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A economia macabra da ocupação

by peruano last modified 2008-05-29 00:07

GAZA Para racionalizar custos com o controle militar da Palestina, Israel impõe bloqueio à entrada de combustível no território

GAZA Para racionalizar custos com o controle militar da Palestina, Israel impõe bloqueio à entrada de combustível no território


João Alexandre Peschanski
de São Paulo (SP)


O governo israelense iniciou, em setembro de 2005, uma nova etapa na ocupação dos territórios palestinos. Esta começou com a retirada das colônias – conjuntos residenciais, localizados para além das fronteiras de Israel, determinados pela Organização das Nações Unidas – de Gaza e tem seu desdobramento mais recente no bloqueio à entrada de combustível nessa mesma região, em curso desde 17 de janeiro.
Na macabra lógica sionista, o objetivo da mudança na ocupação é encontrar uma forma economicamente sustentável de manter a Palestina sob controle. De acordo com dados de 2007 do Ministério das Finanças de Israel, 13% do orçamento anual do governo é gasto com a ocupação – algo como 9,3 bilhões de dólares por ano, aos quais se somam os 2,2 bilhões de dólares enviados anualmente por Washington. Enquanto o crescimento médio do orçamento israelense é de 1,7% por ano, nesse mesmo período o aumento dos custos da ocupação atinge 8%. Mantido esse ritmo, em cerca de 20 anos os gastos totais com o controle militar dos territórios palestinos equivalerá a 50% do total orçamentário.
“Não há Estado moderno que possa se manter com esse tipo de gastos. Na medida em que o governo israelense não está disposto a acabar com a ocupação, está desenvolvendo uma forma de ‘racionalizar’ a economia da violência”, explica o economista israelense Shir Hever, da organização não-governamental israelo-palestina Alternative Information Center (AIC – Centro de Informações Alternativas), uma das principais entidades de denúncia das mazelas da política belicista israelense.
A economia da ocupação se insere dentro de um plano governamental mais amplo, revela Hever, segundo quem há uma mentalidade hegemônica nos líderes de que “o ônus do controle sobre os territórios palestinos tem de ser garantido pela população israelense”, como o aumento de impostos e a redução de investimentos em políticas sociais – 9% em 2007, principalmente em saúde, assistência social e educação. Influenciado por órgãos financeiros multilaterais, o governo iniciou um processo de privatização das maiores estatais, principalmente das refinarias de petróleo.
Em 2006, de acordo com um relatório do AIC, o governo vendeu bens que somam 1 bilhão de dólares. “É um cálculo demente, pois, por mais que postergue um pouco a crise, logo os bens públicos à disposição de compradores vão acabar e o colapso será ainda mais profundo”, afirma o economista israelense.

Retirada das colônias
Desde 1967, o governo de Israel promoveu a construção de colônias em Gaza, geralmente habitadas por judeus radicais. A iniciativa contrariava acordos internacionais, como a Convenção de Genebra. Mas não importava para os governantes israelenses: com seu apoio financeiro, a população das colônias de Gaza passou de menos de 10 mil, em 1972, a quase 100 mil, em 2005. Organizados pelo Exército, os conjuntos residenciais foram construídos em locais estratégicos, para garantir o controle sobre a maior área possível, além de confiscar terras aráveis e recursos hídricos. Em 2005, quando da retirada, os israelenses das colônias representavam 0,5% dos 1,5 milhão de habitantes de Gaza, mas controlavam 20% de todo o território e das fontes de água.
A retirada das colônias de Gaza, aplaudida pelo então secretário-geral da ONU, Kofi Annan, como uma iniciativa de paz, se caracterizou por uma intensificação do controle israelense sobre a população palestina, a custo inferior do que a manutenção da segurança dos colonos. Um quarto dos israelenses que saíram de Gaza foi diretamente deslocado para conjuntos residenciais na Cisjordânia. De acordo com dados do AIC, o governo gastou 144 milhões de dólares em 2004 com a segurança dos colonos, montante que crescia mais de 10% a cada ano.
A retirada foi acompanhada de uma intensificação militar da ocupação, com repetidas investidas militares nas principais cidades de Gaza.
Os ataques agravaram o desastre social que os israelenses deixaram para trás: informações do Banco Mundial revelam que, sem ajuda internacional, o nível de miséria na região passaria de 16% para 41%. “A situação em Gaza é emergencial. Não há indústria, não há agricultura, não há bases para uma economia sólida”, diz Hever.

Dependência coagida
Assim como o governo israelense não considera os representantes palestinos, especialmente os do Hamas, interlocutores razoáveis para negociar a paz da região, também não toma Gaza como um potencial parceiro comercial.
“Os economistas israelenses que assessoram o governo estipulam que o controle sobre os territórios palestinos é uma forma de arrecadar dinheiro para custear a ocupação”, afirma Hever, para quem o que ocorre em Gaza “é uma pilhagem”. Os recursos que entram em Gaza passam todos por Israel – já que não há portos e aeroportos na região. Há cobranças de taxas de transporte – e a maioria dos bens comprados é produção israelense.
O bloqueio à entrada de combustíveis, segundo o economista israelense, é uma forma de acentuar a dependência, impedindo o desenvolvimento de infra-estruturas. A economia macabra da ocupação israelense, com o bloqueio da entrada de recursos fundamentais para o funcionamento de serviços básicos, leva a um colapso humanitário em Gaza. Hever fala em “holocausto palestino”.
Um abaixo-assinado de entidades israelenses, divulgado na mídia em 29 de abril, descreve a situação em Gaza: “Expressamos nossa preocupação em relação à sistemática destruição de construções essenciais para a vida em Gaza, um território sob ocupação de Israel, que impede que haja combustível para gerar eletricidade, que funcionem os hospitais e as bombas de água. Essa situação é inaceitável, pois marca uma represália e uma punição coletiva contra civis, injustificáveis e passíveis de serem consideradas crimes de guerra”.


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