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Para Folha de S. Paulo, regime militar no Brasil foi "ditabranda"

by jpereira — last modified 2009-02-23 21:42

Jornal considerou a indignação de intelectuais como “mentirosa e cínica”; o jurista Fábio Konder Comparato e a cientista política Maria Victoria Benevides foram ofendidos por uma nota da redação

 20/02/2009

Renato Godoy de Toledo,

da Redação

Em editorial no dia 17 de fevereiro, o jornal paulista Folha de S.Paulo criticou a vitória do “Sim” no referendo na Venezuela, que permite a reeleição ilimitada de políticos em cargos eletivos naquele país. A oposição do jornal ao mandatário venezuelano não foi surpresa, já que todos os meios da chamada grande imprensa seguem essa postura. No entanto, ao comparar o processo venezuelano com as ditaduras militares latino-americanas, a Folha criou um neologismo que causou indignação entre representantes da sociedade civil.

Para o jornal controlado pela família Frias, o regime militar brasileiro foi uma “ditabranda”. O editorial afirma que as ditaduras brasileiras percorreram o caminho inverso dos atuais presidentes de esquerda da América Latina. Enquanto os militares romperam com a institucionalidade democrática e “implantavam formas controladas de disputa política”, os novos “autoritários” “minam os controles democráticos por dentro”. Vale lembrar que Chávez, em 10 anos de poder, disputou 15 eleições, venceu 14, sendo uma delas proposta por ele mesmo para que o eleitorado decidisse sobre sua continuidade, em 2004. Todos os processos foram acompanhados por observadores internacionais.

Indignação

A opinião do diário causou indignação entre alguns leitores. No dia 19 de fevereiro, o leitor Sérgio Pinheiro Lopes teve sua carta publicada na Folha. Para ele, a atitude da publicação é “um tapa na cara da história da nação e uma vergonha para este diário”. A redação respondeu: “Na comparação com outros regimes instalados na região no período, a ditadura brasileira apresentou níveis baixos de violência política e institucional”.

No dia seguinte, mais cinco cartas foram publicadas sobre o tema. Apenas um militar reformado defendeu o jornal. Entre os críticos do editorial, estavam o jurista Fábio Konder Comparato e a cientista política Maria Victoria Benevides, que foram ofendidos pela nota da redação: “A Folha respeita a opinião de leitores que discordam da qualificação aplicada em editorial ao regime militar brasileiro e publica algumas dessas manifestações acima. Quanto aos professores Comparato e Benevides, figuras públicas que até hoje não expressaram repúdio a ditaduras de esquerda, como aquela ainda vigente em Cuba, sua ‘indignação’ é obviamente cínica e mentirosa”.

 

Reação

O professor de direito da Universidade de São Paulo, Fábio Konder Comparato, analisa o caso para saber qual a providência deve tomar. “A primeira medida que eu tomei foi cancelar a assinatura do jornal, porque um jornal que se preza não pode ter como assinante um cínico e mentiroso. De resto, estou analisando o caso para ver se cabe uma ação judicial [contra o diário]”, afirmou.

Para o jurista, o caso é sintomático. “Acho que é a primeira vez que um jornal usa essa expressão de muito mal gosto [‘ditabranda’]. Em um momento em que se discute a anistia aos assassinos, estupradores e torturadores, a postura do jornal vai ser avaliada”, acredita.

Maria Victoria Benevides também considera que a reação do jornal é uma contra-ofensiva ao movimento que debate a anistia a torturadores da ditadura. “Todo esse descontrole da Folha de S. Paulo, que passa do nível do irracionalismo e da indecência, se deve a uma reação contra uma campanha, na qual o professor Fábio e eu estamos envolvidos, de discutir a anistia aos torturadores, que visa questionar vários pontos do regime militar que tem sido tratado no velho estilo da conciliação brasileira”, analisa.

Tal como Comparato, Benevides cancelou a assinatura do jornal e afirma que não irá mais escrever artigos ou conceder entrevistas ao periódico. Ela diz ter recebido dezenas de mensagens de solidariedade de ex-alunos e intelectuais, muitos dos quais afirmam ter cancelado a assinatura do jornal.

Benevides afirma que irá acompanhar o desdobramento judicial do caso ao lado de Comparato. “Eu tenho total confiança no professor Comparato e no seu saber jurídico. Vou acompanhar a decisão dele. No momento, temos que esperar um pouco, porque é uma época muito difícil de mobilizar as pessoas, por ser carnaval”, afirma..

O fato de a publicação ter aceitado a crítica de outros leitores, mas rechaçado a de Comparato e Benevides, é motivado por questões estritamente políticas, segundo ela. “O jornal está comprometido com outra proposta eleitoral, outro tipo de governo. Eles querem uma aliança com a política mais tradicional, oligárquica, ligado ao neoliberalismo e está se sentido a ameaça que pode ser a candidatura da Dilma Rousseff”, avalia.

