Um bem público a serviço de interesses privados
Empresas não cumprem as poucas restrições legais, como dedicar no máximo 25% de sua programação com publicidade
Mayrá Lima,
de
Brasília (DF)
Os oligopólios de comunicação no Brasil exploram um bem público, o espaço radioelétrico, mas não são submetidos a nenhum tipo de controle social. Essa é uma das contradições apontadas por movimentos sociais sobre a atuação dos grupos empresariais de mídia no país. “Centenas de concessões estão sendo utilizadas exclusivamente por interesses privados. Nós vemos isso quando uma emissora que está utilizando um serviço público toma partido numa eleição presidencial, ou quando distorce a imagem de um determinado setor da sociedade sem garantir que esse setor tenha o espaço equivalente para se defender. São fatos que provam o ferimento desse principio do interesse público”, analisa o integrante do Intervozes, Braúlio Ribeiro.
Para ele, esta situação se torna absurda porque a radiodifusão é um serviço público e, como tal, deveria ser tratada de forma democrática e transparente. “A comunicação, mais especificamente a radiodifusão, é um dos elos centrais na formação política, cultural, social de qualquer nação. É um dos elementos fundamentais na construção de uma sociedade contemporânea e ela lida com questões muito caras, como a língua, os referenciais culturais, políticos”, avalia.
Liberdade de empresa
Essa falta de regras que estabeleçam uma espécie de “função social” do espectro eletromagnético dos canais fica evidente no momento da renovação das concessões. Ao invés de ser uma ocasião de avaliação do desempenho das entidades concessionárias, o processo se resume a uma avaliação técnica e burocrática da emissora, como a análise de certidões, pareceres sobre os equipamentos. O conteúdo e a programação, questões de interesse público, são desconsiderados.
Ribeiro aponta outro problema: as pequenas normas que existem para se controlar estes canais não são observadas diante da falta de fiscalização. Percentuais mínimos de programação noticiosa (5%), percentual máximo de publicidade (25%), não são respeitados, por exemplo. “Temos casos clássicos de ferimento a essas regras, como as TVs que só transmitem produtos para televenda. Tem permissionários que operam em UHF que passam o dia inteiro promovendo produtos, os chamados canais de compra”, exemplificou.
O limite de propriedade é outra regra que costumeiramente não é respeitada pelas grandes empresas privadas de comunicação. De acordo com a legislação que regulamenta a Comunicação Social no Brasil, uma mesma empresa não pode possuir mais de um canal VHF pelo País, ou em um Estado. Rádios FMs seguem a mesma linha. Uma das formas de driblar essa restrição são as redes. “Essas redes formam praticamente um único canal de comunicação, porque a participação das afiliadas é tão pífia que você não pode chegar a dizer que são outros canais de televisão. São os mesmos canais replicados e desrespeitando o limite de propriedade”, denunciou Ribeiro.
Comentários - 3
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2 Mardones Ferreira - 06-10-2007 - 10:39:22h
Tvs e RádiosConcordo com o exposto acima. Além do mais, de modo geral, o brasileiro não está acostumado a discutir a função das coisas. E muitas delas acabam se tornando espaços de interesse privado, como é o caso das emissoras de rádio e tv. É preciso um reclame social com efeito político, pois depende deles a renovação dos contratos e a contar pelos seus interesses, não podemos esperar que uma mudança significante aconteça nesse campo. Se a Rede Globo não foi punida por manipular o debate para a campanha presidencial, o que se pode esperar que rádios e tvs façam para que possam sofrer sanções? Obrigado por trazer esse tema nessa página.
3 Maia Helena Simões Paes - 06-10-2007 - 21:46:16h
desconhecimento sobre comunicaçõesÉ extremamente importante que a população tenha conhecimento sobre o que são concessões para rádios e TVs. É um conhecimento que deveria estar presente na escola, no mínimo, em História do Brasil. Porém não está. Como é que se poderia pensar nisso?
1 José Augusto - 05-10-2007 - 13:37:59h
A Pobreza na comunicaçãoRealmente somos carentes de veículos de comunicação isentos da cumplicidade política e religiosa, por isso concordo plenamente com o sr Bráulio Ribeiro.