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Quem não chora não mama...

by peruano last modified 2008-04-03 08:02

Luiz Ricardo Leitão

Luiz Ricardo Leitão


A SECRETÁRIA estadunidense de Estado, Condoleezza Rice, esquivouse da Argentina de Cristina Kirchner (que estreita cada vez mais seus laços com a Venezuela de Chávez) e passou de passagem por Bruzundangas, sem provocar maiores comoções. Fez propostas indecorosas para “flexibilizar” as fronteiras nacionais na “guerra preventiva” contra o “terrorismo”, mas ninguém a levou muito a sério, porque o governo de Bush já faz água por todos os lados (desde o fi asco no Iraque até a crise do tal subprime – as hipotecas imobiliárias – e a quebra de gigantes financeiros) e a tchurma agora só quer saber do novo síndico do Império, cujas prévias são destaque absoluto na mídia internacional, sobretudo aqui na colônia, para deleite da Folha, Globo, Veja & cia.
Na Bahia, a escrava da casa grande, isto é, a serviçal da Casa Branca assinou acordos em favor da “harmonia multirracial”, como se porventura os EUA fossem algum paradigma de justiça étnica e social. Depois, viajou para o Chile, endurecendo a retórica contra Hugo Chávez, a quem acusou de abrigar as FARC em seu território. Pelo visto, o mestiço bolivariano incomodou bastante o condomínio do Tio Sam, depois que Uribe violou o território do Equador para assassinar Raúl Reyes, o líder das FARC que negociava com o presidente francês Sarkozy a liberação de Ingrid Betancourt, a franco-colombiana que é refém da guerrilha. O episódio deveria passar em brancas nuvens, sem qualquer repercussão na imprensa, mas Chávez botou a boca no trombone, o caldo entornou e... o resto da história todos vocês já sabem.
Suspeito que o venezuelano seja um torcedor à distância do Botafogo (RJ), cujo “choro” após a duvidosa arbitragem que lhe subtraiu o título da Taça Guanabara em recente decisão contra o rubro-negro carioca também virou manchete na imprensa e tema caloroso nos botequins locais. Afinal de contas, como diz a marchinha do glorioso Cordão da Bola Preta, quem não chora não mama... Se acatasse calado e subserviente a “ação preventiva” orquestrada por Washington, Chávez logo, logo teria as tropas de Uribe no quintal de casa. Entonces, nada de arreglo, ou jeitinho, que é a fórmula predileta das elites a serviço do imperialismo ao sul do Rio Grande – e nada tem a ver com diplomacia, conceito que o próprio venezuelano exercitou muito bem na reunião da OEA em Santo Domingo.
Enquanto isso, no mundo edulcorado dos sorridentes, segue tudo “às mil maravilhas” no cotidiano da burguesia de Bruzundangas: segundo o New York Times, órgão oficial da matriz, o Brasil é o 2º maior consumidor de cocaína do mundo, atrás apenas dos próprios EUA (invencíveis neste torneio); disputa ainda a liderança mundial nas operações plásticas, não por conta da cirurgia restauradora, mas sim pelo silicone dos seios e o Botox das bochechas; além de galgar o pódio nas cirurgias de redução do estômago, no consumo de “moderadores de apetite” e outras práticas menos cotadas, como aquelas a que se submetem as filhas mais humildes da pátria-mãe, desde os inúmeros abortos ilegais até o número absurdo de cesarianas que a mercantilização da saúde estimula no país.
Sim, segue tudo como dantes no reino encantado da Daslu. Tanto os adultos, quanto as crianças vivem num mundo de faz-de-conta, conforme posso observar na reportagem que uma colunista social publicou sobre as festinhas infantis da elite paulistana, que chegam a custar meio milhão de reais (!) e incluem passeios de carruagem à la Cinderela, pouso de helicópteros para desembarque do Batman e outros “super-heróis”, brincadeiras com atores globais (Marcello Antony e Reynaldo Gianecchini são figurinhas carimbadas no ramo), desfile de elefantes, tigres e macacos, além de pit-stop com carros de F-1 e outras acrobacias inconcebíveis em uma cidade que mal consegue mover-se para além dos portões dos condomínios, com 6 milhões de veículos amontoados pelas ruas.
Como se vê, a censura aos chorões só vale para os mestiços bolivarianos: os miúdos da paulicéia desvairada mal verteram as primeiras lágrimas e os abonados papais já lhes regam o berço com mimos que nem Brás Cubas recebia de seu generoso pai-pai. Nem choram, mas já mamam...

Luiz Ricardo Leitão é escritor e professor adjunto da UERJ. Doutor em Literatura Latino-americana pela Universidade de La Habana, é autor de Lima Barreto: o rebelde imprescindível (Editora Expressão Popular).


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