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Os impactos de um mega-projeto de subdesenvolvimento no RJ

by cristiano last modified 2009-11-06 01:57

Para viabilizar Porto do Açu, o autoproclamado “Homem mais rico do Brasil” ameaça desapropriar mais de 6 mil pessoas e afetar 170 propriedades em 7 mil hectares



 05/11/2009

Leandro Uchoas,

de São João da Barra (RJ)

 

“Quando me disseram que vinha um porto para cá, eu pulava dessa altura de alegria”, conta seu Anadilopes Cabral, de 78 anos. “Mas agora eu vou falar a verdade. Tenho medo de que tirem o velho daqui”. Não por acaso. O simpático agricultor aposentado – que não sabe dizer quantos filhos tem – é apenas uma entre mais de 6 mil pessoas ameaçadas de desapropriação pelas obras do Porto do Açu, no norte do Rio de Janeiro. 170 propriedades em 7.032 hectares de terra estão prontas para ser desalojadas pelo poder público, para a construção do porto privado. Programado para o 5° distrito de São João da Barra (RJ), o despejo é a mais grave das incontáveis denúncias contra o projeto, encabeçado por Eike Batista, o homem mais rico do país, com uma fortuna estimada em 7,5 bilhões de dólares.

“O Estado pode desapropriar para entregar a um empreendimento privado?”, questiona o professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), Arthur Soffiati. Há respostas divergentes a essa pergunta. Enquanto isso, representantes da empresa de logística de Eike Batista, a LLX, já pressionam os proprietários a vender suas terras. Oferecem R$ 1,17 o metro quadrado, valor muito abaixo do cotado hoje – e infinitamente inferior às cotações para depois do início da operação do Porto. A ameaça de despejo terminou por provocar o que os danos ambientais e sociais ainda não haviam criado: resistência. Dezoito famílias se uniram no movimento “Desenvolvimento sim, desapropriação não”, disposto a lutar pelo cancelamento da medida. Registrado em cartório, o movimento organizou um protesto em agosto. Também levou um manifesto com 2 mil assinaturas ao secretário estadual de Desenvolvimento Econômico, Júlio Bueno.

 

Pressão política

Eles acusam a prefeitura de São João da Barra de ter pressionado a Câmara a aprovar a desapropriação a toque de caixa. Em 31 de dezembro de 2008, véspera da posse de novos vereadores, foi aprovada a lei 115/08, que regulamentou o despejo. “Nós só ficamos sabendo em junho”, acusa o agricultor João Marcos. Assim que tomaram conhecimento, os trabalhadores buscaram auxílio entre vereadores próximos. Atualmente, têm apoio de cinco dos nove integrantes da Câmara, entre eles o presidente, Alexandre Rosa (PPS), ex-aliado da prefeita Carla Machado (PMDB). Os vereadores estão pressionando pela revogação da lei, mas enfrentam a sintonia entre empresa, município e estado, e a rejeição dos habitantes da área urbana, simpáticos ao empreendimento. Seduzida pela propaganda pró-Eike Batista, a população do 1° distrito os considera “um movimento político”. “Dizem que somos contra o desenvolvimento. Querem rotular a gente”, protesta o agricultor João Toledo.

Os vereadores aguardam o resultado de estudo sócio-econômico realizado por pesquisadores da Universidade do Vale do Itajaí (Univali). “Estou sentindo que não vai ser positivo”, sussurra o vereador Alexandre, como quem conta um segredo. Segundo ele, a pesquisa está sendo paga pela LLX. Na região, já houve 38 desapropriações para a construção do mineroduto que levará matéria-prima ao porto. A negociação foi feita de casa em casa e as terras receberam maior valor quanto maior era a resistência da família. Mas, até hoje, ninguém recebeu o pagamento. De acordo com os produtores, duas pessoas já teriam morrido de ataque cardíaco na região desapropriada.

 

Os agricultores

No início, quem tomava a frente do movimento era dona Noêmia Magalhães. Ela chegou a dar entrevista para a revista Carta Capital, denunciando o empreendimento. Mas, subitamente, passou a defendê-lo, exibindo faixas de apoio. “Todo mundo viu a prefeita e o secretário [Júlio Bueno] saindo do quintal da casa dela para um comício. Ela serviu um almoço a eles”, acusa João. Os agricultores dizem ter certeza de que as faixas não foram produzidas pelas poucas gráficas de São João da Barra. Dona Noêmia tenta, agora, criar uma comissão de apoio ao empreendimento.

Outra acusação que recai sobre os agricultores é a de que as terras seriam improdutivas. Eles contam que produzem mais de 300 toneladas de verduras e 5 mil litros de leite por semana. Dizem que, efetivada a desapropriação, o Rio de Janeiro e Macaé teriam crise de abastecimento. “Daqui sai mais de dez caminhões de verdura para o Rio, todos os dias”, afirma José Jorge Alvarenga. “Será que esse povo que vai vir pra cá vai comer gusa com minério?”, ironiza o produtor Chiquinho Toledo.

