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A verdadeira cara da intervenção imperialista dos EUA no Paquistão

by peruano last modified 2008-01-03 22:46

ÁSIA Ao contrário do que a mídia apresenta, Benazir Butho, e não Musharraf, representa os interesses estadunidenses no país

ÁSIA Ao contrário do que a mídia apresenta, Benazir Butho, e não Musharraf, representa os interesses estadunidenses no país


Barokh Favar
de Teerã (Irã)


APRESENTAR O presidente Musharraf (1), chefe do Exército, como protegido e representante dos EUA é um passatempo para conturbar, confundir e impedir as manifestações anti-estadunidenses que inundaram o Paquistão recentemente. E parece que estão conseguindo, dado que, até agora, as manifestações atuais são do Partido do Povo, de Benazir Butho. E Musharraf não chama a população antiimperialista à rua.
Benazir Butho, com o apoio dos Estados Unidos, entrou no país asiático profetizando um desastre desestabilizador, caso os arsenais nucleares paquistaneses venham a cair nas mãos dos talibãs que se encontram ao Norte do país – os mesmos que recentemente protagonizaram enfrentamentos militares sangrentos na Mesquita Bilal.
As tribos do Norte detêm o poder cultural e social nas regiões de Sar Had, Vezirestão e Balucistão; e junto com as autoridades e os parlamentos locais, as dominam. Pervez Musharraf é acusado, por parte dos EUA, de impotência, razão pela qual ameaçam intervir diretamente; de fato, isso tem ocorrido frequentemente, por meio de explosões de bombas no Paquistão. Mas o truque não funciona. Musharraf impôs o Estado de emergência; destituiu o chefe do Supremo Tribunal e colocou Benazir Butho em prisão domiciliar no dia das manifestações dos seus partidários.
Com essas sanções contra Butho, os Estados Unidos, assim como a Inglaterra e os países do Commonwealth, intervieram com os mesmos pedidos de Butho em sua recente chegada: o abandono do cargo de chefe do Exército por parte de Musharraf e eleições parlamentares para janeiro de 2008, já que o Supremo Tribunal teria suspendido a recente reeleição de Musharraf como presidente.

Tática
Com o vazio de poder por um lado e as mobilizações tribais nas regiões do Norte (nas cidades, por parte do Partido do Povo e da Liga Muçulmana, de Navaz Sahrif), Benazir Butho tomaria as rédeas do poder e provavelmente pediria a intervenção do seu protetor e confiante Afeganistão, já que não tem poderes militares.
O jogo ainda não está concluído, pois parece que as regiões do Norte, limítrofes com o Afeganistão, têm sido ocupadas pelas tribos e por explosões entre os partidários de Butho desde sua chegada – com mais de 130 mortos e vários feridos. Esses últimos acontecimentos têm criado a confusão necessária aos planos imperialistas que acusavam o poder e os chefes das regiões do Send e Panj-aab como artífices da matança. Repete-se o cenário do Iraque: o terrorismo, para, logo em seguida, o intervencionismo.

Fora da órbita
A verdade é que o Paquistão, tendo sido criado pelo colonialismo inglês em 1947 (pela divisão da Índia e inclusive fazendo parte, por décadas, dos pactos militares Cento (2) – Paquistão, Irã, Iraque, Turquia, EUA, Inglaterra), está fora da órbita do imperialismo desde 1999 com o golpe de Estado contra Navaz Sharif, presidente corrupto e pró-estadunidense. Musharraf conseguiu acalmar o fogo da guerra permanente na Cashemira (3), região de conflitos entre a Índia e o Paquistão, com o acordo com o governo indiano, e este fato facilitou a aproximação entre os grandes Estados dessa região, que comporta a metade da população do globo: Rússia, China, Índia e Paquistão, junto ao pequeno e turbulento Irã, que se configura sobretudo no pacto militar dos países de Shangai (o chamado Otan do Oriente) junto aos países centro-asiáticos, como Mongólia e Afeganistão, como hóspedes, sendo eles determinantes contra os planos de agressão e guerra imperialista.
Portanto, uma derrubada sangrenta no Paquistão criaria um terrível vórtice desestabilizador que colocaria em crise o processo das alianças e integrações para o progresso da região.
O risco é grande, e é preciso prever outros truques e intervenções do imperialismo, que não pode aceitar uma perda tão importante na sua estratégia geopolítica e militar. A explosão durante as cerimônias de inauguração de um centro de infraestrutura no Afeganistão faria parte desse plano (4).
Naquelas explosões sangrentas, cinco deputados do Parlamento afegão foram mortos; entre eles, Mustafá Kazemi, popular e importante militante que saudou a ajuda iraniana, sempre próximo a Ahamad Shah Massud, dirigente guerrilheiro antiimperialista do Norte que combateu os talibãs.

