Racionalidade no uso da energia
Aumenta pressão para a produção de mais energia elétrica com a ameaça de racionamento ventilado pelo setor empresarial
31/01/2008
Eduardo
Sales
da
Redação
Fato: boa parte das represas brasileiras estão no limite da capacidade mínima para a produção de energia. Motivo de apreensão que faz os brasileiros lembrarem a situação vivida em 2001 e 2002, quando os reservatórios das regiões Sudeste e Centro-Oeste terminaram o período de chuvas com 32,18% de sua capacidade.
Hoje, a situação é de atenção, mas não desesperadora. Os reservatórios do Sudeste e do Centro-Oeste apresentaram uma média de 46% de sua capacidade no mês de janeiro, diante de uma exigência mínima de 48,1% traçada para essa época do ano.
Outro
fato: com crescimento da economia, a geração de energia
elétrica em janeiro atingiu 50.866 megawatts (MW) médios,
o que significa aumento de 3,4% em relação ao observado
nesse mesmo mês em 2007, segundo dados divulgados
nesta quinta-feira (31) pelo Operador Nacional de
Energia Elétrica (ONS), órgão que controla a
produção de energia no país. No acumulado em 12
meses até janeiro, o aumento foi de 4,8% em relação
a igual período anterior.
Para o setor privado,
faz-se necessária a ampliação da geração
de energia, com a construção de novas usinas. Mas isso pode ser realizado
através da otimização de instrumentos e
equipamentos industriais e residenciais, como, por exemplo, a troca
de lâmpadas incandescentes por fluorescentes, além da
própria manutenção das redes geradores e
distribuidores de energia. Em relatório enviado no final de
2007 ao Ministério de Minas e Energia, à Agência
Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e ao ONS, a Coordenação
dos Programas de Pós-Graduação de Engenharia
(Coppe) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) recomendou
ao governo a adoção de um plano de otimização
do uso de energia.
Tendo em mente que a potência média do país é de cerca de 60 mil megawatts, haveria uma economia de 10% por meio desses métodos, o que geraria o equivalente a 6 mil MW médios, segundo o professor Luiz Pinguelli Rosa, ex-presidente da Eletrobrás e diretor da Coope. Trata-se, também, segundo Pinguelli, de implantar um sistema planejado de estímulo à redução de perdas na geração, transmissão, distribuição da energia elétrica. Os efeitos apareceriam em um ano.
Um bem privado
Apesar de tratar-se de um bem ambiental coletivo, a energia vem sendo encarada cada vez mais como uma commodity. Em 2004, o valor da energia elétrica no “mercado spot” (onde são realizadas as transações nas bolsas de valores) era de R$ 18 MW/hora, hoje, R$ 500 MW/hora.
Para Célio Berman, integrante do Programa de Pós-Gradução em Energia da Universidade São Paulo (USP), as constantes pressões relacionadas ao racionamento têm a ver, além do crescimento econômico do país, com a privatização do setor elétrico em geral. Na sua visão, o interesse das companhias e dos investidores fazem com que não existam programas de médio e longo prazo para evitar o racionamento.
Em seu último artigo, Pinguelli ressalta que as grandes empresas compraram energia barata da rede de forma desregulamentada, dificultando o planejamento. Estas representam mais de 25% do consumo de energia elétrica do país, segundo Pinguelli. “É preciso estabelecer regras para dar transparência na comercialização de energia”, defende.
Ao Brasil de Fato, Berman aponta um outro problema, o alto consumo das eletrointensivas. “O problema se deve ao modelo industrial que faz com que 50% da energia elétrica no Brasil seja consumida por indústrias, sendo que 30% disso números se restringe aos setores eletrointensivos (cimento, aço, alumínio, ferro-ligas, petroquímica e papel e celulose)”, explica.
Segundo o especialista, o governo federal tem dificuldade de impor a redução do consumo de energia dessas companhias que geram pouco emprego e exportam produtos de baixo valor agregado. “Esses setores tem um poder político muito grande e o governo se submete a eles. Não são feitas normas que beneficiam mais o população por isso. São indústrias com muita força nos cenário internacional”, analisa.
“O alumínio é vendido a um preço insignificante para o mercado internacional e gera pouco emprego. Fiz uma avaliação há pouco tempo sobre a mão-de-obra empregada para produção de alumínio e concluí que é 70 vezes menor do que a gerada pela indústria de alimentos e bebidas e 40 vezes menor do que a gerada pela indústria têxtil”, explica Berman, em artigo.
Mas a redução de energia não tenderia, conseqüentemente à diminuição dos empregos no setor? Para o especialista, não. “Os efeitos são reduzidos em relação ao emprego se considerarmos a redução de escala de produção dessas indústrias”, pondera. Ele aponta que o racionamento é um expediente que não deve ser utilizado por penalizar a população em geral.