Os agricultores contam que um ano e meio antes das obras, um estranho inseto passou a contaminar o caju, então a principal fruta produzida nas terras. Teria surgido, inicialmente, do mar. Desconfiam que tenha ligação com a instalação do porto. “É especulação demais dizer que isso foi lançado pela empresa. Mas era para, pelo menos, alguma universidade ter feito algum estudo”, diz Marcelo Peixoto, ex-secretário do Planejamento da cidade.

 

Petróleo

A quantidade de terras do 5° distrito é pequena perto das já disponíveis a Eike Batista na região. Desconfia-se que a ambição pela área está relacionada a um mineral abundante no norte fluminense, o petróleo. “Já fizeram várias perfurações e sondagens. E eles levam amostras”, conta João. O produtor Arialdo Páscoa tem, em suas terras, uma chama acesa desde 1981. Perfurando suas terras, encontrou gás natural e ateou fogo. Na ocasião, a Petrobrás o orientou a não estancar a chama, o que causaria uma explosão. Mas disse que ele não tinha direito de exploração. No dia 14 de outubro, a petroleira de Eike Batista, a OGX, anunciou ter encontrado um volume de até 1,5 bilhão de barris de petróleo em terras da bacia de Campos, que explorava há um mês.

Marcelo Peixoto sugere que se pague R$ 10 o metro quadrado, mas admite que valerá dez vezes mais em poucos anos. Os quase mil alqueires da Fazenda Caruara, comprados por Eike Batista junto ao Grupo Othon, foram destinados, pelo governo, à área de proteção ambiental exigida por lei. Com isso, abre-se caminho para exploração de outras terras. O secretário Julio Bueno chegou a visitar o distrito em agosto para, supostamente, ouvir os agricultores. “Só eles falaram de novo”, protesta Rodrigo Santos, um dos líderes. Os produtores protestam ainda contra um possível bloqueio midiático à desapropriação. As duas principais rádios, Barra e Ultra, estariam exaltando o empreendimento a todo momento e um jornalista da Bandeirantes que visitou a região teria desistido da pauta por pressões superiores. “Infelizmente não temos dinheiro para comprar espaço na mídia”, protesta, com ironia, Cecília Rodrigues.

 

 

 

 

Comentários - 13

Página 1
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1 Roberto - 10-11-2009 - 17:29:41h

Sub-desenvolvimento
Porque sub-desenvolvimento? Se justamente, isso possibilita o desenvolvimento do país, gerando mais emprego e renda para os trabalhadores/as. Se a questão é os impactos ambientais, desapropriação, isso me indica que precisamos acumular força para derrotar o K, e não dizer que somos contra o desenvolvimento das forças produtivas!!!!

2 Flávio - 11-11-2009 - 00:36:07h

Subdesenvolvimento
É só ler o artigo integralmente e você vai entender o porquê o articulista acredita nisso. Leia também o outro artigo: http://www.brasildefato.com.br/v01/agencia/nacional/suntuosidade-do-projeto-nao-mascara-volatilidade

3 NORMA - 14-11-2009 - 12:44:21h

riqueza e exploraçao
O PROJETO JÁ FOI APROVADO PELA CAMARA DOS VEREADORES como sempre famílias pobres sofreram , o que esperar de um país onde milhares de brasileiros buscam o que comer no lixo e a corrupçao é estrutural quem investiga a fortuna fabulosa do eike batista extrai ouro e diamantes com máquinas de quem sao as terras .....

4 agropecuarista Sãojoanense - 16-11-2009 - 09:50:30h

DESAPROPIAÇÃO
Em primeiro lugar eu gostaria de agradécer ao jornalista o apoio que está nos dando em mostrar o sofrimento que estamos passando devido ao desrespeito dos políticos e do Sr Eike Batista conosco.
Gostaria que não soasse como ameaças e somente como defesa dos nossos direitos e de muitos anos de trabalho o que vou falar e o jornalista Leandro pode confirmar devido a passagem dele pela região.
Estamos dispostos a matar ou morrer por nosso pedaço de chão e os políticos de São João da Barra estejam preparados para o mar de sangue que ocorrerá na região caso não revertam essa situação...
Podemos até perder e morrer lutando por anos de trabalho em vão mais vamos levar juntos muita gente que está ganhando dinheiro a nossas custas, os quais não terão tempo para usufruir do dinheiro ganho pela desgraça alheia.

5 Flávio Ghilardi - 11-11-2009 - 02:00:32h

Tem que gritar, senão dança!
É pq tu não mora na favela, né?
A acumulação de força está em arrancar do empresário um reassentamento digno dessas famílias! Quem chora não mama, e empresário no Brasil é muito folgado!
Abraços!

