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Em região nobre, estratégia é acabar com as favelas

by peruano last modified 2008-01-04 08:24

Expulsão de famílias do Real Parque é apenas mais uma das fases do processo de valorização da luxuosa região

Expulsão de famílias do Real Parque é apenas mais uma das
fases do processo de valorização da luxuosa região


Eduardo Sales de Lima
da Redação


A região sudoeste da cidade de São Paulo é uma das mais caras do Brasil. Em meio ao luxo e à presença de grandes empresas como Nestlé, Rede Globo e Microsoft, as populações pobres da região vem sofrendo, nos últimos 15 anos, remoções em várias localidades dessa região.
É o caso, por exemplo, do Jardim Edite e da Favela do Coliseu, que perdeu metade da sua área à época da construção da loja Daslu; e do Jardim Panorama, que sofreu uma remoção com o início da construção do Parque Cidade Jardim, uma das maiores obras condominiais de que se tem notícia. Agora, o ataque é contra a favela Real Parque, que, assim como as outras localidades, contém baixíssimos índices de renda e escolaridade, além de grande número de população jovem.
Já houve no Real Parque a execução de um projeto do Cingapura, na gestão de Celso Pitta, entre 1997 e 2000, mas que contemplou somente uma pequena parcela dos moradores. “Foi um plano que não contou com a participação do Conselho Gestor da região, nem com a participação dos moradores”, lembra o sociólogo Tiarajú D’andrea.

Más gestões
De acordo com artigo elaborado pelos urbanistas do Instituto Pólis, Paula Freire Santoro e Renato Cymbalista, a opção de não priorizar novos empreendimentos habitacionais de baixa renda nas regiões centrais tem implicações no adensamento de outras áreas, eventualmente em áreas de mananciais ou periféricas. Eles citam que o governo de Marta Suplicy se diferenciou da gestão Serra/Kassab porque distribuiu de forma mais equilibrada os recursos destinados às diferentes regiões da cidade.No entanto, apontam que nas últimas duas décadas, “os diferentes mandatos não têm sido capazes de enfrentar o problema da habitação na escala necessária”.
O texto destaca que os interesses políticos se sobrepõem aos da população. “Um importante diferencial da gestão Serra/ Kassab em relação à anterior é a relação com a Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo (CDHU), ou seja, com o governo do Estado”. Santoro e Cymbalista reforçam que o alinhamento partidário entre as esferas de governo colaborou significativamente para o repasse de recursos e apoio em projetos da Prefeitura.

Terreno versus pessoas
“Entre as décadas de 1940 e 1960, quando essa população começou a formar as favelas dessa região, era muito interessante ter um “bolsão” de mão-de-obra barata para construir as mansões e grandes edificações, como o estádio do Morumbi e o Palácio dos Bandeirantes. Depois, era necessário aos “empregadores” dispor dessa população para trabalhar na manutenção predial (empregadas domésticas, seguranças, motoristas)”, explica D’andrea.
A rica região ultrapassou essa fase, seguindo a tendência mundial de migrar do capitalismo fordista para o especulativo, como expõe Tiarajú. “Não existe, hoje, uma necessidade tão grande de mão-de-obra nessa construção civil. A partir da segunda metade da década de 1980, os terrenos se tornaram mais importantes do que as pessoas, pois são especulados para a construção de grandes edifícios”, explica.
No entanto, mesmo a presença da população mais pobre não sendo bem quista, a região ainda atrai os trabalhadores. “Aqui é o local do nosso serviço. Se formos morar distante daqui, onde acharemos dinheiro para a passagem”, conta a sergipana Zenaide Santana dos Santos, vendedora de café em ponto de ônibus que mora há 14 anos na favela.


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