África, o novo alvo do império
MILITARIZAÇÃO Governo estadunidense cria um comando militar exclusivo para o continente; grandes reservas de recursos minerais, petróleo e água estão na mira
Igor Ojeda
da Redação
OS EUA preparam-se para “cuidar” da África com muito mais atenção, daqui em diante. Desde fevereiro, trabalham para pôr em funcionamento, em setembro de 2008, o Comando Africano (Africom), unidade militar que será responsável pelas operações no continente que, provavelmente, terá maior importância econômica num futuro próximo.
Do ponto de vista do Departamento de Defesa estadunidense (DoD), a região não merecia, há até pouco tempo, tal preocupação. A jurisdição sobre as nações africanas, hoje, está dividida em três comandos: o do Pacífico (responsável por Madagascar, Seychelles e as ilhas do oceano Índico), o Central (Egito, Sudão, Eritréia, Etiópia, Djibouti, Somália e Quênia) e o Europeu (demais países). Agora, a África terá um só para ela.
A socióloga mexicana e especialista em militarização Ana Esther Ceceña afirma, em entrevista ao Brasil de Fato, que a decisão explicita o crescimento do interesses dos EUA no continente, com aumento dos investimentos e a extração de recursos naturais. Recursos que, em sua opinião, são a principal razão de ser do Africom, principalmente os energéticos.
Energia
Salim Lone, que trabalhou como porta-voz da missão da ONU no Iraque e atualmente é colunista do periódico Daily Nation, do Quênia, concorda. “O Africom é claramente desenhado para aumentar o controle sobre o continente, com o objetivo de garantir que os interesses estratégicos vitais – políticos e econômicos – sejam bem protegidos”, diz ao Brasil de Fato. Para ele, os reveses dos EUA no Oriente Médio fazem com que o país precise garantir outras fontes de fornecimento de energia.
De acordo com Ana Esther, os recursos minerais também são um alvo importante. “A África tem, em abundância, minerais que só a ex-União Soviética ou a China têm também. No resto do mundo, só existem manchinhas. Nesse sentido, deixar a China meter as mãos por aí se converteria em uma ameaça muito mais séria”, analisa.
O Pentágono nega que o acesso aos recursos e a presença chinesa sejam as principais razões da criação do Africom. De acordo com o DoD, o novo comando irá se concentrar principalmente no combate ao terrorismo, em assistência humanitária, auxílio a desastres e missões de apoio a crises, além da prevenção de conflitos. Além disso, outro objetivo é trabalhar com as agências governamentais dos EUA na região.
No entanto, um relatório sobre o assunto, elaborado pelo Congresso estadunidense, chama a atenção para a “crescente importância dos recursos naturais da África, particularmente os energéticos”.
Uso da força
Como era de se esperar, intervenções militares não estão descartadas. O Africom ficará responsável por qualquer ação no continente, de acordo com o general Walter Sharp, do exército dos EUA. “Esse comando também tem e terá a responsabilidade de fazer quaisquer operações militares que o secretário de defesa ou o presidente determinarem”, afirmou. Embora não estejam previstas tropas para o Africom, eventuais ações utilizarão forças de outros comandos.
Por isso, na opinião de Lone, o novo comando “enfraquecerá a soberania do continente, já severamente comprometida desde que a guerra ao terror começou, e o tornará muito mais suscetível à pressão dos EUA”. Além disso, aponta, a presença dos EUA criará instabilidade e o fará alvo de forças anti-estadunidenses.
Em julho, Bush nomeou o general William E. Ward como o primeiro comandante do Africom. A partir de outubro, o novo comando funcionará como uma sub-unidade do Comando Europeu. Em 30 de setembro de 2008, ganhará autonomia.
Mas, se os EUA esperavam que haveria uma disputa acirrada entre vários países africanos para abrigarem a sede do Africom, estavam enganados. Durante um giro de uma delegação estadunidense pelo Norte do continente, Argélia e Líbia recusaram proposta do Pentágono. O Marrocos, embora não tenha rejeitado explicitamente, tampouco mostrou-se animado. Detalhe: os três países são conhecidos aliados dos EUA.
Várias sedes?
Por outro lado, a Libéria, em julho, e o Djibouti, em fevereiro, ofereceram seus territórios. O primeiro encontra-se próximo do petróleo do Golfo da Guiné (Angola e Nigéria) e dos recursos da República Democrática do Congo.
“Estrategicamente, Nigéria, República Democrática do Congo, Somália ou Sudão seriam excelentes lugares para o Africom. No entanto, a Libéria é talvez um dos mais seguros”, opina Ana Esther. Ainda assim, para ela, serão necessárias várias sedes para dar conta das inúmeras problemáticas do continente.
O Djibouti, localizado no Chifre da África – próximo ao petróleo do Sudão e às margens do Mar Vermelho, onde circula grande parte dos recursos petrolíferos vindos do Oriente Médio –, já conta com uma força antiterrorista dos EUA estacionada em uma base com cerca de mil fuzileiros navais.
Na mesma região, o país apóia as tropas etíopes presentes na Somália. Entre o segundo semestre de 2006 e o primeiro de 2007, o governo somáli, com suporte do exército da Etiópia, combateu forças islâmicas que tomaram, por alguns meses, a capital e outras importantes cidades. Na “guerra ao terror”, impedir o avanço do islamismo é fundamental, na visão do governo estadunidense.
De acordo com Ana Esther, é do Chifre da África que decolaram os aviões bombardeiros das últimas guerras no Oriente Médio e na Ásia Central. No entanto, para ela, antes da escolha de uma sede, os EUA estão trabalhando pela aceitação da idéia: “Uma vez que o Africom fique estabelecido no imaginário coletivo, o lugar físico, ou melhor, os lugares, será o de menos”.















