Por que os indígenas da Colômbia protestam
O governo colombiano foi o único da América Latina que não votou a favor da Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas, adotada em 13 de setembro de 2007
Héctor Mondragón
A Minga
Nacional de Resistência Indígena e Popular mobiliza, durante as duas últimas
semanas, os povos nativos em 17 departamentos da Colômbia. Ocorrem também
paralisações de atividades dos trabalhadores no setor açucareiro, dos juízes e
de outros empregados do setor público. Para um governo aferrado aos dados dos
institutos de pesquisas, que o colocam no ápice da popularidade, os protestos
não podem ser outra coisa que não seja conspirações políticas, infiltrações da
guerrilha ou planos de desestabilização.
Entretanto, o aumento do inconformismo demonstrado pela Minga, “trabalho
coletivo para o bem comum”, e as greves que vão se somando para formar um
movimento cada vez mais contínuo, são, antes de tudo, o resultado de fatos
econômicos, de leis aprovadas e de políticas do governo, enquanto este se
empenha em fechar os olhos. A luta dos povos indígenas cresceu desde 2004.
A Minga Indígena na cidade de Cali em setembro de 2004, a consulta popular
que rejeitou o Tratado de Livre Comércio (TLC) com os Estados Unidos em seis
municípios do departamento de Cauca em 2005, e a liberação da Mãe Terra em 20
fazendas de Cauca entre setembro e novembro desse ano, pelo não-cumprimento da
reparação integral pelo massacre de 20 indígenas no El Nilo (cometido no dia 16
de dezembro de 1991), foram maciças mobilizações que sacudiram as mentalidades.
Também foi a cúpula contra o TLC, de maio de 2006, que paralisou Cauca e
seu vizinho Nariño durante cinco dias, opinião também expressada em marchas nos
departamentos de Huila, Valle del Cauca, Tolima, Caldas e outros lugares. No
dia 19 de agosto deste ano, em Popayán, capital de Cauca, a marcha em
solidariedade aos leiteiros afetados por medidas oficiais foi uma festa
popular.
Embora seus direitos fundamentais estejam reconhecidos pela Constituição e
por convênios internacionais, os indígenas lutam porque na prática
governamental se desconhece a obrigação de consultá-los sobre a adoção de
qualquer medida legislativa ou administrativa que os afete. Assim ocorreu com a
lei florestal, declarada inconstitucional pela Corte Constitucional depois de
vários meses de vigência, pela falta de consulta aos indígenas e
afro-colombianos.
Os TLC com os Estados Unidos e o Canadá são considerados pelos povos
indígenas lesivos aos seus direitos, pois permitem que árbitros internacionais
dirimam seus conflitos com empresas multinacionais, estabelecem normas de
propriedade intelectual que ameaçam a propriedade coletiva do saber e do
patrimônio cultural, e permitem patentear seres vivos. Além disso, esses TLC
estimulam as privatizações e priorizam leis aprovadas contra os indígenas, sob
a alegação de uma “estabilidade jurídica” que garante indenizações aos
investidores se essas leis forem alteradas.
A importação de alimentos, incentivada pelos tratados, afeta os indígenas
como aos demais agricultores. O governo apresentou projetos de lei e reformas à
Constituição para reduzir ou eliminar direitos indígenas. O Estatuto Rural de
2007 é um exemplo: em seus artigos contradiz direitos consagrados pelo Convênio
169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), proíbe que na região do
Pacifico e na bacia do Rio Atrato (noroeste do país) sejam constituídas ou
ampliadas reservas indígenas e que seja devolvido, ou saneado, o território
perdido às já existentes.
O Estatuto permite aos municípios e aos departamentos desconhecer o
território indígena mediante normas de ordenamento territorial e exige dos
povos nômades e horticultores itinerantes uma ocupação “regular e permanente”.
Outras leis sobre mineração ou exploração de hidrocarbonos e aqüedutos e vários
projetos sobre águas ou terras também são lesivos. O governo chegou a propor
reformas constitucionais para eliminar a ação judicial de tutela, que permite
proteger direitos coletivos, e para suprimir o caráter de entidade territorial
autônoma que têm todos os territórios indígenas.
O governo colombiano foi o único da América Latina que não votou a favor
da Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas, adotada
em 13 de setembro de 2007. Estados Unidos e Canadá votaram contra. Os indígenas
protestam porque os TLC com estes dois países e as normas desfavoráveis foram
impostas em meio a uma escalada de violência, assassinatos e violações
múltiplas de seus direitos humanos. A maior quantidade de assassinatos de
indígenas, desde que existem estatísticas, se registrou no primeiro período do
governo de Álvaro Uribe (2002-2006).
Entre 17 de setembro e 12 de outubro foram assassinados na Colômbia 15
nativos. Desde 2005, as mobilizações são reprimidas com fuzis, com saldos de
mortos e feridos a tiros. Isso se repetiu neste mês de outubro. Os
assassinatos, que durante anos foram cometidos por paramilitares, guerrilheiros
e a força pública, bem como a repressão armada às mobilizações, estão ajudando
a despojar os indígenas de seus direitos.
A resistência de 500 anos permitiu aos indígenas conservar 20% de seu
território. Apostam na resistência civil porque entendem que o atual conflito
armado serve para deslocar maciçamente a população e é o motor de um despojamento
não apenas de terras, mas de direitos. Assim, a Minga de Resistência deste mês
de outubro, da qual faz parte a grande marcha de Cali dirigida pela Organização
Nacional Indígena da Colômbia (ONIC), foi preparada com o povo, em centenas de
assembléias, audiências e reuniões comunitárias. Daí seu êxito.
Héctor Mondragón é economista e
pesquisador do Centro de Cooperação com o Indígena da Colômbia.