Um plano de conquista continental
ENSAIO PARA DOMINAÇÃO Com a invasão do Equador, Plano Colômbia teve seu primeiro teste além das fronteiras da Colômbia
Memélia Moreira
de Orlando (EUA)
GARANTO QUE cada um dos leitores e também não leitores já ouviu, pelo menos uma vez na vida, ou leu e-mails de nebulosos remetentes, que há uma ameaça contra a Amazônia. Acreditem. Não se trata de paranóia ou excesso de imaginação. Há sim um plano de conquista da Amazônia, elaborado com cuidados de ourives ao moldar filigranas de ouro. Infelizmente, os remetentes dos e-mails acertam a informação, errando, talvez propositadamente, o alvo, porque sempre apontam o dedo para as organizações não-governamentais que trabalham com indígenas ou meio ambiente. Sua marca fantasia é “Plano Colômbia”, mas sua meta é o domínio absoluto da América do Sul a partir da biodiversidade da Amazônia, encampando água e petróleo, além de outros recursos de interesse econômico. A Colômbia emprestou seu nome a este plano diabólico porque, ao lado de Israel, é o país que mais “ajuda” recebe dos Estados Unidos.
O Plano Colômbia teve seu primeiro teste militar além das fronteiras com a invasão do Equador há, duas semanas. E deu chabu. A resposta continental imediata rechaçando a violação territorial do Equador e a reunião de emergência da Organização dos Estados Americanos, durante a qual foi aprovada moção de apoio ao país invadido e repúdio à invasão, adiou a execução, a curto prazo, do plano. Mas, mesmo assim, os Estados Unidos insistem.
Visita “surpresa”
Por coincidência, ou não, dez dias depois dos acontecimentos que poderiam desembocar numa guerra continental, o Brasil recebeu a visita da secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice, que, entre uma batida no pandeiro em Salvador – lembrando a velha política de “boa vizinhança do governo Roossvelt – e uns passos de samba, deu seu recado: O Brasil (leiase América Latina) deve “intensificar a guerra contra o terror, proteger suas fronteiras”, bláblá-blá-blá-blá... Uma ladainha antiga, acrescida das palavras “terrorismo” e “narcotráfico”, que não figuravam nos discursos dos Estados Unidos quando iniciou sua caminhada imperial, no início dos anos 1940 do século passado.
O plano
No papel, o Plano Colômbia pretende lutar contra o narcotráfico, defender a democracia e assegurar condições para o pleno desenvolvimento social. Mas todo esse palavrório é solúvel. Trata-se de uma das maiores mentiras já aplicadas pelos Estados Unidos na sua política externa. Além disso, se quisesse combater o narcotráfico, os Estados Unidos não estariam investindo na pesquisa de alucinógenos sintéticos que lhe darão, mais cedo ou mais tarde, o controle sobre essa economia. As fábricas de insumos químicos para processar cocaína e heroína são estadunidenses. Sem contar que dentro do próprio território há enormes plantações de maconha, nos Estados da Virgínia e da Califórnia. Não há, até hoje, notícia sobre o fumigamento dessas plantações, tais como estão fazendo com a plantação de coca na Colômbia.
Resta a Colômbia
Brasil, Bolívia, Uruguai, Venezuela, Equador, e até mesmo, embora de forma pálida, o Peru, já não rezam pela cartilha do Pentágono há quase uma década. Resta a Colômbia. E é lá que os Estados Unidos apertam o torniquete.
Quanto a criar condições para um pleno desenvolvimento social, só não é piada porque há uma trágica realidade. Desde o início das operações do Plano Colômbia, aquele país viu crescer o número de desplazados (fugitivos da guerra do tráfico, dos paramilitares, da guerra civil, do desemprego, a fome...) que podem chegar à casa dos 400 mil nos próximos dois anos.
Portanto, nenhum dos pressupostos do Plano se sustentam por mais de meia hora de conversa. E se constituem apenas em discursos vazios, até porque o próprio presidente George W. Bush, num momento de rara honestidade, reconheceu que “o Plano Colômbia se destina à lutar contra as inssurreições que posssam surgir na América Latina”.
Por ora, o único movimento insurgente são as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC). Antes que surjam outras, ou mesmo um amplo movimento anti-estadunidense, criou-se o Plano Colômbia.
Ajuda em “cash”
Inicialmente, os Estados Unidos despejaram 1 milhão e 300 mil dólares na Colômbia. Cerca de 80% desse valor foi gasto na compra de radares sofisticados, 30 helicópteros de guerra, os Black Hawk, além do treinamento de cinco novos batalhões para treinar 52 mil soldados que se somariam aos 150 mil existentes. Além disso, o dinheiro foi gasto também para a manutenção de um efetivo de 320 mil pessoas que trabalham nas áreas militares de inteligência e segurança.
Na implantação do “Plano”, os Estados Unidos deslocaram para a Colômbia 20 assessores militares e 50 civis (assessores na área econômica). Sete anos depois, quando já não precisavam mais mascarar suas intenções, os Estados Unidos mantém, no momento, 400 assessores militares e 120 civis na Colômbia.
Qualquer semelhança com os anos que antecederam a escalada militar estadunidense no Vietnã não é acaso. Vale lembrar que no Sudeste Asiático eles também começaram com um pequeno grupo de assessores civis e, em menor número ainda, um grupo de assessores militares. Deixaram um rastro de 1 milhão de vietnamitas mortos.
“Senhor da guerra”
Esta ajuda também se dá com distribuição de armas, assessoria militar e tropas na América Latina. E sua implantação se iniciou no ano 2000, embora tenha sido arquitetado nos anos de 1980 pelos especialistas militares do ex-presidente Ronald Regan, chamado, em seu próprio país, de “senhor da guerra”.
No momento em que foi lançado, só Venezeula e Brasil rejeitaram a proposta de assessoria militar. Mas só Hugo Chávez rejeitou o plano integralmente. O presidente do Brasil na época, Fernando Henrique Cardoso, embora tenha rejeitado a assessoria militar, concordou com a instalação do sistema de vigilância e proteção na Amazônia e com o SIPAM E SIVAM.
E o presidente do Equador, Lúcio Gutierrez, não moveu um dedo para impedir o funcionamento da base militar de Manta, de onde os Estados Unidos podem alcançar qualquer grande cidade do continente em questão de horas.
Com todo esse quadro pela frente, não é de se estranhar que o presidente Hugo Chávez tenha se prevenido comprando armas. Grande parte do território que ele governa está na Amazônia e, embora não se beneficie do rio Amazonas diretamente (apenas de afluentes), é na Venezuela que se encontram grandes reservas de petróleo.
E, para bom entendedor, água e óleo são os verdadeiros nomes do Plano Colômbia. (Leia íntegra na Agência Brasil de Fato, www.brasildefato.com.br) >/font>















