Desnacionalização da economia explica saída recorde de capital, afirma economista
Para Reinaldo Gonçalves, controle do fluxo de capital solucionaria o problema
Renato Godoy de Toledo
da Redação
A liberalização da economia e a falta de competitividade dos produtos manufaturados brasileiros no mercado mundial são determinantes para um aumento das importações no país. Essa é a análise do economista da UFRJ Reinaldo Gonçalves. Para ele, esses fatores são fundamentais para compreender o deficit da conta corrente do balanço de pagamentos, sem deixar de considerar a liberalização da economia e a desnacionalização do setor produtivo. Veja entrevista abaixo.
Brasil de Fato – O BC apresentou o maior deficit da conta corrente do balanço de pagamentos desde o início da série histórica, em 1947. Quais são as características da economia brasileira determinantes para esse resultado?
Reinaldo Gonçalves - A ineficiência sistêmica da economia brasileira é o principal fator desse deficit. No passado recente, a elasticidade-renda da demanda por importações tem estado muito elevada. Ou seja, com a baixa competitividade internacional dos produtos manufaturados brasileiros, os “buracos” na oferta doméstica implicam em elevado crescimento das importações, mesmo para pequenos aumentos de renda. O grau de liberalização comercial também estimula as importações. Na área de serviços, a situação é ainda pior, pois o país tem deficit nesta conta.
De que forma a política cambial e a valorização do real influenciaram o aumento do deficit?
Não resta dúvida de que a taxa de câmbio é um dos principais determinantes da forte deterioração das contas externas do país. O governo está usando o dólar barato para conter a pressão inflacionária. Entretanto, o próprio dólar barato provoca o crescimento extraordinário dos fluxos de saída de divisas do país. A situação só não é mais grave porque os juros altos ajudam a conter a fuga de capitais. Mesmo assim, o investimento brasileiro no exterior tem crescido.
Os dados do Banco Central revelaram que as remessas de lucros e dividendos das transnacionais para as matrizes, tal como o deficit da conta corrente, nunca foram tão altas. Seria possível criar obstáculos para a saída desse dinheiro do país?
Há uma saída extraordinária de divisas por conta dos pagamentos de serviços de fatores, principalmente, remessas de lucros e dividendos. O elevado grau de desnacionalização brasileiro explica esse fenômeno. O controle de entrada e saída de capitais é um instrumento aplicável em situações como a brasileira. Ocorre que a política do governo Lula é de maior liberalização financeira e cambial.















