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Um triste congresso, por Luiz Eduardo Merlino

by Michelle Amaral da Silva last modified 2008-10-17 13:43

O Brasil de Fato reproduz reportagem do jornalista Luiz Eduardo Merlino sobre o 30º Congresso da UNE, publicada originalmente em 14 de outubro de 1968 na Folha da Tarde.

O Brasil de Fato reproduz reportagem do jornalista Luiz Eduardo Merlino sobre o 30º Congresso da UNE, publicada originalmente em 14 de outubro de 1968 na Folha da Tarde.
16/10/2008

 “Como o jornal nascia com a proposta de cobrir os movimentos estudantis, Luís Eduardo Merlino [que em 1971, viria a ser torturado e morto pela ditadura, aos 23 anos] esteve presente no congresso proibido da UNE para cobri-lo. Sua reportagem, de cinco páginas, relatava e mostrava a violência praticada no local, que aumentaria a partir de então por todo o país. Merlino contou sobre os jovens que chegavam de todas as partes e que tomaram de surpresa a pacata Ibiúna, que ficou sem comida. Os homens do Dops aportaram na quinta-feira, dia 10, ao mesmo tempo em que os estudantes também continuavam a desembarcar. O jornalista preocupou-se em nomear cada agente da repressão envolvido e em denunciar a prisão dos líderes estudantis” (trecho extraído do livro Cães de Guarda, pág. 247).

 

 O fim do congresso


Levei o copo de café preto e cheio de pó à boca, pela segunda vez. Meu gesto foi interrompido por tiros de revólveres e rajadas de metralhadoras. Vi alguns estudantes correndo e caindo na lama grossa do chão. Não vi quem atirava.

De repente, de todos os lados, começaram a surgir soldados com armas nas mãos, disparando sobre nossas cabeças e gritando palavras que ninguém entendia. Um soldado apontou-me o revolver e gritou:

– Corre, seu vagabundo, se quer levar uma bala.

– Se você não correr eu mato – gritou de novo o soldado.

Vi que não dava para correr devido à lama intensa que se acumulara na fazenda nos últimos três dias (não parou de chover o tempo todo). Levantei as mãos, cruzei-as contra a nuca. Juntei-me a dois outros jornalistas que, como eu, cobriam o 30º Congresso Nacional da UNE que não chegou a ser instalado.

O que mais me surpreendeu foi que não houve pânico. Apenas duas meninas desmaiaram de medo. Os demais cantavam, assobiavam ou se mantinham em silêncio.

O sofrimento passado nos dias anteriores talvez os tivesse preparado para reagir daquela forma. Grande número de delegados vieram do Norte do país. Muitos viajaram de pau de arara, ônibus e trem para poderem chegar a São Paulo. Dezenas dormiram no meio do mato sem comer coisa alguma, levando chuva seguidamente.

 

Desde o seu começo, um congresso de frio, fome e sono

Eu fui para lá na quinta-feira, com mais quatro outros colegas de imprensa, fui apanhado em frente ao restaurante Paulino, na avenida Rebouças. Naquele dia, quase às 13 horas, dois Volkswagens se aproximaram e estacionaram junto a nós. O rapaz que dirigia um deles indagou:

– Onde fica o Hospital das Clínicas?

– Em Pirituba.

Aquela era a senha combinada para identificar que estávamos credenciados para o Congresso Nacional da UNE, como jornalistas. Nas imediações da Cidade Universitária, tivemos nossos olhos vendados para não identificarmos o local do Congresso, após sua realização.

Depois de rodarmos muito tempo, paramos. Depois, tiraram nossas vendas. Estávamos no campo, além de nós haviam mais umas dez outras pessoas. Subimos num caminhão e fomos conduzidos, durante cerca de uma hora, até o local onde se realizaria o Congresso. Caía uma garoa continua e o velho caminhão derrapava no lamaçal.

Depois dos 40 minutos de derrapagens, balanços dentro do caminhão, chegamos ao local onde estava armada uma tenda. Era ali onde seria realizado o Congresso. De uma cocheira vinha o cheiro de comida. Entramos imediatamente na fila para receber nossa refeição. Ainda não tínhamos comido nada. Mesmo assim só nos coube meia concha de feijão e duas rodelas de batata. Só voltamos a comer de novo à meia noite: metade de um prato de sopa e nada mais.


