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Religiosos denunciam perseguição em Rondônia

by jperuano — last modified 2006-09-21 13:49

Bispo de Ji-Paraná e freira reivindicam liberdade de expressão

Eduardo Sales de Lima,
> da Reda&ccedil;&atilde;o<em>

Movimentos sociais e religiosos de Rondônia vêm lutando contra a corrupção no Estado. Em agosto, um cartaz com fotos de 23 parlamentares, envolvidos em casos de corrupção, e do governador Ivo Cassol (PPS) foi confeccionado em conjunto pela diocese de Ji-Paraná, pela Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, pelo Projeto Padre Ezequiel, pelo Fórum Transparência, pela Cáritas Diocesana e pelo Conselho de Leigos da diocese.
> <br> Ao ver sua foto ao lado dos deputados estaduais envolvidos em casos de corrupção, o governador Ivo Cassol resolveu abrir processo por difamação e injúria contra o bispo da Diocese de Ji-Paraná, dom Antônio Possamai, e contra a freira Isabel Rocio Kuss, que, se condenada, pode permanecer mais de 3 anos na prisão.
> <br> Segundo a diocese, no dia 28 de agosto, Cassol causou um clima de desconforto com o bispo dom Possamai, quando teria interrompido uma reunião de representantes de entidades religiosas em Ji-Paraná e ameaçado a todos os presentes.

"Ele não agendou nada, e quando estávamos reunidos com o grupo que trabalhou comigo nesse cartaz, ele telefonou da rua pedindo um encontro. Nós estávamos reunidos, dando uma entrevista à imprensa e julgamos melhor atendê-lo. Poderíamos ter dito não, inclusive porque não havia espaço em minha agenda. Mas ao contrário, julgamos bem atendê-lo, desde que a imprensa estivesse presente. Daí, ele começou logo atacando a minha pessoa, a Igreja Católica e se declarando uma pessoa justa. A partir daí eu também comecei a falar, apontando que nem sempre ele é tão justo e tão honesto como apregoa, o que fez com que ele se decidisse por me processar", explica dom Antônio.
> <br> Sérgio Pires, assessor do governador Ivo Cassol, afirma que tudo foi um "mal-entendido". "Foi o governador que denunciou os deputados corruptos, e não pode ser colocado no mesmo saco", defende seu assessor. Ele sustenta que a família do governador está correndo risco por ele ter auxiliado nas investigações dos deputados corruptos e que, como cidadão, sentiu-se no direito de se defender das acusações dos religiosos. "As ações dessas entidades provém de movimentos ligados ao PT, que está tomando uma surra aqui em Rondônia", argumenta Pires.
> <br> Para o presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT) de Rondônia, Itamar dos Santos, sob o ponto de vista dos trabalhadores, esse é um governo que não dialoga com os movimentos e tem características de retaliação e perseguição.

"Nesse incidente com o bispo, a CUT soltou uma nota de apoio defendendo a liberdade de expressão no processo democrático. Esse é mais um exemplo da incapacidade de conviver com posições contrárias, o que é uma exigência da democracia", diz.

De acordo com Santos, é necessário haver maior visibilidade midiática acerca da política de Rondônia: "Se as irregularidades fossem mais evidenciadas na grande imprensa, aumentariam as chances de punições".
> <br> A mais recente preocupação das entidades religiosas e de movimentos sociais de Rondônia trata-se de um bilhete com ameaças à vida do bispo Possamai e de pessoas ligadas à Pastoral da diocese, deixado no dia 1° de setembro, na porta da Cúria Diocesana.

De autoria desconhecida, o bilhete diz: "Os próximos dias serão decisivos (...) Se quer virar santo, é só continuar agindo assim (...) O pior pode acontecer com você e outros irmãos que o acompanham nessa trajetória suicida. Lembre-se de que, por muito menos, alguns religiosos foram assassinados."
> <br> Mesmo com a ameaça anônima, dom Possamai continua a sua luta pela ética na política. "Sabemos que o grau de impunidade que existe aqui é muito alto. O fato de esses 23 deputados até hoje não terem sido punidos e terem a liberdade de concorrer mais uma vez é um sinal disso", diz o religioso.

A Irmã que incomoda
> <strong>Já a religiosa Isabel Rocio Kuss, que também está sendo processada por Cassol, publicou na internet uma carta na qual afirma que o governador teria feito "jogo de cena" na reunião das entidades religiosas.

Diz a carta: "No dia 28 de agosto, o governador veio tirar satisfação com o bispo dom Antonio Possamai procurando saber os motivos pelos quais seu nome e foto estavam no cartaz "CHEGA DE CORRUPÇÃO, PROPINAS, FALTA DE ÉTICA E IMPUNIDADE!" Dom Antonio, ao contrário do governador, que com arrogância deu de dedo na cara de todos, manteve-se calmo e sereno escutando as agressões do governador. Ao final do "comício" ou "teatro" do governador, dom Antonio também se pronunciou com as seguintes palavras: "Nós temos aqui todos os processos que estão correndo na Justiça contra você. Não é tão inocente assim como você diz. Por que é que nós colocamos a sua fotografia no cartaz? Baseados em tudo isso... Essa ofensa aos direitos humanos, que vocês infringiram em cima das crianças, que as obrigam a sair de casa de madrugada, a voltar tarde da noite em cima de um ônibus velho (...)", por exemplo. Na representação, Cassol sugere ter tido a sua honra atingida com a publicação desta carta.
> <br> Isabel acusa também o governador de ter mandado gravar uma das missas para observar o que os fiéis discutiam sobre o clima de corrupção que impera no Estado. "No dia 29 de agosto, o senhor governador protocolou no Tribunal Regional Eleitoral (TRE-RO) uma denúncia que merece ser comentada. Afirmou que em uma missa em Rolim de Moura, o padre falou dos cartazes e da posição das entidades em lançar esclarecimentos à população. Um absurdo! O próprio governador entregou no Tribunal um CD gravado e a transcrição do mesmo, onde gravou a missa (...) Se não estamos enganados o Serviço de Investigação Nacional (SNI) foi desativado há décadas... Será que agora voltamos à ditadura?", indaga a carta.

Para dom Antônio Possamai, a Irmã Isabel, que também é advogada, utilizou o direito de se manifestar. "Ele poderia, quando muito, publicar um nota de esclarecimento à imprensa. Seria o direito de ele se defender, mas apelou logo pelo processo", diz. Segundo o bispo, a verdade incomoda os que praticam irregularidades. "Tudo isso a gente já vive tendo uma experiência histórica, foi sempre assim na história da nossa igreja, porque é fiel à verdade, aos princípios da justiça. Ela de fato não é bem vista pelas pessoas que não praticam a justiça", conclui.