Sem polarização, Berzoini vence segundo turno das eleições do PT
PROCESSO DE ELEIÇÕES DIRETAS Pela primeira vez, esquerda petista não tem candidato no segundo turno; atual presidente, do ex-Campo Majoritário, é reeleito com 61% dos votos
Renato Godoy de Toledo
da Redação
O ATUAL presidente do PT e deputado federal Ricardo Berzoini confirmou as expectativas e foi reeleito presidente da legenda para o biênio 2008/2009, no segundo turno do Processo de Eleições Diretas (PED). Com 100% dos votos apurados, o parlamentar somou 61% contra 38% do seu oponente Jilmar Tatto, também deputado federal por São Paulo.
Segundo a Secretaria de Organização do partido, cerca de 200 mil filiados compareceram às urnas no dia 16 de dezembro para eleger o presidente nacional, presidentes estaduais e municipais, nos Estados em que a disputa foi para o segundo turno.
No dia 2 de dezembro, a militância petista já havia ido às urnas para eleger o novo diretório nacional do partido. O ex-Campo Majoritário, agora chamado de “Construindo um Novo Brasil”, do qual Berzoini faz parte, manteve a maioria no Diretório Nacional.
Ausência da esquerda
Pela primeira vez na história do partido, nenhum candidato das correntes da esquerda petista foi ao segundo turno. Jilmar Tatto representa o que se costuma chamar de “centro petista”, enquanto Berzoini representa o grupo que hegemoniza o PT há mais de 10 anos.
Para Valter Pomar, quarto colocado no primeiro turno, a divisão da esquerda em três candidaturas deu fôlego à guinada ao centro no PED. “Numericamente, houve poucas mudanças de 2005 para 2007. Mas, politicamente, o debate do PED 2007 foi hegemonizado por alternativas de centro, expressas nas candidaturas de Berzoini, José Eduardo Cardozo e Tatto”, analisa.
Tatto ganha força
Mesmo derrotado no segundo turno, Tatto sai do PED fortalecido. O grupo de Tatto sempre foi muito próximo ao antigo Campo Majoritário e à prefeita Marta Suplicy. Jilmar tem mais dois irmãos petistas que sãos parlamentares: o vereador Arselino Tatto e o deputado estadual Ênio Tatto.
A família Tatto goza de ampla influência eleitoral na Zona Sul da cidade de São Paulo, sobretudo no bairro da Capela do Socorro. Os Tatto, apoiados pelos quadros políticos mais próximos da exprefeita Marta, conseguiram vencer Berzoini no Estado de São Paulo. A candidatura de Jilmar obteve apoio de correntes nacionalmente organizadas, como o PT de Luta e de Massa, Movimento PT e Novo Rumo.
No segundo turno, a candidatura de Tatto obteve o apoio da Articulação de Esquerda, tendência de Valter Pomar. “Eu apoiei Tatto, no segundo turno do PED, por dois motivos: para derrotar o candidato do ex-Campo Majoritário e para garantir que em 2010 tenhamos uma candidatura petista à presidência da República”, afirma Pomar. A corrente Mensagem ao Partido, grupo que lançou o deputado federal José Eduardo Cardozo, terceiro colocado no primeiro turno, deliberou uma resolução que não apoiava nenhum dos dois candidatos.
Os quadros políticos mais notáveis que apoiaram Cardozo prestaram apoio a Berzoini no segundo turno, como é o caso do ministro da Justiça, Tarso Genro, da ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, e dos governadores Jacques Wagner (BA) e Ana Júlia (PA). Olívio Dutra, signatário da Mensagem, apoiou Tatto.
Abstenções
O fato de o segundo turno ter sido disputado por duas candidaturas muito próximas ideologicamente pode ter afastado boa parte da militância. A queda no número de votantes do primeiro para o segundo turno é sensível: enquanto 326 mil petistas foram às urnas na primeira etapa do PED, na segunda, cerca de 200 mil votaram.
Para o secretário-geral do partido, Joaquim Soriano, dirigente da Democracia Socialista (DS) e integrante da Mensagem ao Partido, a abstenção “brutal” do segundo turno se deve ao fato de a militância não enxergar em Jilmar Tatto um candidato da mudança. Mas o petista lembra que no PED de 2005, o segundo turno também teve um comparecimento menor do que o primeiro.
“A prática dos Tatto não condiz com o discurso da mudança. Eles controlam o partido aqui em São Paulo, mas acho que essa prática foi noticiada em outros lugares. Nada do que eles pregam, como a democracia interna e a participação, é verificado aqui”, revela Soriano.
Mesmo com o segundo lugar no PED, Soriano afirma que os Tatto não saem numericamente fortalecidos, ao menos no que se refere à composição da Comissão Executiva Nacional do partido.
“Se alguém saiu fortalecido fomos nós (da Mensagem ao Partido). Hoje, a Mensagem só tem um representante na executiva (o próprio Soriano), agora teremos três”, revela. A chapa da Mensagem, além da DS, contou com a participação de figuras egressas do antigo Campo Majoritário.
A aliança foi alvo de críticas de uma parte da militância, sobretudo daqueles que apoiaram a candidatura de Valter Pomar. “A Democracia Socialista escolheu fazer uma aliança com setores socialdemocratas e ‘governistas’ do partido, achando que assim ganhariam a direção”, critica Pomar. Para ele, se a DS optasse por uma aliança com a esquerda petista, esta iria ao segundo turno com chances reais de vitória.















