Novos modelos de civilização para enfrentar crise ambiental
Em entrevista, Washington Novaes, aponta sociedades indígenas como modelos alternativos
18/09/2009
Joana Moroni
Washington Novaes, jornalista com 53 anos de profissão, formado em Direito, conhecido por seus trabalhos acerca do meio ambiente e por seus livros e documentários sobre povos indígenas, esteve presente na Câmara Municipal de Campo Grande (MS), no evento “Diálogos Contemporâneos”, onde criticou o modelo civilizatório frente à crise ambiental global. O evento realizado nesta terça-feira, 15 de setembro foi uma iniciativa da Fundação Municipal de Cultura (Fundac).
Crítico dos padrões de consumo da humanidade, que estão em descompasso com a capacidade regenerativa do planeta Terra, ele costuma apontar as formas de estrutura social dos povos indígenas como uma referência para a construção de um novo modelo civilizatório frente à crise ambiental.
Na palestra ministrada na Câmara Municipal de Campo Grande, ele frisou que não é um “jornalista especializado em Meio Ambiente ou um ambientalista”. “Eu sou só jornalista”. O destaque para questões ambientais acontece em razão de achar “praticamente impossível” falar sobre qualquer outro assunto sem envolver o meio ambiente. “Tema que assusta”, disse mais tarde, durante a palestra.
“Generalizando um pouco, a gente pode dizer que a mídia está submetida ao modelo hollywoodiano, a notícia como um espetáculo”, disse na entrevista. Ao contrário, ele acredita que a imprensa deveria “informar e habilitar a sociedade para discutir as questões”, para além do factual. Washington reconhece que o meio ambiente evoca uma “questão ameaçadora para políticos, empresários e, até mesmo, para jornalistas. Porque terão que mudar sua visão de mundo”.
Em entrevista para o Unifolha On-line, antes da palestra, Washington apontou que a nossa sociedade enxerga a cultura indígena “apenas como uma coisa exótica. A gente se esquece de olhar as coisas centrais”. O jornalista destacou que, entre alguns povos indígenas, “não há delegação de poder”, tampouco o “domínio de um indivíduo sobre o outro” e se pratica a “democracia do consenso” – conceito estudado pelo antropólogo e anarquista francês, Pierre Clastres, a partir de observações de povos indígenas do Brasil, em especial. Nesta perspectiva, os chefes atuam como “guardiões da cultura”, exercendo uma chefia simbólica e não opressiva.
Outro aspecto que o jornalista levantou é a autosuficiência. Os indígenas são capazes de produzir bens de forma independente, como casas, alimentos e objetos de trabalho, sem uma hierarquização da produção. E o conhecimento é compartilhado, não há apropriação da informação. Washington salientou que o indígena “nasce e morre sem ordens e sem depender de ninguém”.
Washington contou que começou a trabalhar na imprensa quando ainda era estudante de Direito. “Não foi por vocação”. Seu primeiro emprego em um veículo de comunicação foi como revisor da “Folha da Manhã”, que depois veio a se tornar o jornal “Folha de São Paulo”. Após passar por algumas outras redações, decidiu trabalhar na televisão. Foi em 1973, durante a Ditadura Militar, em meio a “um clima pesado nas redações”. Quanto à televisão, “embora houvesse censura, era uma técnica nova”, justifica.
Em 1975 trabalhou no programa “Globo Repórter”. Ele descreve o formato como uma mistura de jornalismo e cinema, já que muitos da equipe já haviam trabalhado com a sétima arte. Após um “tempo extraordinariamente rico e fértil” (conforme ele descreve no livro “A quem pertence a informação”) diretor de redação do jornal impresso “Diário da Manhã”, do estado de Goiás, decidiu viver como “produtor independente”.
Desta iniciativa, documentou “a vida do índio, do nascimento até a morte”, resultando na série “Xingu: a Terra Mágica” – sucesso de audiência na extinta Rede Manchete. Em seguida, ele fez dois documentários sobre o Pantanal e, em 1987, outro documentário acerca da cultura indígena no Xingú, “Kuarup”.
Nos anos de 1991 e 1992, foi secretário de Meio Ambiente, Ciência e Tecnologia do Distrito Federal (DF), uma experiência que o fascinou, por “sair do mundo das palavras para enfrentar coisas concretas”. Logo, foi convidado a ser consultor da “Agenda 21”, trabalhando na “sistematização dos diagnósticos” sobre o meio ambiente.