Em meio à quebradeira – nós e eles
NÃO SEJAMOS alarmistas. No entanto, não há dúvida de que a situação econômica dos Estados Unidos degringola em ritmo acelerado.
Aliás, o diretor-gerente do FMI, Dominique Strauss-Khan, já afirmou, no dia 17, que “a crise do mercado finaceiro global piora a olhos vistos”, e que “o risco de contágio está aumentando”.
O mais recente alarme foi a quebra do Bear Stearns, sustada pela sua “compra” a preço de banana pela concorrente JP Morgan – obviamente com dinheiro do Federal Reserve (Fed – o banco central dos EUA). As bolsas do mundo inteiro despencaram, e a insegurança tomou conta dos mercados.
As instituições e fontes estadunidenses procuram ser discretas e exalar um certo relativismo frente à situação. O presidente George W. Bush, também no dia 17, depois de afirmar que seu governo faz e fará o que for necessário para sair da crise e anunciar que já tomou “medidas decisivas”, comentou: “Uma coisa é certa: passaremos por momentos difíceis”.
A Europa é bem menos otimista. O jornal Independent (Inglaterra) tratou a questão com o título de “Wall Street teme a próxima Grande Depressão”, referindo-se à crise de 1929.
Em todo caso, para nós – no Brasil – o termômetro mais preciso é a declaração do ministro da Fazenda, Guido Mantega. Sempre discreto e conciso, nada versado em declações bombáticas, o ministro Mantega, referindo-se à crise dos EUA, se permitiu declarar que “A cada dia ela parece maior”, acrescentando: “Alguns já começam a falar numa crise parecida com a de 29”.
Para os trabalhadores, a política deve ser o centro da discussão
Embora as comparações históricas sejam sempre perigosas, concordamos, do ponto de vista estritamente econômico, que a atual crise apresenta traços que se assemelham à quebra de 1929. A esse respeito, já publicamos artigo em nossa edição 257.
Porém, do ponto de vista político (política = luta de classes), o quadro internacional que se desenha se aproxima muito mais da crise que se desdobrará na Primeira Guerra (1914-1918), pondo um ponto final na “Belle Époque”. E é isto que interessa fundamentalmente. Pelo menos, a nós – trabalhadores e povo.
Vejamos:
A crise de 1929, que desembocará na tragédia de 1939-1945, acontece num momento em que as organizações e movimentos de trabalhadores e do povo se encontravam relativamente ativos e articulados internacionalmente. Fosse nos países centrais do capitalismo, fosse nos da sua periferia.
Mais que tudo – independentemente das críticas aos rumos já então tomados pela Revolução de Outubro de 1917 – existia a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), que referenciava e alimentava essas lutas. A URSS era não apenas uma grande potência militar e política (contando com o apoio de partidos comunistas que se multiplicavam por todo o mundo), como foi peça chave para a derrota dos nazi-fascistas, para não falarmos das resitências dirigidas por comunistas em toda a Europa. Aliás, hoje sabemos de sobra que o famoso – ainda que atabalhoado – Desembarque da Normandia aconteceu naquele instante, exatamente para se contrapor ao avanço do Exército Vermelho no front Oriental, que já se encontrava às portas de Berlim, e que poderiam – sem o citado desembarque – chegar a Paris.
O século 20 e a “Segunda Belle Époque”
Já a crise do início do século 20 acontece em contexto diverso. Após a guerra Franco-Prussiana (1870- 1871), pacificado o continente Europeu, o capital e os impérios entram numa fase de desenvolvimento que lhes parecia eterno. Embora florescessem movimentos proletários de inspiração socialista, articulados em torno da 2ª Internacional, nada se assemelhava à Primavera dos Povos de 1848, quando revoluções eclodiram em vários países, das quais é emblemática a Comuna de Paris. Por sinal, a fragilidade dos partidos social-democratas ficará exposta, como uma fratura, em 1914, quando muitos deles votarão, nos parlamentos dos seus respectivos países, os créditos de guerra, aderindo ao discurso belicista-patrioteiro das elites. Por outro lado, a experiência de um Estado socialista só acontecerá a partir de 1917.
Assim, esse período das últimas décadas do século 19 até 1914, quando tudo parecia funcionar bem ad eternum para o capital, nenhuma expressão o caracterizaria melhor que “Belle Époque”. Mas, como sempre, uma bela época para o capital. Assim, esse período, das últimas décadas do século 20 até o final desta primeira década do século 21, quando tudo parecia funcionar bem ad eternum para o capital, nenhuma expressão o caracteriza melhor que “A Segunda Belle Époque”. Como a primeira, em 1914, esta “Segunda Belle Époque” parece encontrar o seu fim.
Nossa política e nossas tarefas
Embora a discussão econômica seja importante para entendermos e localizarmos os pontos fracos da cadeia, visando a avançar em nossas conquistas, mais que isto, ela não nos é necessária: não cumpre aos trabalhadores e ao povo, nem às suas organizações e movimentos ou aos seus partidos discutir uma saída para o capital.
Cumpre-nos, isto sim, no quadro político (= da luta de classes) internacional hoje, em que as organizações e movimentos de trabalhadores e do povo, na maioria dos países – especialmente nos centrais – se encontram em refluxo e/ou são pouco expressivos; quando, a partir da Queda do Muro (1989), se desmontou qualquer possibilidade de freio, em termos de Estados, às ambições dos EUA; definirmos uma política e construirmos os instrumentos necessários para a disputa da hegemonia quando se desorganiza a economia capitalista.
De qualquer modo, haja o que houver, aconteça o que acontecer, a bandeira da Paz Internacional jamais poderá ser negociada.















