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Mudar... e não mudar nada

by peruano last modified 2008-04-02 23:54

ELEIÇÕES NOS EUA Democrata ou republicano, negro ou branco, homem ou mulher, mudanças não estão no horizonte

ELEIÇÕES NOS EUA Democrata ou republicano, negro ou branco, homem ou mulher, mudanças não estão no horizonte


Dafne Melo
da Redação


SE HÁ algo claro em relação ao novo presidente estadunidense que assumirá a Casa Branca a partir de 2009, é que ele não representará qualquer possibilidade de mudanças em relação à gestão de George W. Bush.
Uma breve consulta acerca dos principais doadores de campanha de cada um dos concorrentes deixa ainda mais evidente essa impossibilidade. Na lista das 20 maiores doações de campanha do republicano John McCain e dos democratas Barack Obama e Hillary Clinton estão gigantes do mercado financeiro internacional, como JP Morgan Chase & Co, Morgan Stanley, Citigroup e Goldman Sachs.
A gigante da comunicação Time Warner aparece apenas na lista dos candidatos democratas e a Microsoft mostra que aposta em Hillary Clinton, a única para quem faz doações.
A necessidade de pagar a conta de campanhas apoiadas cada vez mais no espetáculo midiático já garantiu à corrida eleitoral de 2008 o posto de eleição mais cara da história do país. Antes mesmo do início das prévias partidárias, os candidatos já haviam gasto mais do que em qualquer outra eleição. “Sabíamos desde o início que esta eleição seria a mais cara, mas ver que a temporada anterior às primárias custou sozinha mais que uma eleição inteira é extraordinário”, declarou, à agência France Press, Sheila Krumholz, diretora da organização independente Center for Responsive Politics.
Ainda não tão clara assim está a definição de quem vencerá o pleito a ser realizado em 4 de novembro. As pesquisas mostram empate técnico entre John McCain e qualquer um de seus possíveis concorrentes democratas, Obama e Clinton, senadores pelos Estados de Illinois e Nova Iorque, respectivamente. Já outra pesquisa divulgada na semana passada pelo The Wall Street Journal indica que 50% dos estadunidenses querem que o próximo presidente seja democrata, contra 37% que preferem um republicano.

Mais do mesmo
Sean Purdy, canadense e professor de História dos Estados Unidos na Universidade de São Paulo (USP), analisa com pessimismo as possibilidades de alteração das políticas estadunidenses. Ao seu ver, o candidato republicano irá, naturalmente, seguir fielmente os passos de Bush, inclusive no item mais polêmico: a Guerra do Iraque. Mc-Cain defende a permanência das tropas no país, pois sua retirada significaria um fortalecimento do Irã na região.
Purdy aponta que Obama e Clinton, embora apóiem enfaticamente a desocupação, não têm planos consistentes para a retirada. “Debate-se muito pouco e muito superfi cialmente sobre a guerra, e o plano de ambos é extremamente vago. Além disso, não estão contra a guerra porque ela é um conflito racista e imperialista, mas porque não é mais interessante financeiramente”, enfatiza. A lógica, completa, é desocupar simplesmente porque não há mais como ganhar o conflito que já custou um trilhão de dólares aos cofres públicos.
O historiador completa ainda que, em relação a outros pontos da política externa, a tendência é a continuidade em relação à era Bush. A desocupação do Afeganistão, por exemplo, não é cogitada por nenhum dos democratas. A política de apoio a Israel no Oriente Médio também é inquestionável. Barack Obama declarou que fará esforços pela paz na região, mas afirma que Israel tem o direito de se defender contra os ataques palestinos. Hillary também mantém essa posição. “No geral, muda quase nada entre Clinton e Obama, apenas o tom, o que é importante, porque, ao adotar um discurso mais ameno e progressista, Obama procura marcar sua diferença”, analisa Purdy.
Assim, enquanto o caráter conservador do republicano John McCain – ex-combatente da guerra do Vietnã e atual senador pelo Arizona – é inquestionável, Hillary e Obama procuram explorar uma imagem mais progressista, buscando conquistar os votos dos insatisfeitos com o governo Bush.
Nessa corrida, o candidato negro, fi lho de um imigrante queniano, está na frente. “Obama representa mudança no imaginário público. Acredito que o povo estadunidense queira mudanças de fato e ele tem usado muito bem sua retórica para conquistar esses votos”, opina Purdy. “Mas, como disse a ativista Angela Davis [militante comunista e integrante dos Panteras Negras, na década de 1970], ele é ‘mudança que não traz mudança’”, completa.

As opiniões dos candidatos sobre alguns temas polêmicos

Cuba/renúncia de Fidel Castro
Barack Obama:
afirmou que a saída de Fidel “deve marcar o fim de uma era obscura na história cubana”. Em debate, cogitou fazer reuniões com líderes cubanos para negociar libertação de presos e discutir direitos humanos e a democratização da ilha. Cogitou, também, afrouxar o embargo econômico à ilha.

