O dragão da maldade contra o santo guerreiro
Silvia Beatriz Adoue
DO TOPO da colina, o acampamento ia se desenhando aos poucos perante o olhar surpreso de Glauber, na medida em que avançava na sua direção e a névoa ia ficando fraquinha até desaparecer. Por trás dessa cortina esfumaçada, foi vislumbrando a grande tenda branca erguida bem no centro e as tendas pretas, menores, as flâmulas vermelhas se agitando na brisa da madrugada. No canto esquerdo, uma fumacinha se alçava regularmente de uma tenda de teto branco e laterais pretas. Toda essa composição emoldurada por triângulos à direita e à esquerda e uma faixa de um verde uniforme, que se perdia no horizonte, definido por um azul escandaloso.
Quando a névoa, por fim, se esvaiu, Glauber viu o movimento do acampamento acordando, não do sono, mas de uma vigília atenta. Cavaleiros a cavalo e a pé se deslocando entre as tendas, carroças repletas de mantimentos e o gesto demorado, quase suspenso, dos homens descarregando sob o olhar atento de Geralda, entre séria e maternal, na tenda onde a fumacinha se impunha bem cheirosa, cada vez mais firme e definida, sem precisar disputar com o sereno o seu primado. De mais perto, Glauber podia distinguir as figuras e o conjunto. Então seus olhos se encheram de emoção e seu coração disparou.
Sobre aquele retângulo, até ontem de um estúpido verde sem qualquer nuance, agora se agitava um quadro multicolor. Donzelas de braço dado cruzavam o retábulo cochichando entre risos. Trovadores animavam rodas de música e dança, ao som dos pandeiros, tambores e cordas vibrantes, espalhando melodias pelo acampamento e, para além, ao encontro dos ouvidos encantados de Glauber.
Uma carroça passou, e ele se viu a si mesmo alçado para o banco da frente, junto ao condutor, melhorando a perspectiva. Bruna, menina de olhar grave de cor de mel, seguiu a trajetória da carroça entrando no acampamento com um sorriso apenas esboçado, que mais parecia um convite do que um cumprimento. Ela correu para uma roda onde Estrela entrefechava os olhos com delicadeza e alçava o rosto dourado, se deleitando com a música, e a bela Rafaela marcava o ritmo com as palmas de gestos de andorinha. Então, Glauber pulou da carroça e correu também para a roda se incorporando à dança da terra sem senhores.
Foi assim como, com seus sete anos e olhar inteligente, Glauber entrou na Fazenda Barra II, junto ao assentamento Mário Lago, em Ribeirão Preto. Os 800 hectares foram ocupadas no dia 24 de julho, na véspera do Dia do Trabalhador Rural. O menino chegou da mão da sua avó, já assentada, e entrou como quem entra numa festa: “Esta terra agora é nossa”. A epopéia viva dos homens e mulheres feitos que, nas noites, ao lado das crianças e longe da televisão, à luz da lamparina de semente de mamona, ouvem narrativas do tempo que virá e não duvidam em trazê-lo para o presente. Na terça-feira, dia 31 de julho, Glauber viu chegar os homens cinzentos nos seus cavalos de metal. Eles eram o anúncio do Dragão da Maldade, que chegava pelo céu ameaçando cuspir fogo sobre a grande tenda branca, querendo derrubar as flâmulas bem no topo. Os primeiros a vê-lo foram o Olaf, embornal em bandoleira, afinando o olhar dirigido ao horizonte, e Jorge, o cavaleiro vermelho, postado na entrada do acampamento. Mas foi Isolda, cabelo loiro ao vento, quem levantou o punho e bradou um alerta.
O Dragão se impôs, por enquanto. Os homens cinzentos cavaram uma vala para que o verde uniforme permaneça intocado. As crianças continuam ouvindo, junto às lamparinas de semente de mamona, relatos de um futuro em que os carros importados virarão abóbora e mandioca e banana para o povo comer.
Silvia Beatriz Adoue é mestre em Integração na América Latina, pelo PROLAM-USP, doutoranda em Literatura Hispano-americana, pela FFLCH (USP), e professora do curso de Letras do Ceuclar















