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Recorde das remessas de lucros das transnacionais afeta contas externas

by peruano last modified 2008-08-21 23:27

ECONOMIA Internacionalização do setor produtivo e política cambial levam a deficit da conta corrente do balanço de pagamentos

ECONOMIA Internacionalização do setor produtivo e política cambial levam a deficit da conta corrente do balanço de pagamentos


Renato Godoy de Toledo
da Redação


AS REMESSAS de lucros e dividendos das empresas transnacionais para suas matrizes nunca foram tão altas no Brasil e são as principais responsáveis pelo desequilíbrio nas contas externas do país. Tal constatação não partiu de nenhum crítico do modelo econômico brasileiro, mas sim do próprio chefe do Departamento Econômico do Banco Central (BC), Altamir Lopes.
Entre janeiro e junho de 2008, as transnacionais com atividade em território brasileiro enviaram 18,993 bilhões de dólares às suas matrizes. Essa transferência recorde impulsionou outra marca inédita. A conta corrente do balanço de pagamentos apresentou um deficit de 17,7 bilhões de dólares no primeiro semestre, pior resultado desde o início da série histórica do BC, em 1947.
A conta corrente é composta por três itens: a balança comercial, aferida pela relação entre exportações e importações; as transações unilaterais, compostas por pagamentos ou recebimentos realizados por agentes privados ou públicos; e a conta de serviços, calculada pelo gasto com transportes, viagens internacionais e outros itens. Historicamente, esse último item tem apresentado deficit, devido à maneira como o Brasil se insere no mercado internacional e também pela internacionalização de serviços como a telefonia, antes nacionais ou estatais. Já a balança comercial tem apresentado superavit, ainda que essa margem esteja reduzindo.
Para exemplificar numericamente como se obtém o resultado da conta corrente, no mês de junho, a balança comercial registrou um saldo positivo de 2,718 bilhões de dólares, a conta de serviços apresentou deficit de 5,632 bilhões de dólares e, por meio das transferências unilaterais, ingressaram 320 milhões de dólares no país. Essas transações representaram um saldo negativo de 2,596 bilhões de dólares. O número se torna mais alarmante ao ser comparado com o resultado do mesmo período do ano passado, quando foi registrado um superavit de 539 milhões de dólares.

Estrutura e conjuntura
Na visão de economistas consultados pelo Brasil de Fato, o recorde negativo da economia brasileira tem fatores estruturais e conjunturais. Os primeiros estariam relacionados à inserção do país na economia mundial como exportador de matéria-prima e importador de serviços, que garante uma balança comercial favorável, mas nem sempre capaz de suprir o deficit ocasionado pelas importações. O aspecto conjuntural refere-se à atual política cambial de valorização da moeda nacional, que favorece o investimento de curto prazo no país, mais conhecido como especulação financeira.
À estrutura da economia nacional consolidada historicamente, soma-se um fator que a tornou ainda mais suscetível à saída de capitais do país: a venda de estatais para agentes privados internacionais no início dos anos de 1990. “Com as privatizações, boa parte do capital produtivo foi internacionalizada. Essas empresas na área de serviços, como os setores de telecomunicações e transportes, tinham que gerar lucro em moeda nacional e, depois desse processo, passaram a fazêlo em dólar, pois os proprietários do capital estão fora do país”, explica Leda Paulani, professora de economia da Universidade de São Paulo.
Questionada se o envio de dólares ao exterior deve recrudescer no próximo período, a economista afirma que o momento é propício para as transnacionais se aproveitarem da política cambial brasileira. “A tendência é que a remessa de lucros seja alta. Agora, combinado com isso, há um elemento conjuntural que é a continuidade da política de valorização da moeda nacional. Com isso, enviar lucros está mais barato, já que com muito menos Reais se mandam ‘caminhões’ de dólares para o exterior”, analisa.
Outro aspecto a alavancar a saída de capitais do país são os chamados investimentos de portifólio, segundo Paulani. Esse tipo de capital inclui os títulos da dívida pública brasileira, indexados pela taxa básica de juros, a Selic, atualmente fixada em 13% ao ano, patamar mais alto do mundo.
Somente no primeiro semestre, o país pagou R$ 88,026 bilhões em juros aos credores, maior número registrado desde o início da série histórica do BC, em 1991.
Ao mesmo tempo em que os juros altos rendem lucros para os credores externos da dívida, a Selic alta assegura que não haja uma fuga ainda maior de dólares do país, já que o rendimento de 13% ao ano é atraente para o especulador. “A situação (da saída de dólares) só não é mais grave porque os juros altos ajudam a conter a fuga de capitais”, afirma Reinaldo Gonçalves, economista da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Opção pelo agronegócio
A saída e entrada de capitais no Brasil é mediada pelo BC. As transnacionais, para enviar os seus lucros às matrizes, trocam os reais obtidos aqui por dólares do BC. A moeda estadunidense concedida pela instituição é fruto da operação inversa: quando os exportadores brasileiros recebem em dólar, repassam este para o BC, que lhe devolve em reais. Para não desequilibrar suas contas e fi car sem dólares, o Brasil fez uma opção para equacionar essa balança, conforme explica Guilherme Delgado, economista aposentado do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).
“No final dos anos de 1990, o Brasil entrou numa posição negativa de falta de recursos para financiar o seu deficit. A partir daí, o governo recorreu aos empréstimos do FMI para sair da crise – e entrar em outra. Posteriormente, passou a apostar todas as suas fichas nas exportações primárias, fortalecendo o agronegócio”, aponta.
Delgado afirma que o deficit da conta corrente pode servir como um freio à economia brasileira. “Quando se promove o crescimento, cresce o volume de exportações, e o pagamento de serviços é muito elevado. O deficit na conta de serviços e na balança comercial gera um passivo externo que não dá para financiar. Isso coloca o crescimento em xeque. Se as exportações não crescerem, tem que se compensar o rombo com mais entrada de capital estrangeiro, ou consumir reserva. Ou as duas coisas, mas as reservas são limitadas. Se a conta corrente não for equacionada de forma dura, pode haver problemas”, prevê.

Quanto
18,993 bilhões
de dólares é o montante que as transnacionais com atividade no Brasil enviaram às suas matrizes


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