Em apoio a frei Luiz, movimentos fazem vigílias e jejuns em 10 Estados
TRANSPOSIÇÃO Militância promove mobilizações em defesa do rio São Francisco; governo federal já pensa em negociar
Luís Brasilino
da Redação
NO DIA 18, o frei Luiz Flávio Cappio, bispo da diocese de Barra (BA), completou três semanas da greve de fome contra a transposição do rio São Francisco. O governo federal procurou isolá-lo da mídia e da Igreja, mas não conseguiu. No dia 12, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), divulgou nota na qual orientava as “comunidades cristãs e as pessoas de boa vontade a se unirem em jejum e oração a dom Luiz Cappio”.
Diversos movimentos sociais, como Cáritas, Via Campesina e Comissão Pastoral da Terra atenderam ao chamado e convocaram para o dia 17 uma ação nacional de vigília e jejuns solidários. Os atos tiveram ampla cobertura da imprensa. O protesto contra a transposição ganha força também porque, desde o dia 14, as obras estão suspensas por determinação da Justiça Federal. Além disso, os batalhões do Exército que executavam a fase inicial do projeto entraram em recesso que vai até 7 de janeiro de 2008. De seu lado, o governo enxergou nessa paralisação uma oportunidade para negociar.
Desde o dia 16, circulam na imprensa corporativa algumas sugestões, como “suspender” a obra até o dia 7 de janeiro – proposta classificada por assessores próximos a frei Luiz como “pura palhaçada”, em virtude do recesso do batalhão do Exército –, criar um Fundo de Revitalização do São Francisco (projeto que já tramita há três anos no Congresso) ou investir na construção de cisternas. Esta última sugestão foi rechaçada por frei Luiz que a considerou “indecorosa”, uma vez que o governo já havia prometido construir 1 milhão de cisternas em cinco anos de governo e, até o momento, apenas 220 mil estão prontas. Em resposta, os movimentos sociais e o bispo de Barra fizeram uma contraproposta com oito pontos (veja texto nesta página).
22 dias sem comer
Enquanto isso, a saúde de frei Luiz se complica em Sobradinho (BA), local escolhido para a greve de fome. Ao completar três semanas sem comer, o bispo já havia perdido cerca de 8,5 quilos e tem sofrido fortes quedas de pressão. Além disso, por não encontrarem ambiente favorável no estômago, as bactérias que deveriam agir no processo digestivo passaram para outras partes do corpo, causando mal estar.
Para atenuar algumas reações físicas, dom Cappio tem feito escalda-pés diários, assim como outros procedimentos para equilibrar a pressão e o funcionamento do organismo. Desde o dia 17, outro frei, Klaus Finkam, especialista em terapia com jejum, faz uma supervisão diária de frei Luiz e vem emitindo boletins médicos.
Ainda assim, frei Luiz mantém a rotina de orações individuais e coletivas e o atendimento às pessoas, grupos e caravanas que costumam visitálo. Durante as missas diárias, ele apenas dá a benção inicial e final, a celebração é presidida por outros padres.
Solidariedade
O gesto de frei Luiz já foi seguido por mais de 200 pessoas que, em todo o país, encararam jejuns solidários. Uma desseas apoiadoras foi Senhorinha Soares, da Comissão Pastoral da Terra (CPT), que passou o Dia Nacional de Vigília e Jejuns Solidários sem comer em Fortaleza (CE). “Vivemos um momento tão delicado e nos sentimos impotentes diante do grandioso gesto de dom Cappio, que, conhecendo a realidade do povo, do rio, se coloca a serviço desse povo e desse rio”, analisa.
Luiz Cláudio Mandela, assessor nacional da Cáritas, também jejuou no dia 17, só que em Brasília (DF). Ele explica que não quer a morte de frei Luiz, e espera que as motivações do gesto sejam compreendidas pelo governo. Ao todo, ocorreram vigílias e jejuns em 15 cidades de 10 Estados diferentes.
Estados receptores
As respostas mais surpreendentes do Dia Nacional de Vigília e Jejuns Solidários vieram dos locais que seriam supostamente beneficiados pela transposição.
“Queremos mostrar que o projeto de transposição tem sim movimentos contrários no Ceará, e que não é pouca gente”, destacou a assessora da Cáritas Regional Ceará, Francisca Sena Rodrigues. Da Paraíba, Gleison Ricardo, da Frente Paraibana em Defesa da Terra, das Águas e dos Povos do Nordeste, conta que, até a vigília do dia 17, a impressão era a de que no Estado não havia ninguém a favor de frei Luiz. “O próprio arcebispo metropolitano de João Pessoa, dom Aldo Pagotto, preside o Comitê Estadual de Luta pela Transposição”, observa.
Convencimento
Gleison, no entanto, comemora que, durante a panfletagem com a população, foi percebendo que “muitas pessoas defendem a transposição pelo emocional, mas quando conhecem melhor o projeto, mudam de opinião”.
Olhando o movimento na praça da Igreja de Otávio Bonfim, em Fortaleza, estava a dona de casa Francisca Cordeiro de Lima. Até então, os motivos que levaram ao protesto do religioso não eram conhecidos por ela, nem os argumentos em torno do projeto de transposição. “Muita gente não sabe o que está acontecendo. Se não é para o bem da humanidade, sou contra”, posicionase. (Colaborou Débora Dias, de Fortaleza-CE)















