Faça o que eu digo, mas...
Luiz Ricardo Leitão
UM VELHO adágio popular nos adverte que, quando alguém aponta o dedo em riste para outra pessoa, quase sempre em tom de censura ou recriminação, não se dá conta de que três dedos se voltam diretamente contra si próprio. Esse é o caso recorrente de diversos políticos e mandatários latino-americanos, os quais, em sua enorme maioria, são meros lacaios de Washington ao sul do Rio Grande. Apesar da longa lista de fantoches que o Tio Sam ainda possui na América Latina, é claro que me inspiro no governo de Álvaro Uribe, da Colômbia, para ilustrar sobejamente este fato...
Recordemos, por exemplo, os recentes entreveros entre Uribe e Chávez acerca da liberação dos políticos colombianos que há anos eram mantidos como reféns pelas Farc. Como é público e notório, o governo de Bogotá fez de tudo para inviabilizar as duas operações – humanitárias – que nos dois últimos meses resgataram seis pessoas, quase todas bastante debilitadas e com problemas de saúde, em áreas controladas pela guerrilha, que há mais de 40 anos luta por uma nova ordem política em seu país. Uribe não hesitou sequer em instruir o Exército para que bombardeasse as zonas próximas aos locais previstos para a entrega dos reféns às autoridades estrangeiras, que, partindo da Venezuela, se deslocaram de helicóptero até a região para concretizar sua missão.
Felizmente, a pressão internacional, em particular as gestões do presidente francês Nicolas Sarkozy em prol da libertação da ex-candidata presidencial Ingrid Betancourt (cuja origem é francocolombiana),fez com que o colombiano fosse obrigado a recuar. Frustrado, coube-lhe apenas o grotesco papel de censurar Chávez por este haver proposto aquilo que salta aos olhos na cena real: o reconhecimento do status de força política insurgente que, há décadas, as FARC já assumiram. Fiel à cartilha de Bush e do Pentágono, Uribe, a exemplo da grande imprensa transnacional, considera que os guerrilheiros de seu país são meros terroristas, para cujo extermínio os EUA, por meio do famigerado Plano Colômbia, despejam milhões de dólares e armas nas selvas e montanhas andinas.
Segundo essa lógica, todas as medidas de Chávez são oportunistas ou demagógicas. O fato, porém, é que até hoje ninguém se mobilizara para solucionar o drama dos reféns e o impasse criado por Uribe para as negociações. A iniciativa do venezuelano, queiram ou não os seus inimigos, foi decisiva para desatar os nós que a doutrina imperialista impusera ao processo. O mestiço, contudo, incomoda bastante o status quo. As suas relações fraternas com Cuba, em especial, são execradas pelo Império: Havana e Caracas comandariam o “eixo do mal” latino, com o apoio do Equador, Bolívia e Nicarágua. Seus crimes? Trocar médicos por petróleo, alfabetizar mais de um milhão de pessoas em menos de um ano e meio e oferecer curso de Medicina gratuito a cinco mil jovens de parcos recursos econômicos. Decerto, se houvessem enviado tropas para destruir o Iraque ou subscrito a farsa da Alca seriam tratados como exemplos dentro da ‘comunidade’ internacional.
As mentiras, porém, podem correr cem anos, mas a verdade as alcança em um único dia. Após condenar Hugo Chávez pela proposta de reforma constitucional que lhe permitiria a reeleição indefinida na Venezuela (por certo uma questão mal avaliada por Caracas, que gerou um desgaste desnecessário para o movimento bolivariano) e celebrar ruidosamente a derrota do inimigo no plebiscito, o partido de Uribe, com a maior desfaçatez, propôs alterar a Constituição colombiana para... viabilizar uma segunda reeleição, ou seja, um terceiro mandato para o atual presidente! A notícia, claro, não despertou nenhuma reação na mídia, que fez vista grossa para o golpe. Para os que se iludem com o modelo de ‘democracia’ que a Casa Branca patrocina aqui ou no Oriente Médio (que o digam Iraque e Afeganistão), o episódio é mais do que pedagógico, revelando-nos, uma vez mais, que, a exemplo do que Bush e seus asseclas subscrevem na política externa ianque, a regra de ouro é uma só: faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço...
Luiz Ricardo Leitão é escritor e professor adjunto da UERJ. Doutor em Literatura Latino-americana pela Universidade de La Habana, é autor de Lima Barreto: o rebelde imprescindível (Editora Expressão Popular).















