Mulheres enfrentam o capitalismo
MOVIMENTOS SOCIAIS Jornada de lutas do 8 de março questionou conseqüências da ação de transnacionais para a soberania nacional
Dafne Melo
da Redação
NENHUM PASSO atrás e ainda mais ousadia nas ações. Essa é a promessa das mulheres da Via Campesina que, entre os dias 4 e 12, realizaram uma intensa jornada de lutas contra o agronegócio e as transnacionais. Itelvina Masioli, da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), destaca, em balanço das ações para o Brasil de Fato, a linha de enfrentamento ao capital adotada pelas mulheres nessa jornada.
Entre as vitórias, ressalta os resultados do protesto contra a transnacional sueco- finlandesa Stora Enso, no Rio Grande do Sul. Apesar da repressão exercida pela Brigada Militar, o evento forçou a empresa a reconhecer que criou uma empresa de fachada, a Azenglever – ou seja, contratou “laranjas” – para poder comprar terras numa distância inferior a 150 km da fronteira. Pela lei brasileira, empresas estrangeiras não podem comprar áreas na faixa de fronteira.
Para Itelvina, a ação agressiva das transnacionais do agronegócio não deixa outra alternativa aos lutadores sociais. “Estamos numa situação na qual ou lutamos, para que as próximas gerações tenham possibilidades de sobrevivência nesse país, ou ficará cada vez mais inviável a vida da classe trabalhadora. E nós, mulheres camponesas, temos importância vital nesse processo de luta”, destaca.
Brasil de Fato – Qual avaliação sobre, ao invés de fazer ações em um dia apenas, no 8 de março, fazer uma semana de lutas?
Itelvina Masioli – Para nós, foi muito importante a mobilização ter tido um caráter de jornada de lutas que, na verdade, durou até mais que uma semana. Nós começamos no dia 4 e fomos até o 12. O Rio Grande do Norte ainda ficou uns dias a mais mobilizado. Isso foi um salto de qualidade em nossa jornada – que agora não está caracterizada em um dia apenas.
As diferentes ações desenvolvidas criaram um espaço crescente de mobilizações. Por isso foi possível pautar por mais de uma semana essa questão da luta contra o agronegócio e as transnacionais e, ao mesmo tempo, pautar todo debate de defesa da reforma agrária e da soberania alimentar, tendo como pano de fundo o debate sobre o modelo econômico e agrícola. E, na luta de classes, no enfrentamento contra esse modelo, mostramos que as mulheres trabalhadoras têm um protagonismo importante, questionando esse modelo que gera degradação do meio ambiente e oprime homens e mulheres.
Essa jornada teve todo um processo de organização e preparação, no qual as mulheres foram protagonistas, refletindo sobre sua capacidade de resistência e de colocar publicamente como é nocivo para o povo esse atual projeto de desenvolvimento que gera desigualdade social, injustiça, impunidade e morte. Estamos numa situação na qual ou lutamos, para que as próximas gerações tenham possibilidades de sobrevivência nesse país, ou ficará cada vez mais inviável a vida da classe trabalhadora. E nós, mulheres camponesas, temos importância vital nessa luta.
Quais as grandes vitórias da jornada?
Acho que um ponto positivo foi o reconhecimento, por parte da Stora Enso, de que, de fato, eles estão em uma área ilegal. Outro ponto é que, em audiência pública no Distrito Federal, o embaixador da Suíça (Rudolf Bärfuss) pediu desculpas, publicamente, à companheira Isis, viúva do Keno. Claro que desculpas não resolvem, mas foi um reconhecimento público de que a Syngenta tem culpa, ou seja, é assassina de mais uma vida.
Isso, claro, foi resultado de toda uma pressão nacional e internacional, e esse reconhecimento reforça a importância da nossa luta. Além disso, todo o processo de construção das ações foi muito rico. A solidariedade entre as mulheres, a mística, tornar visível a nossa luta pela reforma agrária e contra esse modelo, tudo isso foi muito poderoso e, com certeza, dá forças para a Via Campesina e os movimentos sociais.
