“Cansei” explora comoção com o acidente da TAM
Movimento liderado pelo empresário João Dória Jr. e entidades patronais recebe críticas até de conservadores, como o exgovernador Cláudio Lembo (DEM)
Tatiana Merlino
da Redação
Assim como o grupo que convocou o “Fora Lula” em todo o país, o recém-lançado Movimento em Defesa do Direito Cívico dos Brasileiros, o chamado “Cansei”, também afirma ter como objetivo sensibilizar a sociedade brasileira a protestar contra o caos aéreo e a corrupção. Depois de 48 horas do acidente com o avião da TAM em Congonhas, um grupo de empresários começou a organizar o “Cansei”, lançado em campanhas publicitárias por todo o país.
O movimento pretende “parar” o Brasil com um minuto de silêncio, no dia 17 de agosto, em frente ao prédio da TAM Express, onde aconteceu o acidente aéreo que matou cerca de 200 pessoas. Para isso, vão contar com espaço gratuito em televisões.
A primeira iniciativa do “Cansei” será em 17 de agosto, às 13 horas, quando completa um mês do acidente aéreo da TAM. O movimento propõe que todos os brasileiros façam um minuto de silêncio. “Pretendemos parar o Brasil por um minuto. Vamos convocar todos os brasileiros para que, onde estiverem, mobilizados ou não, parem no dia 17, levem a sua mão direita ao peito e façam um minuto de silêncio em respeito àqueles que tiveram suas vidas ceifadas no acidente da TAM, no acidenamarelo, te da Gol,”, afirmou Luiz Flávio Borges D’Urso, presidente da Ordem dos Advogados do Brasil de São Paulo (OABSP). Nesse dia, as lideranças do movimento em São Paulo vão se reunir no prédio da TAM Express, onde será realizado um ato ecumênico em solidariedade às famílias das vítimas do acidente.
No site www.cansei.com.br, a campanha é assinada pela OAB-SP e tem o apoio declarado de entidades como a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Associação Brasileira das Emissoras de Rádio e TV (Abert) e outros grupos. “O propósito dessa articulação é demonstrar a indignação diante de várias questões. É uma sinergia de esforços de profissionais das mais diferentes áreas, todos voluntários, que retratam a indignação dos brasileiros”, disse D’Urso.
Vinculação partidária
A reunião que criou o projeto foi no escritório do jornalista e publicitário João Dória Jr., que afirma que “o movimento é cívico, não tem viés político ou vinculação partidária”. No entanto, Dória, que trabalha com organização de eventos, homenageou o ex-presidente tucano Fernando Henrique Cardoso e, em 2006, durante a campanha eleitoral para a Presidência, foi um dos organizadores de um almoço de Geraldo Alckmin com empresários.
Apesar da defesa de que o “Cansei” é uma iniciativa apolítica, da qual todos os segmentos da sociedade estariam convidados a participar, o presidente da Associação Comercial de São Paulo, Alencar Burti, questionado a respeito de uma suposta participação do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) nos protestos, respondeu: “MST, não!”.
Elite branca
As críticas ao movimento vieram em seguida. Parlamentares e setores da sociedade civil acusam o “Cansei” de ser golpista e de fazer política em cima da tragédia com o acidente da TAM. Até políticos conservadores, como o ex-governador de São Paulo, Cláudio Lembo (DEM), repudiaram a iniciativa. Lembo afirmou ironicamente que “Cansei” é um termo muito usado por dondocas enfadadas em algum momento das vidas enfadonhas que vivem”. Para o ex-governador, a iniciativa é liderada “por um segmento da elite branca. É um movimento nascido em Campos do Jordão.
O empresário João Dória Jr. há pouco dedicava-se a um desfile de cãezinhos de madames em Campos do Jordão”. A OAB do Rio de Janeiro também se manifestou. Em nota, afirmou que o Cansei “é um movimento de fundo golpista, estreito e que só conta com a participação de setores e personalidades das classes sociais mais abastadas do Estado de São Paulo”. OAB do Rio diz que também cobra das autoridades investigações sobre o acidente. “No entanto, não aceita que essa tragédia seja utilizada de forma golpista pelas classes mais abastadas de São Paulo”, diz a nota. E completa: “A OAB do Rio de Janeiro lembra que, em determinados momentos da vida nacional, a extrema direita já se assanhou, como agora está se assanhando novamente, e que isso não fez bem ao país”, completa o comunicado.
Após muita discussão, o Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) decidiu não participar ‘Cansei’. “O Conselho Federal não fez juízo de valor sobre o movimento, entende que toda a sociedade deve se manifestar como bem entende, faz parte da democracia a manifestação da sociedade, mas não é um movimento do Conselho Federal”, afi rmou o presidente da OAB, Cezar Britto.
Reação petista
Líderes petistas reagiram com indignação ao movimento “Cansei”. O secretário Sindical do PT, João Felício, repudiou a iniciativa e fez questão de ressaltar que o partido não tem relação com a mobilização da “ultraprogressista classe média alta paulistana”, como ironizou.
Em reação ao “Cansei”, a Central Única dos Trabalhadores (CUT) propôs o movimento “Cansamos” – contra o trabalho infantil, o trabalho escravo e a exploração dos trabalhadores. De acordo com o presidente nacional da CUT, Artur Henrique, a iniciativa foi uma maneira de “aproveitar o lançamento da campanha da OAB-SP para chamar a atenção para a agenda dos trabalhadores”. “Utilizamos esse nome como um contraponto e para apresentar as necessidades dos trabalhadores de forma positiva.”