Talibãs
A tribo Pashtun, de onde provêm os talibãs afegãos, foi dividida pelos limites traçados em 1947 entre o Paquistão e o Afeganistão. As bases fundamentais dos talibãs foram, e em parte são, as províncias setentrionais do Paquistão, como Vazirestão, palco de recentes explosões e atentados entre movimentos tribais.
Até agora, isso favoreceu os planos imperialistas do talibã nos dois países. As regiões do Norte paquistanês são difíceis de serem controladas e, muitas vezes, parte do Exército do Paquistão tem se rendido às forças dos talibãs locais, e tudo indica que as tribos rebeldes estejam ocupando militarmente as três regiões do norte; e esse seria o pretexto para fazer com que Benazir Butho entrasse como pacificadora – quando, na realidade, é uma “cúmplice” dos planos imperialistas.
Além de tudo, dado que os parlamentos locais são descentralizados em relação ao Estado paquistanês, alguns deles têm tomado posições anti-Musharraf. O Estado paquistanês é subdividido em várias províncias com o próprio parlamento, e essa descentralização, com base em poderes feudais locais, é um calcanhar de Aquiles, e não um sinal de “democracia”.
Nesses meses, tudo foi colocado em tensão: o Paquistão, no rumo de uma implosão e a ser dividido em várias partes, decorrente da provável guerra da fronteira turcoiraquiana e da separação do Iraque em três províncias; a crise e a divisão do Líbano; e a crise do Iêmen. A esta altura, cada dia pode ser decisivo para as partes.
Pervez Musharraf está tomando as rédeas e diminuindo as liberdades democráticas das quais se servem Benazir Butho e o imperialismo. A eliminação do chefe do Supremo Tribunal, Eftekhar Chuhdarí, rival e inimigo, a detenção de centenas de advogados e a dispersão de seus manifestantes fazem parte disso.

Advogados
Uma grande quantidade de advogados e a patente onipresença da sua categoria no país são ridículas. Muitos não somente assinalam tanta injustiça social e econômica, mas, do ponto de vista da luta de classes, marcam um importante escudo e um instrumento de poder capitalista no Paquistão que, neste momento, encontra-se à beira do precipício.
As detenções domiciliares momentâneas de Butho e a proibição de sua presença na marcha em direção à capital colocam em dificuldade o centro do complô, mas Musharraf deveria convovar a população antiimperialista e romper aberta e definitivamente as alianças com o imperialismo, propondo as transformações sociais que podem estruturar a construção de um novo país.

Irã
Por sua vez, o Irã tende a acelerar a limpeza anti-má- fi a interna dentro do poder. A eliminação do chefe do Supremo Tribunal do Paquistão serve de ajuda. Se forem verdadeiros os rumores sobre as ordens de Ali Khamenei, guia espiritual supremo, para destituir 80 chefes do Poder Judiciário, então, no Irã também estaremos nos umbrais de um processo de profundas transformações.
O recente discurso de Ahmadinejad, em uma das universidades contra os “círculos traidores e de pressão”, demonstra que ele já está preparando os instrumentos para iniciar o ataque final. Dias atrás, em Teerã, se concluiu, depois de quatro dias de trabalhos contínuos, o texto de acordo pelo gasoduto, chamado “gasoduto da paz”, entre Irã, Paquistão e Índia, até os confins de Nova Deli, com 2.670 km de extensão. Serão 1.110, 750 e 850 km, respectivamente, em cada país, a um custo de 7 bilhões de dólares; o trecho iraniano, a 45% de sua realização, servirá a quatro regiões meridionais e orientais, sempre excluídas e pobres, com um fluxo de 60 milhões de metros cúbicos diários aos dois grandes países, com um preço regional à metade do preço do gás russo para a Europa.
Com a assinatura de Ahmedinejad e Musharraf, será concluida a maior exportação de gás iraniano, muito combatida pelos Estados Unidos. Para o Paquistão, significarão 600 milhões de dólares de renda anual pelo trânsito e 300 milhões a menos nos custos indianos pelas importações atuais do gás.

(1) Não se sabe quem orquestrou, já há algum tempo, o atentado que matou o general Zia’ulhagh, o ex-presidente que enforcou Butho, pai de Benazir, ex-presidente do Paquistão. Provavelmente Butho já andava fora do controle dos EUA, e um golpe de Estado militar o eliminou. Depois deste general assassinado na época, entrou em cena Benazir, a filha de Butho, apoiada pelos estadunidenses, aproveitando-se da simpatia dos paquistaneses pelo pai. Dessa forma, continuou a dominação dos Estados Unidos sobre o Paquistão. Entre a corrupção do marido de Benazir e a de Navaz Sharif ocorreu o golpe de Estado de Pervez Musharraf, que imediatamente libertou os jornalistas presos por terem denunciado os mafiosos ligados ao expresidente. Estes jornalistas intelectuais apoiaram plenamente Musharraf.

(2) Depois da Segunda Guerra mundial imperialista, o Paquistão, o Irã, a Turquia e o Iraque fizeram parte do Pacto do Cento, dos Estados Unidos, com base em governos monárquicos. Iraque-Irã, ou repúblicas filo imperialisas turco-paquistãs, caíram uma após a outra, e o Pacto se dissolveu.

(3) O foco da guerra na Cashemira foi sempre mantido aceso como elemento de contínua crise e uma faca na ferida de Paquistão e Índia, desde que o imperialismo inglês separou o noroeste indiano, inventando o Paquistão – um ponto de apoio como Israel –, provocando de 1,5 a 2 milhões de mortos entre hindus e muçulmanos indianos. Foi quando a Índia, com Gandhi e Nehru, mas sobretudo com Nehru e os seus programas socializantes, saía do dominíno imperialista inglês. O colonialismo inglês já havia separado a província noroeste iraniana e constituído e ocupado o Afeganistão, enquanto ocupava diretamente as províncias meridionais pretrolíferas iranianas no Golfo Pérsico, no início do século 20. Recordemos a frase de Winston Churchil: “É com o petróleo de Masjid Soleyman que as frotas inglesas, durante a Primeira Guerra Mundial, atingiram a vitória.

(4) Com a tremenda crise do Afeganistão, o Paquistão é envolvido na guerra, dado que os limites traçados pelo imperialismo haviam dividido ao meio diversas populações provinciais entre Paquistão e Afeganistão, Paquistão e Índia, Paquistão e Irã e Irã e Afeganistão. Nota: Benazir Butho pediu o afastamento de Musharraf, enquanto Musharraf rechaçou as propostas de Condoleezza Rice.


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