As ações buscaram um enfrentamento direto com o capital?
Isso é importante. Nosso lema foi: mulheres camponesas em defesa da reforma agrária, soberania alimentar e contra o agronegócio. Como se materializa o agronegócio? Tínhamos que identificar alguns símbolos dessa afronta à soberania do nosso país. E nada mais do que a ação das mulheres de São Paulo contra a Monsanto, principalmente nesse momento em que mais uma vez o governo brasileiro age em defesa das transnacionais, com a liberação do milho transgênico. Antes foi a soja e agora é a vez do algodão. A ação da Stora Enso, questionando as ações ilegais das transnacionais no nosso país, também deixou clara a mensagem que nós, mulheres, já que o governo brasileiro não ouve o povo, vamos, com a nossa determinação, lutar contra isso.
Como a companheira Roseli Nunes, assassinada, disse, “é melhor morrer lutando do que morrer de fome”. E o governo brasileiro faz vista grossa, totalmente conivente com empresas que desrespeitam nossa legislação e que não têm nenhum compromisso com o desenvolvimento sustentável do Brasil.
Nesses enfrentamentos corre-se riscos. No Rio Grande do Sul, algumas companheiras foram feridas. Como você avalia a repressão?
A ação da governadora gaúcha [Yeda Crusius – PSDB] é típica da política tucana, que coloca o Estado e sua polícia a serviço do agronegócio, nesse caso, a serviço da Stora Enso, uma das maiores contribuidoras fi nanceiras da sua campanha [a Stora Enso e outras papeleiras, como a Aracruz Celulose e a Votorantim Papel e Celulose, foram responsáveis pela doação de R$ 0,5 milhão para a campanha de Yeda].
Então, isso nos faz questionar o porquê dos governos estadual e federal agirem contra as trabalhadoras e contra quem luta, de forma geral. Como a Stora Enso, que compra terras ilegalmente, próximas às nossas fronteiras, recebe essa proteção do Estado? Mais uma vez vemos que o Estado brasileiro está a serviço do capital, defendendo o lucro dessas empresas.
Com relação à imprensa, como você avalia a repressão?
A imprensa brasileira, infelizmente, jamais vai defender a luta do povo brasileiro, muito menos das mulheres camponesas. A postura dessas empresas é também de defesa do capital internacional e financeiro. É triste, mas a imprensa tem um lado, e um lado muito claro, que é de defesa do sistema, ao invés de exercer sua função social. Por todos esses motivos, é uma luta bastante desigual, mas, ao meso tempo, é o que traz força para a luta da classe trabalhadora contra essas injustiças.
Nesse contexto, avaliamos que é essencial que o povo brasileiro perceba como a mídia se comporta e a serviço de quem ela coloca toda sua força. Ela informa ou criminaliza? Leva informação ou defende o agronegócio?
Os movimentos da Via Campesina são movimentos do campo. Como, na jornada, construir uma aliança também na cidade?
Isso é muito importante. Fizemos ações em 21 Estados, incluindo o Distrito Federal. Foi a maior jornada em uma semana do 8 de março. Em muitos Estados, conseguimos articular e organizar ações com as mulheres da cidade, como atos públicos, panfletagens, ocupações e protestos. Acho que essa aliança é extremamente importante e deve ser potencializada cada vez mais.
A construção da aliança campo e cidade certamente é um desafio para os movimentos sociais e deve ser permanente, não só no 8 de março, mas durante todo o calendário de lutas. As mulheres, claro, também devem se aliar para além dessa data. Desde 2006, com a ação da Aracruz, acredito que conseguimos mostrar o salto de qualidade das mulheres como sujeito político ativo nesse processo de luta, resistência e enfrentamento.
Quem é
Itelvina Masioli é integrante da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), no Estado do Mato Grosso. Integra também o setor de gênero do MST.