Hillary Clinton: segundo analistas, evita tocar no assunto sobre como irá lidar com Cuba. Após saída de Fidel, porém, qualifi cou o sistema cubano como “totalitário” e afirmou que ou o país permanece com suas “fracassadas políticas do passado” ou se une “à comunidade das nações democráticas”. Apóia o embargo à ilha.

John McCain: afirmou que não há liberdade em Cuba e criticou os irmãos Castro por se “agarrarem ao poder”. Para o senador, “a transição de Cuba rumo à democracia é inevitável”, e os EUA “podem e devem” incentivar a “explosão da liberdade em Cuba”. Também promete manter o embargo. Guerra do Iraque

Obama: único candidato que votou contra a guerra em 2003. Afirma que “não há solução militar” para o conflito. Rejeitou a estratégia de aumento da presença militar e, em janeiro de 2007, propôs um plano para uma retirada gradual de tropas, dizendo que é necessário definir um cronograma e alcançar uma solução política para o Iraque. Entretanto, em 2006, votou contra o plano de retirada do Partido Democrata.

Clinton: não se desculpa por ter votado a favor da guerra em 2003, mas diz que, se soubesse à época o que sabe agora, teria agido de maneira diferente. Opôs-se à estratégia de aumentar a presença militar em Bagdá em 2007 e disse que porá fim à ocupação se for eleita presidente. “A retirada não representa uma derrota. A derrota seria manter os soldados no Iraque por cem anos.”

McCain: afirma que a saída das tropas estadunidenses levaria a um fortalecimento do Irã na região e, por isso, não defende a desocupação. Como senador, votou pela invasão em 2003 e apóia o aumento de tropas no país. Adverte, ainda, que os planos de retirada de soldados pode provocar um genocídio na região.

Crise na América Latina
Obama:
no recente episódio entre Colômbia e Equador, declarou que o povo colombiano sofreu durante mais de quatro décadas “nas mãos de uma brutal insurgência terrorista”, e que Álvaro Uribe “tem todo o direito de se defender” contra as Farc. Recomendou também a “diplomacia ativa” para acabar com as tensões. Cogita, também, reunir-se com Hugo Chávez, algo negado pelos outros dois candidatos.

Clinton: Assim como Obama, apoiou a invasão de Uribe e pediu uma saída diplomática para o conflito. Sobre Chávez, “está se colocando abertamente do lado de terroristas que ameaçam a democracia na Colômbia e a paz e segurança na região”.

McCain: assim como George W. Bush, defendeu a ação de Uribe e considera Hugo Chávez um inimigo na América Latina. Defende a continuidade do Plano Colômbia. Imigração

Obama: defende maior policiamento na fronteira entre os EUA e o México e punições rigorosas para empregadores que contratarem imigrantes ilegais. Defende, ao mesmo tempo, um plano de legalização de imigrantes que cumpram determinados requisitos.

Clinton: defende as mesmas propostas de Obama. Em debate, afirmou que, se eleita, elaborará um plano de para “tirar das sombras” o que se estima serem 12 milhões de imigrantes ilegais já nos primeiros 100 dias de seu governo. Destacou as implicações para a segurança, após 11 de setembro, de não se saber quem entra nos EUA através de sua fronteira com o México.

McCain: Defende o reforço das fronteiras para garantir a segurança nacional e adotou um discurso mais ameno do que o de Bush, que cogitou a construção de um muro entre os países. Para os democratas, sua posição é falsa e eleitoreira. Para os republicanos, sua proposta é criticada por ser bipartidária e por, na prática, oferecer anistias a imigrantes ilegais. Economia e questões sociais

Obama: afirma não ser protecionista e defende os acordos de livre comércio. A atual crise mostra a fragilidade da economia estadunidense causada pelas políticas dos anos Bush. Promete ajudar famílias de classe média que enfrentam custos crescentes e salários estagnados. Defende que os interesses das grandes empresas não podem ditar ações e reformas nos setores de saúde e educação.

Clinton: tem tentado mostrar-se bem preparada para assumir a “caótica” economia estadunidense. Promete gerar 5 milhões de empregos e aposta na transição de uma economia baseada em petróleo e combustíveis poluentes para os agrocombustíveis. Afirma que a crescente diferença de renda entre ricos e pobres está minando as classes média e trabalhadora nos Estados Unidos. Quer reduzir os benefícios dados às grandes empresas e investir em educação e criação de novos empregos.

McCain: colocou a preservação do liberalismo econômico estadunidense no centro de sua campanha. Fala da necessidade de controlar os gastos federais antes de realizar corte de impostos, mas também prometeu manter os impostos baixos e simplificar o sistema fiscal. Relaciona a perda do controle dos gastos federais à derrota republicana nas eleições legislativas de 2006.


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