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Gilberto Freyre, uma vida em exposição

by peruano last modified 2008-01-03 22:26

LEGADO Obra de um dos principais intérpretes do Brasil permanece até maio de 2008 no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo

LEGADO
Obra de um
dos principais
intérpretes do
Brasil permanece
até maio de 2008
no Museu da
Língua Portuguesa,
em São Paulo


Eduardo Sales de Lima
da Redação


GILBERTO FREYRE faleceu há 20 anos. Mas, a partir de 1933, se tornaria um imortal dentro da história intectual brasileira, quando publica o clássico Casa Grande e Senzala. Para uns, ao “suavizar” o regime escravocrata, criava o falso estereótipo sobre uma suposta harmonia entre todas as “raças” que constituíam o Brasil – contribuindo, assim, para o chamado mito da “democracia étnica e social” no país.
No entanto, sua obra não se resume ao livro mais conhecido. Ao utilizar uma linguagem marcada pela oralidade e coloquialidade, e livre de amarras academicistas, ele expôs em outros trabalhos, e também neste, a história das relações íntimas dentro e fora das famílias brasileiras.
“Freyre tem várias contribuições, e Casa Grande e Senzala foi um dos marcos, não só na estética das classes sociais, mas dentro da própria família brasileira e nas relações da família fora da família”, explica a antropóloga Bernadete Castro de Oliveira. Ainda hoje, segundo a estudiosa, é possível verificar a influência do pensamento freyriano nas relações de poligamia disfarçada do brasileiro, o que provém de um período patriarcal que marcou fortemente nossa história.
Até 4 de maio, uma exposição sobre Gilberto Freyre ocupa o espaço dedicado às exposições temporárias no primeiro andar do Museu da Língua Portuguesa, no centro na capital paulista, com materiais para o grande público, documentos pessoais e correspondências de personalidades como Cândido Portinari, Heitor Villa-Lobos, Carlos Drummond de Andrade, Florestan Fernandes e Cícero Dias.
“Com os manuscritos, o público pode acompanhar o processo de criação de Freyre, assim como foi na exposição anterior, da escritora Clarice Lispector”, afirma Júlia Peregrino, curadora de ambas.
Quadros do escritor, fotos e documentos originais, além de todas as primeiras edições dos 80 livros publicados por Freyre estarão inseridos e ambientados nos cenários do local, subdividido em espaços que remetem ao interior de uma casa, com cozinha, sala, quarto, vista da rua, entre outros. “A ‘residência’ se inspira em Casa Grande e Senzala.
O visitante vai descobrindo na casa a própria obra do autor, e pode interagir com os objetos; o forno, as cadeiras, a mesa”, explica Júlia Peregrino.
Para Bernadete Castro Oliveira, uma obra de tamanha representatividade deveria ser itinerante, e não apenas permanecer durante quatro meses no museu. Vida Cotidiana Para Bernadete, a importância de Freyre se insere dentro de um quadro em que não aparece a luta política organizada do brasileiro, “mas que mostra sua vida cotidiana, seus relacionamentos e conflitos”. A obra de Freyre inspirou o escritor Jorge Amado em seus romances, como Tieta do Agreste, apesar de o escritor ter um olhar político diverso do sociólogo pernambucano.
Em Casa Grande e Senzala, são estudadas as características gerais da colonização portuguesa, visando a formação de uma sociedade agrária na estrutura, escravocrata na técnica de exploração econômica e híbrida em sua composição étnica e cultural. Além disso, o escritor destaca as predisposições do povo português como colonizador de áreas tropicais.
Três anos depois, em Sobrados e Mucambos (1936), ele relaciona a decadência do patriarcado rural e o desenvolvimento do urbano, e salienta as relações entre raça, classe e região; estuda os conflitos e conciliações entre o engenho e a praça, o sobrado e o mucambo (construção rústica). Já em Açúcar (1939), por exemplo, o sociólogo pernambucano inova e utiliza a gastronomia como mote de análise do brasileiro, em especial do nordestino.
Reúne receitas de bolos e doces guardadas por tradicionais famílias nordestinas. Demonstra a existência de uma arte do doce criada à sombra da escravidão na região nordeste.

Conflitos apaziguados
O jornalista Roberto Ventura, no livro Folha Explica Casa Grande e Senzala, conta que, a partir dessa obra, a idéia de uma história em que os conflitos se harmonizam passou a fazer parte do senso comum do brasileiro e da cultura política do país, tendo sido veiculada pelos sucessivos governos a partir dos anos 1940. Segundo ele, incorporado por grande parte da população, o mito da “democracia racial” se tornou um obstáculo para o enfrentamento das questões étnicas e sociais e uma barreira para as minorias, como os negros, os índios, as mulheres e os homossexuais, cujos movimentos lutam por identidades diferenciadas e reivindicações específicas.
“A mestiçagem é positiva, mas, como demonstra em sua obra, do ponto de vista da luta de classes, traz o negro à sombra do branco, e isso se insere dentro de uma estratégia de dominação”, afirma. Para ele, os escritos de Freyre podem ser utilizados como instrumento de controle social, porque “as elites se escondem atrás desse mito (da democracia racial e social)”.
Ventura lembra também que a vida política de Freyre fora controversa. Hostilizado pela elite pernambucana ao propor à Cooperativa dos Usineiros de Pernambuco o estudo das condições de vida dos trabalhadores rurais, mais tarde apoiaria informalmente o golpe militar de 1964.

Mais informações
Museu da Língua Portuguesa
Endereço: Praça da Luz, s/nº, Centro, São Paulo – SP
Telefone: (11) 3326-0775.
E-mail: museu@museudalinguaportuguesa.org.br
Site: www.museudalinguaportuguesa.org.br
Horários: Bilheteria - de terça a domingo, das 10 às 17hs/ Museu - de terça a domingo, das 10 às 18hs (aos sábados, a visitação é gratuita)
Ingresso: R$ 4,00


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