Na Bolívia, as velhas contradições da nacionalização do gás natural
ACORDOS ENERGÉTICOS Lula e Evo exaltam relações, mas, para analista, política energética boliviana é a mesma que a de antecessores
Igor Ojeda,
Correspondente do Brasil de Fato em La Paz (Bolivia)
“AS RELAÇÕES entre Brasil e Bolívia estão sendo retomadas em um novo patamar”. Tal expressão – ou similares – foi uma das mais usadas pelos presidentes do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, e da Bolívia, Evo Morales, durante encontro no país andino, no dia 17.
Na ocasião, foram assinados novos acordos na área energética entre as duas nações sul-americanas, cujos entendimentos no setor estavam congelados desde a nacionalização dos hidrocarbonetos, decretada pelo presidente boliviano em maio de 2006.
O Brasil anunciou que, através da Petrobras e suas sócias, serão investidos de 750 milhões a 1 bilhão de dólares no desenvolvimento e na exploração de campos da YPFB, a estatal boliviana. “É uma parceria estratégica, que irá estreitar nossos laços bilaterais em benefício de ambas as partes”, disse Lula, em seu discurso. “É uma nova etapa nas relações, um salto de qualidade, com investimentos, cooperações e ações conjuntas”, completou.
Mesma política
Já Evo lembrou os desentendimentos gerados pela nacionalização e também apostou em um novo rumo. “Embora tenha havido alguma desconfiança, não era para prejudicar ou expulsar a empresa [Petrobras], mas para trabalhar em conjunto. Sempre dissemos que não queremos donos, e sim sócios”, afirmou.
No entanto, para Justo Zapata, doutor em Química e docente da Universidad Mayor de San Andres, de La Paz, a política do governo Evo no setor energético não é diferente em relação às gestões anteriores, nem mesmo com os novos acordos.
“Seguimos favorecendo as exportações e o país está muito ruim no que se refere à sua segurança energética. Importamos diesel, não há GLP (gás de cozinha) para satisfazer todas as nossas necessidades, não há gás no interior da Bolívia. Os acordos assinados servem para a mesma coisa. Para a Petrobras investir e poder enviar gás para a Argentina”, critica.
Segundo ele, o preço do gás vendido ao Brasil – um dos aspectos que mais prejudicava a Bolívia antes da nacionalização – continua igual com os novos termos de parceria. “Se o Brasil não adquirisse o gás boliviano, teria que buscá-lo no mercado internacional a oito dólares por milhão de BTU (unidade de medida de energia). E nós recebemos dois dólares. É um abuso”, protesta.
Acordos
Quatro acordos e um comunicado conjunto na área de energia foram assinados entre Brasil e Bolívia. Entre os pontos, está o estabelecimento de um marco geral de integração e complementação entre a YPFB e a Petrobras, para um maior aproveitamento de produção e transferência de tecnologia e capacitação.
Além disso, os acordos prevêem operações conjuntas, inclusive com a criação de uma empresa mista, para estudos sobre novos campos, e exploração e desenvolvimento dos já existentes. A Petrobras atuará também na capacitação técnica e de pessoal da YPFB e do Ministério de Hidrocarbonetos da Bolívia. Outra associação será feita entre a estatal boliviana e a empresa brasileira Braskem, para a instalação de um complexo petroquímico de gás na Bolívia. Além dos entendimentos no setor energético, foram anunciados acordos nas áreas de florestas, agropecuária, educação, obras e combate à fome.
Segundo José Sérgio Gabrielli, presidente da Petrobras, definiram-se condições para os investimentos futuros no que se refere ao destino dos produtos para o mercado interno da Bolívia. Até 18% dos novos volumes de gás serão vendidos, em território boliviano, ao preço de um dólar por milhão de BTU. Acima dessa porcentagem, o valor será diferente.
Nova matriz
Entretanto, o químico Justo Zapata não acredita no abastecimento do mercado interno, pois, segundo ele, não há projetos para se construir um novo gasoduto que distribua o gás pelo país. De acordo com Zapata, pelo gasoduto altiplânico, que opera com 110% de sua capacidade, La Paz recebe 500 mil metros cúbicos de gás por dia, enquanto a Bolívia envia ao Brasil 30 milhões de metros cúbicos diários.
Para ele, a questão mais importante para o país andino, no momento, seria a mudança da matriz energética. “Se substituirmos 50% da gasolina, do diesel e do GLP por gás natural, estamos falando de uma economia de três milhões de dólares por dia, um bilhão de dólares ao ano, que é quase todo o valor de nossas exportações ao Brasil. Mas, para isso, precisamos de um gasoduto”.
Outra crítica que faz Zapata é em relação à falta de industrialização no setor dos hidrocarbonetos na Bolívia. “São necessários processos químicos muito simples para obter derivados do petróleo cru, como o diesel. Em dez anos no país, a Petrobras não fez isso, e nós tampouco faremos. Ou seja, poderíamos substituir o diesel por gás, ou obtê-lo a partir do petróleo cru, mas preferimos importá-lo”, lamenta.
Derivados do gás
Uma estimativa feita por Zapata estabelece que, com um investimento de 8,6 bilhões de dólares na construção de uma planta para re- finar petróleo na região do Chaco, no sudeste da Bolívia, seriam gerados sete bilhões de dólares por ano, enquanto o aporte atual de 12,5 bilhões de dólares em todos os campos gera a metade disso.
No mais, seria preciso uma fábrica para separar os componentes existentes no gás natural, como o propano e o butano, conhecidos como gases líquidos. A Petrobras, que não pagava por tais derivados, comprometeu-se, nos marcos dos novos acordos, a desembolsar entre 100 milhões e 180 milhões de dólares por estes gases contidos no gás natural, importado em forma bruta desde maio de 2007.
Para o docente da UMSA, este valor está bem aquém do adequado: “Fiz um cálculo que conclui que tudo isso que estamos mandando custaria mais ou menos 850 milhões de dólares”. Uma diferença de pelo menos 670 milhões de dólares. Quanto à previsão de se instalar uma petroquímica na Bolívia, Zapata é igualmente pessimista. De acordo com ele, sempre houve promessas nesse sentido, que nunca se concretizaram.
Quanto
500 mil metros cúbicos de gás é o volume diário entregue a La Paz, enquanto que o Brasil recebe 30 milhões de metros cúbicos diários















