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No governo Serra, greve é ilegal

by peruano last modified 2007-08-24 00:33

SINDICATOS Após dois dias de greve, metroviários de São Paulo são obrigados a retornar ao trabalho; governo tucano demite 61 funcionários

SINDICATOS
Após dois dias de
greve, metroviários
de São Paulo
são obrigados
a retornar ao
trabalho; governo
tucano demite 61
funcionários


Renato Godoy de Toledo
da Redação


ENQUANTO O governo federal sinaliza que pretende elaborar uma lei que restringe o direito de greve, em São Paulo, o governador José Serra (PSDB) já coloca em prática essa restrição. No início deste mês, os metroviários deram um ultimato para que o governo cumprisse o pagamento das participações nos resultados (PR). Diante de uma proposta aquém das expectativas, a categoria deflagrou greve no dia 2. O Tribunal Regional do Trabalho multou o sindicato, que manteve a greve até o dia 3.
Acreditando que a multa de R$ 100 mil não fora suficiente, a mando de Serra, a Companhia do Metropolitano de São Paulo (Metrô) demitiu 61 funcionários, três dias após a greve. Todos os demitidos participaram da greve, que contou com 90% de adesão da categoria. O governo alegou que a causa das demissões nada tem a ver com a greve e que os demitidos não estavam tendo um “desempenho eficiente”.
Manuel Xavier, diretor de comunicação do Sindicato dos Metroviários, acusa a atitude do governo de truculenta e covarde. “Não tiveram coragem de assumir que as demissões foram por causa da greve. Eles atacaram os trabalhadores de duas formas: primeiro demitindo, depois alegando incompetência dos trabalhadores”, afirma.

Jogando para a torcida
A estratégia de atacar os setores mais mobilizados da categoria também está sendo utilizada pelo governo Serra. Até o fechamento desta edição, a lista dos demitidos ainda não havia sido divulgada, mas os metroviários já tinham a confirmação de alguns nomes. “Ainda não sabemos todos os nomes – aliás, soubemos das demissões pela imprensa. Já sabemos que três diretores do sindicato e membros das duas chapas (que concorrerão às eleições do sindicato, em setembro) estão na lista”, revela Xavier.
Para Altamiro Borges, editor da revista Debate Sindical e membro do Comitê Central do PCdoB, Serra tenta se mostrar firme para setores da direita, a fim de se consolidar como candidato à Presidência da República em 2010, desejo declarado do governador. “Ele está sinalizando para esse pessoal do ‘Cansei’, mostrando que saberia lidar com o ‘caos aéreo’, por exemplo, que para os ‘cansados’ é um dos maiores problemas do país. A máscara do Serra está caindo”, diagnostica.

Categoria indignada
A reação de Serra deixou os metroviários perplexos. De acordo com uma nota lançada pelo sindicato dos metroviários, “todas as pesquisas de opinião pública conferem ao metrô índices de aceitação em torno de 95%, ficando à frente de serviços públicos como dos bombeiros e Correios”.
Ainda segundo a nota, os trabalhadores demitidos, “em sua absoluta maioria, possuem mais de 15 anos de serviços prestados à população e, depois da greve dos dias 2 e 3 de agosto, simplesmente deixaram de ser considerados eficientes”.
“A revolta é muito grande”, diz Xavier, que não descarta a possibilidade de uma nova paralisação da categoria para reverter as demissões e garantir as reivindicações da categoria.

Prática comum
Essa não é a primeira retaliação do governo aos metroviários – categoria, aliás, que tem mostrado maior poder de mobilização no Estado. Em 23 de abril, seguindo o calendário nacional de luta contra a Emenda 3, os trabalhadores do Metrô paralisaram os trens por oito horas. Incentivado pela imprensa corporativa, tal como na última greve, o governo demitiu cinco membros do sindicato, alegando sabotagens no sistema de transmissão de energia. Numa reunião de conciliação, a Justiça aconselhou o governo a reintegrar os trabalhadores nos quadros da companhia. Mas apenas três funcionários foram readmitidos, o caso dos outros dois vai ser apreciado pela Justiça.
Já em 1988, o governador Orestes Quércia (PMDB) demitiu 357 metroviários após uma greve. “Eles demitiram a linha de frente da categoria, os ativistas dos metroviários. Enfraqueceram a categoria, mas, em 1990, ela já estava mobilizada novamente. A tradição dos metroviários não é de recuar perante os governos”, enfatiza Xavier.

Papel da imprensa
Desde o início do movimento, à exemplo de outras paralisações, a imprensa corporativa atacou os metroviários, acusando-os de burlar o direito de ir e vir da população – como se as catracas não fizessem isso. Além disso, a mídia ressaltou apenas o trânsito, sem discorrer sobre as reivindicações e o descumprimento da promessa do governo.
“A imprensa bate na gente de manhã, de tarde e noite, em rádio, TV e jornal. A gente lamenta isso. No caso da cratera do Metrô, nós tinhamos avisado muito antes sobre os perigos da obra. A imprensa não nos deu crédito sobre essa denúncia”, lembra Xavier, cujo sindicato havia publicado um dossiê sobre o acidentes de menor porte na linha 4 do Metrô, antes da abertura da cratera em janeiro, que vitimou sete pessoas.
Altamiro Borges afirma que a cobertura da imprensa sobre greves, em geral, é “abjeta”. “Eles satanizam os metroviários, mas se esquecem da cratera do Metrô. Na semana do acidente (da linha 4), a capa da Veja São Paulo foi muito meiga, tinha um cachorro de salto alto e o título: ‘A relação entre os humanos e os animais’”, ironiza.
As constantes críticas da imprensa ao movimento, abriram espaço para a atitude do governador, segundo Altamiro. “Eles, a imprensa, jogam com a emoção, mostram as filas e não falam dos serviços dos metroviários e que a qualidade do serviço do Metrô de São Paulo é um dos mais respeitados do mundo. Eles tentam colocar a população contra os metroviários, aí o Serra vem nesse embalo, aproveitando o bombardeio midiático”, considera.
Soma-se à cobertura da imprensa a campanha oficial do Metrô nos painéis das estações e em anúncios nas rádios, que “alertou” a população acerca das intenções dos metroviários de “sabotar o direito de ir-e-vir”.


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