Governo de SP separa pobres de ricos
MORADIA Em ação de despejo, Polícia Militar fere moradores da favela Real Parque, na cidade de São Paulo; terreno permanecerá vazio
Eduardo Sales de Lima
da Redação
NA PRIMEIRA das três fases de reintegração de posse programadas para o terreno da favela Real Parque, região sudoeste da cidade, 70 famílias foram desabrigadas com truculência pelos soldados da Polícia Militar. Barracos foram queimados e moradores ficaram feridos com balas de borracha e estilhaços das bombas de gás lacrimogênio.
Em meio à violência, uma grávida sofreu aborto espontâneo. Ainda restam 270 famílias a serem despejadas, em outras duas etapas. Em reposta, os moradores do Real Parque vem realizando protestos na Prefeitura de São Paulo para pedir uma audiência com o prefeito Gilberto Kassab (DEM, ex- PFL) e vereadores. A favela, composta por 1.200 famílias, existe desde 1965 – muito antes das mansões, do prédio das organizações Globo, da Nestlé e da Microsoft, que construíram edificações de luxo no local. A população foi crescendo devido à oferta de trabalho que começou a surgir no entorno. Nunca houve, porém, um projeto integral de urbanização proposto pelo poder público.
O terreno ocupado, de 17 mil metros quadrados, pertence à estatal paulista Empresa Metropolitana de Águas e Energia S.A. (Emae), controlada pelo governo de José Serra (PSDB). A estatal afirmou que não tem planos para utilizar a área, de onde cerca de 300 famílias estão sendo despejadas. “Se vai ficar vazio, por que foi tirar a gente?”, lamenta Maria Auxiliadora, que morava há dois anos no Real Parque.
“Ainda não há planos para o terreno. A área será cercada e haverá vigilância 24 horas”, diz resposta da Emae encaminhada à redação do Brasil de Fato. A Secretaria de Saneamento e Energia do Estado de São Paulo também declarou que não existem, até o momento, projetos para a área. “É uma área de risco e a entrada do período chuvoso poderia desencadear desabamentos”, justificou a Emae.
Segundo informações do sociólogo Tiarajú D’andrea, membro da Comissão de Moradores da favela, a Emae garantiu à defensoria pública que não ocorrerá ação de despejo pelo menos até o dia 21. Mais da metade do terreno está ocupado há mais de cinco anos por alojamentos e barracos de madeira. A outra parte trata-se daquela que sofreu reintegração de posse no dia 11 de dezembro.
Fantasmas?
Boa parte da imprensa corporativa sancionou a ação do poder público positivamente fornecendo-lhe um bônus de “moralidade” contra certos “aproveitadores”. Uma das principais críticas dessa imprensa, sobretudo no dia da ação, foi a de que, dos 140 barracos removidos, alguns teriam sido construídos para que “especuladores” recebessem a indenização da prefeitura, de R$ 5 mil. Seriam os barracos fantasmas.
“De fato, dos barracos removidos, alguns estavam vazios e foram utilizados como uma forma de ganhar dinheiro por meio de algum tipo de indenização. Agora, isso não exime o fato de que existiam muitas pessoas que moravam no local e que tiveram suas casas destruídas e seus móveis jogados nas ruas”, explica D’andrea.
Ele lembra que a construção da ponte estaiada, de R$ 175 milhões, vizinha à favela, também é uma forma de especulação, assim como a construção do Parque Cidade Jardim, um conglomerado residencial e comercial que, antes mesmo de sua construção, já pressionava a saída das favelas da região. “Só a maquete da construtora JHSF foi de R$ 800 mil. Por que esse dinheiro não foi revertido para a construção de moradia digna para a população?”, questiona o sociólogo.
Ação surpresa
Os moradores não foram avisados pela Emae sobre a reintegração de posse. A polícia chegou às 6h da manhã do dia 11 e as pessoas teriam que sair até as 8h; muitos barracos foram destruídos com os móveis dentro, alguns até com pessoas dentro.
“Às 6h12, saí à porta, me vi rodeada de policiais e funcionários da prefeitura. Foi quando um rapaz de camisa amarela me disse que, após a derrubada de um barraco, o meu seria o próximo. Nesse momento, tive uma crise de choro”, lembra Maria Auxiliadora, que se hospeda, agora, provisoriamente, na escola municipal Pero Neto, ainda dentro do Real Parque, junto com mais 10 famílias. Alexandrina Maria de Souza, paraibana que vivia há 22 anos no Real Parque, morava com o filho de 13 anos no barraco que foi destruído. Agora, se veste com roupas doadas. Ela perdeu todos os seus pertences. “Não adianta o governo dar uma passagem para o Nordeste e achar que isso vai resolver o problema”, diz.
A ação surpresa também feriu duas mulheres grávidas, segundo Tiarajú. Uma delas sofreu aborto espontâneo. “Após o fato, a polícia circula diuturnamente, de forma ostensiva, intimidando os moradores”, informa o integrante da comissão de moradores.
Violência
No momento da invasão policial à favela, o Brasil de Fato ouviu de uma das moradoras que estava dentro do Real Parque, Paula Takada, do movimento hip-hop, que a favela estava cercada e os policiais haviam tomado todos os becos. “Estão derrubando os barracos com todos os objetos dentro”, disse ela. Em protesto, os moradores bloquearam totalmente a Marginal Pinheiros durante cerca de cinco minutos, tempo suficiente para que a polícia reagisse usando gás pimenta. O capitão que comandava a ação negou a ocorrência de agressões e afirmou que o maior problema era a presença de mulheres e crianças.
Enorme problema, não para ele, mas para Mariane da Costa Santos, uma criança de 4 meses de idade que se intoxicou com o gás e desmaiou. Foi ao hospital mais próximo para receber oxigênio e permaneceu em observação. “Fiquei desesperada, sem saber o que fazer”, afirma a mãe da menina, Rosiléia Pereira da Costa. Outra moradora ferida foi Gisele Vieira de Lima, atingida nas nádegas e na perna com balas de borracha e, no joelho, com estilhaços de bomba de gás lacrimogênio.
Em assembléia organizada pelos moradores do Real Parque no dia 16, o senador Eduardo Suplicy (PT-SP) disse que antes de o governo estadual agir com repressão, teria sido fundamental que os representantes do poder público tivessem um diálogo prévio com os moradores para que, ao menos, não perdessem seus pertences debaixo do trator. O senador disse que iria dialogar com o prefeito e o governo estadual sobre a situação e que averiguaria, junto ao Ministério das Cidades, sobre o que pode ser feito em relação à favela Real Parque.