A professora também critica a forma como a empresa identificou o autor das respostas. “Normalmente, a Folha publica no painel do leitor a resposta do autor da matéria. Mas dessa vez assinava como ‘da Redação’. Quem é a redação? O dono do jornal? O conselho editorial? Tenho certeza que no conselho editorial, o Jânio de Freitas e o Marcelo Coelho [colunistas do jornal], não escreveriam esses insultos”, pontua.

 

Colaboração na ditadura

De acordo com a cientista política, o editorial da Folha e a sua reação frente às críticas, fizeram com que muitos lembrassem do papel da empresa durante o regime militar. “Entre as mensagens que tenho recebido, muitos estão ressaltando o fato de que a Folha da Manhã emprestava seus furgões à repressão para transportar presos e torturados”, revela.

Comentários - 37

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1 venceslau alves de souza - 24-02-2009 - 07:39:57h

Onde está a novidade?
Onde está a novidade em a "Folha" abrandar o horror militar e tentar desqualificar Benevides e Comparato? Viajando pelo Nordeste, observei que Gaspari escreve em o "Estado do Maranhão", de propriedade de Sarney, que , por sua vez, escreve na Folha. Em Alagoas não é diferente com os Collor, bem como em Sergipe, em Minas Gerais e em outros Estados e inúmeras cidades.O sistema do "é dando que se recebe" se atualizou e ganhou a forma de um coronelismo eletrônico. Bem fazemos nós, que denunciamos as mazelas e defendemos quem tem vergonha na cara, não permitindo que o País seja invadido pela indiferença!

2 Vanessa Ramos - 24-02-2009 - 10:41:34h

Seriedade em jornalismo
São matérias como essa, acima, que comprovam a todos/as leitores/as que existe um jornalismo sério e preocupado com as questões do Brasil e do mundo. Um jornal que respeita seus leitores e que não os aliena do mundo e muito menos os desrespeita em seus comentários. Jornal Brasil de Fato é mesmo um meio de comunicação do povo e para o povo. Traz a visão popular dos fatos.

3 José Aparecido dos Santos - 24-02-2009 - 11:26:06h

Desqualifição da "Folha" sobre Política.
Primeiramente notifico que há muitos era assinante deste jornal. Em solidariedade a Fabio Konder Comparato e a cientista Benevides estou cancelando a assenatura disto que de agora em diante chamo de jornaleco.
Que capacidade tem este jornaleco para debater com a postura profícuamene politica e eminentemente ética do Professor Comparato que tem uma comprovada luta em da construção de um Brasil justo e igualitário, prenuncio de um futuro a chegaremos um dia para desespero oligárquicos?!
E'exatamente o que o sexto sentido da Cientista Política Benevides já percebeu e chama a atenção para que fiquemos atentos: "Dilma Rousseff, uma mulher com reais possibilidades de continuar a transformação deste país assusta" e faz os cães latirem!
Aliás, é isto que mais assusta estes jornalecos é o fato de o povo estar se politizando e preconizando mudanças que um dia vai puxar o tapete da elite brasileira, chamada de burra!

4 lucia lebre - 28-02-2009 - 13:42:19h

A qualifição da "Folha" sobre Política benevides e comparato
Muito bem e muito boa a matéria da Folha e mais ainda a resposta à essa gente cínica que esbraveja contra a reação à uma tentativa de implantação de um regime sanguiário no Brasil, ( na qual, infelizmente morreram cerca de 500 pessoas) E DESCONVERSA SOBRE A DITADURA DE CASTRO ( 100.000 PESSOAS FUZILADAS) OU A DITADURA BOLCHEVIQUE ( 32 MILHÕES DE PESSOAS FUZILADAS)
A APRTIR DE HOJE VOU ASSINAR A FOLHA DE SÃO PAULO. AGORA O JORNAL , MOSTRA, NOVAMENTE,QUE REPRESENTA A VERDADEIRA DEMOCRACIA!

5 maria de fátima diamantino leão - 01-03-2009 - 10:13:33h

ditabranda
Só lamento. Vai ficar ainda mais OBTUSA com essa escolha. Mas agradeça a pessoas como Comparato e Benevides pelo fato de você poder está aí podendo falar asneiras sem ser presa e torturada.

6 Texugo - 03-03-2009 - 12:43:24h

hipocrisia
É sempre o mesmo papo, quando alguém não se mostra contra a ditadura, já aparece um sujeito dizendo que graças aos "guerreiros da liberdade" que lutaram contra a ditadura que hoje temos liberdade de expressão.

Pergunto: se vocês defendem tanto a liberdade de expressão, por que condenam a Folha, se o comentário da ditabranda foi publicado no editorial, espaço reservado de fato para que o jornal expresse a sua opinião? O jornal não tem direito de expressar o que pensa, ainda mais em um campo destinado para tal? Posso apostar que se aparecer um jornal fazendo um editorial dizendo que Cuba é um exemplo de democracia ou que os EUA são o Império do Mal, vocês aplaudiriam...

