CONGO: Transnacionais bloqueiam democracia
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jperuano
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2006-11-01 13:16
Após 40 anos sem eleições presidenciais, resultado de pleito histórico vai ter pouco impacto na vida de congoleses
Igor Ojeda
da Redação
No mesmo dia em que mais de 125 milhões de brasileiros decidirão quem ocupará a cadeira de presidente da República pelos próximos quatro anos, cerca de 30 milhões de congoleses também irão às urnas no 2º turno das primeiras eleições da República Democrática do Congo (RDC) em mais de 40 anos.
O atual presidente, Joseph Kabila, é o grande favorito. No 1º turno, realizado em 30 de julho, conquistou 44,81% dos votos, enquanto seu adversário, Jean-Pierre Bemba, obteve 20,03%. Seja qual for o resultado, no entanto, a instabilidade do país fará com que o vencedor do pleito dificilmente consiga iniciar um processo de transformação social no terceiro maior país da África, onde 70% da população de 60 milhões vive abaixo da linha de pobreza e a expectativa de vida é de 51 anos.
Na nação centro-africana encontra- se uma das maiores reservas de recursos minerais do mundo: ouro, diamante, cobre, cobalto, urânio, tântalo. Mas o que deveria ser uma bênção é a principal razão de sua desgraça. A disputa por esses recursos levou o país a uma grande guerra civil entre 1998 e 2003, que envolveu diversas nações vizinhas e causou 5 milhões de mortes.
Mas, apesar de uma acordo entre o governo e grupos rebeldes ter posto um ponto final oficial no conflito, diariamente ainda ocorrem confrontos, principalmente no Leste do país, onde tropas da vizinha Ruanda fazem incursões ocasionais. Todos querem ter acesso às riquezas. E, segundo o jornalista austríaco Klaus Werner, co-autor de O livro negro das marcas, em entrevista ao Brasil de Fato, as principais culpadas por esta situação são as transnacionais estrangeiras que, ao comprarem ilegalmente tais materiais, financiam o tráfico de armas usadas nos enfrentamentos.
BAYER, A FINANCIADORA
O principal alvo das corporações é o tântalo, metal utilizado como componente de equipamentos eletrônicos, principalmente os telefones celulares. De acordo com Werner, que esteve na RDC por duas vezes, a maior importadora do mundo desse minério é a empresa H.C. Starck, subsidiária da alemã Bayer, conhecida por fabricar o analgésico Aspirina, entre outros medicamentos. “Essa foi a maior financiadora da guerra. Eles compram o tântalo para processá-lo e vendê-lo às empresas de celular”, afirma. Na página da internet da Bayer, esta informa que sua subsidiária é responsável por mais de 50% da produção mundial do pó desse metal.
Mas as minas da República Democrática do Congo também comportam a exploração legal dos recursos, através dos generosos contratos com o governo. É por essa razão, explica Werner, que a União Européia (UE) se empenha para assegurar as eleições no país. “Os interesses da UE, principalmente dos franceses e dos alemães, são bem claros. Eles querem, por meio do controle ‘democrático’ do Congo, manter o acesso às minas. É muito óbvio que eles apóiam o Kabila”, diz. Kabila, por sua vez, facilita as privatizações e o acesso às empresas européias não só aos minérios, mas também a projetos financiados pelo Banco Mundial. Enquanto isso, muito pouco é revertido para o desenvolvimento de um país destruído pelas guerras e pelos 32 anos de ditadura de Mobutu Sese Seko (1965-1996).
Na opinião do jornalista austríaco, os programas políticos dos dois candidatos quase não se diferenciam. “Nenhum partido representa propostas da esquerda ou da direita, como repartição dos bens ou colaboração com os ex-colonialistas. Todos são bem nacionalistas, mas na verdade colaboram com qualquer empresa ou qualquer poder estrangeiro que dê vantagem para eles”, analisa. Com relação à administração das riquezas do país, nada deverá ser alterado. Segundo José Gonçalves, professor de História da África da Universidade do Estado da Bahia (Uneb), ambos os candidatos defendem a “globalização, a entrada de capitais. Não propõem nada de novo. Os países da África não estão em condições atualmente de propor esquemas muito nacionalistas. Não têm capital, não têm pessoal”, diz. Devido à falta desse debate de fundo, Gonçalves vê semelhanças entre a campanha eleitoral congolesa e a brasileira: “Disputam para ver quem é mais ético, quem tem o time mais competente”.
ANSEIO POPULAR
No entanto, para o congolês radicado no Brasil Munguele Kiyungu Jean-Baptiste, presidente da Associação Família Amani, entidade que reúne os imigrantes africanos em São Paulo, o projeto do atual presidente da RDC se aproxima dos interesses da maioria de sua população. “Seu programa de governo, mesmo que não seja bem traçado, se preocupa com aquilo que é o desejo do seu povo, de reconstruir o país depois de 35 anos da ditadura, que reduziu o país a quase nada”, diz. Candidato pelo Partido do Povo para a Reconstrução e a Democracia (PPRD), Kabila é filho de Laurent Kabila, que governou o país de 1997 a 2001 - quando foi assassinado numa tentativa de golpe - após liderar o movimento que derrubou Mobutu. De acordo com Munguele, o filho, que subiu ao poder após a morte do pai, herdou sua característica, “que o fazia inclusive ser chamado de Moisés pelo povo, como aquele que que veio para liderar a população e reconstruir a nação”.
Seu oponente é filho de um rico empresário no Congo. Em meados da década de 1990, criou o Movimento de Libertação Congolês - transformado em partido político nesta eleição -, com o objetivo de fazer oposição à Laurent. Com o acordo firmado entre o governo de Joseph Kabila e os grupos rebeldes em dezembro de 2002, Bemba se tornou um dos quatro vice-presidentes do governo de transição que vigorará até que o novo presidente eleito tome posse.
Segundo Munguele, o ex-líder rebelde, apesar de receber suporte de Uganda, sustenta-se na proposta de libertação do país das mãos dos estrangeiros. Contra ele pesa o fato de grande parte dos ex-dirigentes do partido único da ditadura de Mobutu o apoiarem. “Alguns têm o receio que esse ‘mobutismo’ possa voltar”, explica.
Após a divulgação do novo presidente eleito, o temor é que ocorra uma onda de violência no país. Tanto Kabila quanto Bemba controlam grupos armados. Após o anúncio do resultado do 1º turno, em 20 de agosto, as duas forças se enfrentaram, causando a morte de 23 pessoas e obrigando a intervenção de tropas da Organização das Nações Unidas e da UE.