Muita discussão


A abertura do Congresso estava marcada para o dia seguinte, sábado às 8h30. Mas a polícia chegou uma hora antes, impedindo que se iniciasse.

Durante a plenária de preparação havida sexta-feira, tanto Travassos quanto José Dirceu viram que a situação quanto às eleições não estava definida. Ambos se preocupavam com os delegados que ainda não haviam chegado e os que não tinham ainda se decidido em quem votar. A delegação do Ceará não me pareceu que ia ficar com o José Dirceu. A maioria, talvez se abstivesse em votar. O mesmo acontecia com pelo menos dez delegados da Guanabara e com os quatro do Rio Grande do Norte. Entre o pessoal de Minas Gerais a situação parecia a mesma.

No sábado, levantei às 6h30. Tinha ido dormir às quatro. Entrei na fila do café e aí chegou a polícia. Agora, na fila de presos pensava sobre o que podia acontecer. Caminhava atrás do Luís Travassos que ainda não havia sido reconhecido pela polícia.

Continuamos a marcha durante três horas. Nela, os soldados conversavam conosco. Um disse:

– Olha pessoal, nós não temos raiva de vocês. Inclusive eu sou estudante. Estou aqui porque recebo ordens e se não cumpro vou pra cadeia.

Outro reclamava contra o local que havia sido escolhido para o congresso. Dizia que “era muito escondido. De outras vezes vocês podiam escolher um lugarzinho melhor. Não precisa ser no meio do mato”

Um estudante respondeu que o próximo Congresso vai ser realizado no “Othon Palace”.

 

Guerra psicológica

 

O momento de maior apreensão foi quando chegamos a uma clareira onde esperamos transportes para seguirmos até Ibiúna. Um sargento começou a travar e destravar sua metralhadora. Longe, ouvíamos a voz de alguém que mandava em posição de sentido, levar os fuzis aos ombros e marchar em nossa direção.

Alguns pensaram fuzilamento. Outros acreditavam apenas ser espancados. A maioria tinha certeza ser apenas uma pequena guerra de nervos. E era isso mesmo.

Em caminhões e ônibus, seguimos para Ibiúna. No coletivo em que eu estava, haviam mais 61 pessoas espremidas umas contra as outras.

Por volta das 16 horas saímos de Ibiúna. Muitas pessoas nos acenavam e desejavam “boa sorte”.

O frio da cela


Chegamos em São Paulo por volta das 18 horas. Fomos conduzidos diretamente para a penitenciária Tiradentes. Vários jornalistas aguardavam nossa chegada. Os investigadores do DOPS e militares da Força Pública se mostravam muito orgulhosos.

– Nunca prendemos tantos subversivos juntos. É, foi uma boa colheita.

Do pátio em que ficamos, após contados, seguimos para as celas. O chão era de cimento, não havia camas, ou cobertores. Éramos 62 dentro de uma cela de, aproximadamente, 50 metros quadrados. Não podíamos deitar.

Discutimos nossa situação, formando uma pequena assembléia. Formamos comissões de alimentação, dormida e cigarros. O frio era intenso. Resolvemos [os jornalistas presos], mesmo sendo do nosso direito prisão especial, não pedi-la e ficar até o fim, aguardar os acontecimentos.

Fui levado até os outros companheiros de imprensa. Um deles abriu uma lata de leite condensado, devoramos todo seu conteúdo em questão de minutos. Isso serviu de diversão para os investigadores. Riam da nossa fome, do nosso frio. Cerca de dez minutos depois, formando uma fila, saímos do presídio, entramos num ônibus verde, só jornalistas e policiais, e fomos recambiados para o DOPS. Lá encontramos Vladimir Palmeira, José Dirceu e Antonio Ribas, este presidente da entidade dos secundaristas. Fui depor junto com colegas da “Última Hora” e da “Veja”.

Após o depoimento, fomos libertados. Saímos do DOPS a passos calmos. Lembrávamos os companheiros do mesmo cárcere que estavam no presídio enfrentando a fome, o frio e, como nós, sujos de lama.

Um táxi parou a um sinal que fizemos. Fomos até um restaurante onde matamos a fome de um dia inteiro sem comer.

Enquanto seguia para casa, lembrava que teria uma cama com colchão e um cobertor, ao invés do chão frio e da umidade da penitenciária Tiradentes onde ficaram mais de 700 estudantes. (A íntegra do texto encontra-se na página do Observatório das Violências Policiais-SP www.ovp-sp.org)


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