E concordo com a resposta que a Folha deu para os dois "intelectuais": se eles querem condenar a ditadura, devem também condenar todas as ditaduras, inclusive e principalmente as de esquerda como Cuba e a antiga URSS, onde morreu muito mais gente do que aqui. Dizer que não tem nada a ver não cola, a pessoa que condena a ditadura militar brasileira porém se "esquece" da cubana além de estar sendo hipócrita mostra que não é contra o tipo de regime, mas apenas contra quem estava no poder. São pessoas que odeiam a ditadura militar e de direita, mas que deixam claro que defenderiam uma ditadura de esquerda.

Para finalizar, acho que de fato a lei de anistia aos torturadores deve ser cancelada e eles devem ser punidos pelos seus crimes. Mas também não vamos nos esquecer daqueles que lutaram contra a ditadura com a mesma violência, promovendo roubos, sequestros e assassinatos. Que eles também sejam julgados e punidos pelos seus crimes com o mesmo rigor, assim como devolvam as suas idenizações milionários que recebem até hoje. E não venham com a palhaçada de dizer que os fins justificam os meios.

7 Eliseo - 20-03-2009 - 06:20:08h

Iguais ao Ladrão Collor
"Aliás, é isto que mais assusta estes jornalecos", creio eu que nada assusta a FOLHA diante de tanta perseguição apenas por expressar uma posição contrária, enquanto outros "jornalecos" estão em cima do muro. Seria de agrado de vocês que assim como o Fernando Collor, a "dilma futura presidenta - hahaha" mandasse invadir o prédio da Folha também né ? Assim, acho que seria muito bom também ela confiscar o vosso dinheiro . Na minha humilde opinião, pois não sou jurista nem muito menos professor, TODOS INVENTOS DE PERSONALIDADES MAU CARATER DEVERIAM SER ANIQUILADOS E RETIRADOS DE ONDE FORAM INSTALADOS E JAMAIS DEVERIAM SER IMITADOS. Me refiro como exemplo o ECA do Collor (Que na verdade é mesmo uma eca-- eca que nojo) que desencadeou um efeito "porcaria, para não dizer M...A" na qualidade de ensino e no carater das crianças HOJE . ou será que o povinho não sabe usa-lo ?

8 Luana Elainy - 24-02-2009 - 18:08:35h

Apenas cito Galeano...
A desmemória/2

O medo seca a boca, molha as mãos e mutila. O medo de saber nos condena à ignorância; o medo de fazer nos reduz à impotência. A ditadura militar, medo de escutar, medo de dizer, nos converteu em surdos e mudos. Agora a democracia, que tem medo de recordar, nos adoece de amnésia; mas não se necessita ter Sigmund Freud para saber que não existe o tapete que possa ocultar a sujeira da memória.

Eduardo Galeano (Livro dos Abraços)

9 Maria Ariadne - 25-02-2009 - 12:12:57h

Ditabranda e Cuba
Mas afinal, Benevides e Comparato já repudiaram a ditadura de Cuba ou não?
Ou só sabem repudiar as ditaduras de direita? De esquerda pode prender e matar e de direita não?
Eu só queria entender.
Ariadne

10 Eder Fernando dos Santos - 25-02-2009 - 16:35:10h

Cuba, ditadura ou não?
Cara Maria Ariadne. Tem clareza do que viria ser o termo ditadura? Consegue localizar e compreender os processos históricos cubano e brasileiro? Consegue identificar as particulaidades de ambos os processos? Como pode iguala-los? Sob quais argumentos? Conhece o projeto socialista revolucionário? Entendes o significado de "ditadura do proletariado"? E de ditadura burguesa? Luta de classes, revolução, socialismo e comunismo? São apenas sugestões de estudos para que pare de falar besteiras.

11 José Aparecido dos Santos - 25-02-2009 - 19:51:30h

Ditabranca e Cuba
Endosso plenamente o texto de Eder Fernando dos Santos. Como uma pessoal como Maria Ariadne opinar sobre coisas que ela demonstra não ter o menor conhecimento histórico, político etc. O pior analfabeto não aquele que não sabe escrever ou ler. Esta Maria Ariadne é o tipo clássico do analfabeto político. O pior de todos. Não há parâmetros para se conversar com este tipo de gente desqualificada, que se mete a emitir opinião sobre o que não tem noção alguma. E'o que está dito no portugesinho dela!

12 Lúcio Santos - 26-02-2009 - 12:12:54h

Ditabranda e Cuba
Começando pelo final.. "são apenas sugestões de estudos para que pare de falar besteiras"... Esta frase não é nova.Mao Tsé-Tung , dizia" quem não investiga não tem direito a palavra..porém é necessário fazer algumas correções nas duas afirmativas.
O fato de conhecer o processo histórico, os processos de lutas de classes, a história das revoluções e analisar as experiências socialistas, necessáriamente não me leva a verdade, apenas facilita sua busca, porque se assim o fosse todos os grandes lideres como Stalin, Fidel, Mao e tantos outros não teriam desenvolvido teorias e práticas de assassinatos de trabalhadores, repressão a greves operárias(Venerzuela) etc.