Universidade pública, interesses privados
Instituição recebe cada vez mais financiamentos privados para projetos
Dafne Melo
da Redação
Obter dinheiro de grupos privados para viabilizar projetos de pesquisa e similares já é algo cotidiano dentro da Universidade de São Paulo. Nos últimos anos, intensificam-se as parcerias tanto com empresas nacionais como estrangeiras. Christy Ganzert Pato, doutorando da USP e representante discente no Conselho de Pesquisa, explica que, nas reuniões desse colegiado, há sempre um convênio ou projeto de complementação de verba dessa natureza para se aprovar.
“Há muito tempo, abundam convênios com a iniciativa privada ou com estatais”, afirma. A maioria deles se inserem dentro de uma perspectiva mais ampla de uma política industrial. Um desses convênios é com a Vale do Rio Doce, assinado em junho de 2006. Hoje, cerca de 11 alunos de pós-graduação e 10 de graduação realizam pesquisas por esse convênio. Dentre elas, um plano de desenvolvimento portuário para a Vale.
Para Ermínia Maricato, representante docente da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo no Conselho de Pesquisa, a USP necessita ter uma política de pesquisa mais clara, com regras melhor estabelecidas. “E não podemos ignorar jamais que essa universidade é pública, mantida com verba pública e sua produção deve estar voltada aos interesses da sociedade”, lembra. Maricato ainda reforça a necessidade da universidade recuperar seu sentido mais crítico. “Ainda há alguns exemplos, mas, no geral, a USP perdeu isso”, completa.
Pato também questiona se as pesquisas hoje feitas pela universidade vão ao encontro, de fato, com as necessidades do país. “Será que queremos realmente produzir mais carros, mais celulares, extrair mais minérios, mais petróleo?”, pergunta.
Capital privado
Maricato afirma que o capital privado não é um mal por si só. “Não sou contra a empresa privada doar recursos, mas o compromisso público da universidade não pode ser ignorado”, salienta. Como exemplo, a professora cita a recente doação de cerca de 18 mil livros por parte do bibliófilo José Mindlin, em 2006, que deu origem à Biblioteca Brasiliana, dentro da USP, projeto ainda em andamento e que tem apoio da iniciativa privada. Já em relação a Vale, Maricato tem uma avaliação diferente. “A produção desse conhecimento certamente beneficia à Vale, pode beneficiar a USP, mas me pergunto: essa riqueza gerada a partir dessas pesquisas serão socializadas?”, questiona.
Otaviano Helene, diretor da Associação dos Docentes da USP também não rejeita a priori convênios com “o setor produtivo”, mas reforça que “a universidade é de propriedade da sociedade e o conhecimento que ela produz tem que chegar a ela”. Ao seu ver, as fundações privadas hoje presentes na USP (cerca de 30) são um entrave, pois acabam colocando interesses privados na pauta da instituição. “Naturalmente que a atuação delas acaba direcionando, em muitos casos, que a atividade de docentes, funcionários e pesquisadores realizem projetos de seu interesse”, critica.















