Governo Evo enfrenta uma conjuntura difícil
Mobilizações da esquerda e da direita conturbam situação política do país
Igor Ojeda
de Cochabamba (Bolívia)
Às vésperas da realização do referendo revogatório dos mandatos do presidente, vice-presidente e governadores departamentais, marcado para o dia 10, o governo de Evo Morales vê crescer os conflitos políticos e sociais no país.
O mais grave deles, no entanto, vem de um dos principais movimentos sociais do país, a Central Operária Boliviana (COB), entidade histórica de trabalhadores. Há dias, a organização realiza bloqueios de estradas e manifestações nas principais cidades com o objetivo de pressionar o governo e o Congresso Nacional para aprovarem sua proposta de uma nova Lei de Pensões.
Quase que simultaneamente, o Executivo apresentou a sua própria proposta, criticando o fato de que a da COB não garante a universalidade do serviço. As duas versões estão sendo debatidas na Câmara dos Deputados.
No dia 5, o enfrentamento entre a polícia e mineradores afiliados à central, que realizavam um bloqueio a uma estrada que liga La Paz a Cochabamba, causou a morte de duas pessoas – até o fechamento desta edição, havia se confirmado que uma delas fora vítima de arma de fogo. O governo se defendeu afi rmando que a polícia não usou armamento letal.
Em coletiva de imprensa, Evo pediu que a COB não entre no jogo da direita e afirmou estar convencido de que as medidas de pressão visam frear o referendo revogatório.
Greve de fome
Outro problema enfrentado pelo presidente é o início, no dia 3, de uma greve de fome por parte de autoridades e cívicos da chamada meia-lua (formada por Santa Cruz, Tarija, Beni e Pando), com o objetivo de fazer com que o governo devolva 450 milhões de bolivianos (cerca de R$ 110 milhões) referentes ao montante cortado do Imposto Direto sobre os Hidrocarbonetos (IDH) que seria destinado aos departamentos.
O governo vem utilizando essa verba para pagar uma bolsa para os idosos do país (chamada de Renda Dignidade) e afirma, reiteradamente, que o aumento do preço do gás e do petróleo – e o conseqüente incremento na arrecadação – fazem com que as regiões recebam, hoje, muito mais do que perderam.
Para piorar a situação, no dia 5, Evo e os presidentes da Venezuela, Hugo Chávez, e da Argentina, Cristina Kirchner, suspenderam o encontro que aconteceria na cidade de Tarija (onde assinariam acordos energéticos), devido às mobilizações dos cívicos locais, que cercaram o aeroporto para evitar a chegada dos mandatários.
Mesmo assim, em pesquisa divulgada no dia 4 pelo jornal El Deber, de Santa Cruz, Evo apareceu com 54% de apoio no referendo revogatório, mesma proporção que o elegeu em 2005. Entre os governadores, a pesquisa indica que correm risco de sair as autoridades oposicionistas de Cochabamba, Pando e La Paz e a governista de Oruro.