6 Agricultor Saojoanense - 16-11-2009 - 08:48:02h

desapropriação
Gostaria de parabenizar e agradecer o Jornalista por ter feito essa matéria mostrando as nossas dificuldades no 5º Distrito. Sou agricultor da região e o que vou dizer não quero que soe como um tom de ameaça, mas uma defesa dos nossos direitos. Se não chegarem numa solução que nos atenda, vai começar a morrer gente na região, pois o pessoal está revoltado com os políticos e o próprio jornalista pode falar melhor sobre o que viu, pois a região está um barril de pólvora pronto a explodir gerando um mar de sangue. É um absurdo o que estão fazendo conosco!!!! Vocês ainda vão ouvir falar muito sobre o porto do AÇU pois se desapropriar mesmo os politicos da região terão problemas para terminar seus mandatos....

7 Mari - 11-11-2009 - 09:46:26h

Contra Desenvolvimento das Forças produtivas? SIM !!!
COMO DIZ ALGUNS MARXISTAS....A MATÉRIA ESTÁ DADA MEU CAMARADA, O CONCRETO SE MOVIMENTA SE MODIFICANDO !!!!!!!!

8 Roberto - 11-11-2009 - 11:06:51h

Desenvolvimento das Forças produtivas
COMO DIZ ALGUNS MARXISTAS....A MATÉRIA ESTÁ DADA MEU CAMARADA, O CONCRETO SE MOVIMENTA SE MODIFICANDO !!!!!!!! Não discordo! Por isso é uma falsa premissa dizer ser contra o desenvolvimento das forças produtivas!

Por seu desenvolvimento que a Humanidade saiu da escuridão do feudalismo, se o desenvolvimento é utilizado para bárbarie capitalista então é um problema do sistema capitalista e não do desenvolvimento das forças produtivas!

Proponha já que vc´s são contra o desenvolvimento das forças produtivas, peguem um carvão escreva em alguma caverna, quem sabe algum dia um historiador encontre seus escritos, para colocar para os seres humanos sua discordancia neste fórum, que também é fruto do desenvolvimento das forças produtivas!!!

Um detalhe, moro na periferia de são paulo, então não precisa me ditar a cartilha de quem mora na favela, sei muito bem o que enfrentar a polícia, e seus capangas!!!!

habraços revolucionários


Roberto

9 Daniela - 15-11-2009 - 20:01:54h

CAPITALISMO progresso pra poucos

Ricos cada vez mais Ricos...Pobres cada vez mais Pobres
Com todas vantagens e desvantagens que esse porto pode gerar,tenho certeza que o principal beneficiado pelo projeto não será o povo.

10 Zezinho - 11-11-2009 - 10:10:47h

subdesenvolvimento
Não me parece que a construção do porto seja, a princípio, o melhor investimento para a região. A construção pode criar imediatamente algumas centenas de empregos diretos, que serão ocupados por trabalhadores vindos de outras regiões e que estão capacitados para isso. Porém, a população que reside na região em que se pretende contruir o porto, provavelmente, não possui qualificação vai sofrer com desemprego. Além disso, pessoas que, atualmente, não são empregadas, mas sim donas de pequenas propriedades (portanto, possíveis empregadoras) perderiam sua unidade produtiva. Isso me parece, na realidade, um desenvolvimento às avessas, ou mais precisamente, um passo para aprofundar o subdesenvolvimento, algo como a rainha vermelha de Alice no País das Maravilhas: corre-se, corre-se e corre-se, mas permanece-se no mesmo lugar.

11 silsam - 15-11-2009 - 13:59:39h

desapropriaçãoxpoder ignorado
Entendo sua colocação , pois vc ñ deve conhecer a realidade das 1500 famílias que vivem exssencialmente da agricultura de sub-existência, muito menos da falta de necessidade de tomar as terras dessas pessoas, que em sua maioria ñ tem nem o primário de formção, já que a região do município citado na reportagem é composta em sua grande parte(70%)por terras de usineiros e poucos grandes fazendeiros(estas por sinal estão improdutivas)abandonadas, e uma pena um comentário sem embasamento...

12 silsam - 15-11-2009 - 14:07:46h

desapropriaçãoxpoder ignorado
Entendo sua colocação(1° comentário do Roberto) , pois vc ñ deve conhecer a realidade das 1500 famílias que vivem exssencialmente da agricultura de sub-existência, muito menos da falta de necessidade de tomar as terras dessas pessoas, que em sua maioria ñ tem nem o primário de formação, já que a região do município citado na reportagem é composta em sua grande parte(70%)por terras de usineiros e poucos grandes fazendeiros(estas por sinal estão improdutivas)abandonadas, e uma pena um comentário sem embasamento...

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