer resultados efetivos. "Até minha família percebeu que havia a necessidade de estarmos na luta. Hoje, estou aqui com meus filhos e trouxe também meus amigos", conta com orgulho.
Mas a importância do processo de tomada do controle das fábricas afeta não só a questão econômica da região que estão sediadas, mas a manutenção de setores-chave no setor de infra-estrutura e bens de consumo do país. "A Interfibra Industrial é o único fornecedor nacional de tubos epóxi para a Petrobrás. Além dela, a Cipla produz materiais para a construção civil e componentes plásticos para a indústria automotiva e de eletrodomésticos", conta Carlos Castro, coordenador de comunicação do Conselho de Fábrica da Cipla/Interfibra (SC). No caso da empresa Flaskô, a cidade-sede da empresa, Sumaré (SP), concentra o maior índice de desemprego da região metropolitana de Campinas.
Administração
Após a ocupação, os trabalhadores organizaram um Conselho de Fábrica - o órgão eleito por voto direto dos funcionários - que elabora as diretrizes administrativas das empresas e o Conselho Adminstrativo - composto por responsáveis por cada área da empresa - que tem função executiva. "Há uma Assembléia Geral uma vez por mês para que todos os trabalhadores tenham o direito de expressar suas opiniões e avaliar o andamento da gestão", explica Pedro Santinho, do Conselho de Fábrica da Flaskô.
O movimento conquistou apoios importantes e diversificados que têm ajudado a fortalecer e ampliar a luta das fábricas. "Temos o apoio de sindicatos locais, do MST da região de Campinas e, mais recentemente, o do movimento popular, em especial do qual Movimento de Luta pela Moradia do Vale Bandeirantes (Vila Operária e Popular de Sumaré), com os quais temos uma relação muito estreita", conta Santinho. Representantes do movimento estudantil e hip-hop marcaram presença na Caravana.