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“Não é possível que todos os casos sejam congênitos”, afirma médica

by peruano last modified 2009-11-18 08:30

DENÚNCIA Denise Rosindo Bourguignon, médica do trabalho, contesta versão da Aracruz de que as lesões dos trabalhadores são congênitas

Andréa Margon
de Vitória (ES)


ALGO NO AMBIENTE de trabalho propicia a ocorrência das lesões encontradas nos funcionários da Fibria no Espírito Santo. A avaliação é da médica do trabalho Denise Rosindo Bourguignon. Segundo ela, não é possível que todos os lesionados da Fibria sejam casos congênitos. “Não é possível que as pessoas sejam escolhidas a dedo para o surgimento de um quadro determinado”.
Ela, que já foi procurada por diversos trabalhadores lesionados da empresa, afirma ter observado que há coincidência em transtornos de ombro em operadores florestais (aqueles que trabalham na colheita do eucalipto). “Todos os indivíduos que me procuraram apresentavam lesão de ombro e eram de faixa etária precoce”, relata. Ela conta que detectou a síndrome de impacto do ombro com ruptura e observou que a frequência foi aumentando, principalmente, em indivíduos com mais de dez anos naquela atividade.
Bourguignon orientou o sindicato representativo e alguns trabalhadores a se reunirem e entrarem com ação no Ministério Público para investigar o setor do trabalho.
A médica citou a classificação do grupo III de Schilling, que diz que alguns agravos vão ser desenvolvidos ou desencadeados pelo trabalho, independente de o sujeito ter uma determinada predisposição.
“Se a pessoa é alérgica e for trabalhar com produtos químicos, trata-se, sim, de doença relacionada ao trabalho. O ambiente aflora a doença”.
Ela reiterou a tese de que é impossível que tenha sido feita uma seleção prévia de pessoas e só serem chamadas as predispostas à doença. “Para entender, é só fazer o cruzamento dos seguintes itens: primeiro, descrição das atividades; segundo, existência de inúmeros casos decorrentes do setor; e terceiro, tipo de lesão”. Bourguignon fala que uma coisa é operar em terreno plano, outra, em terreno acidentado, que necessita de manobras, como é o caso do trabalho na colheita do eucalipto.
“Este é um indicativo sério de que aquele tipo de operação está causando problemas”.

Risco ergonômico
Uma visita técnica aconteceu, mas não houve uma avaliação do posto de trabalho, e sim da máquina. Além disso, as atividades executadas não foram alvo de análise.
Segundo ela, a avaliação de posto de trabalho não é de equipamento, e o problema está no local de sua utilização.
“Existe relatório médico que fala em risco ergonômico na função”. Inicialmente, a Previdência Social aceitava os pedidos de afastamento e aposentadorias em função da doença do trabalho. Entretanto, depois que a empresa solicitou mudança no reconhecimento, a Previdência acatou a solicitação e mudou o atendimento aos lesionados.
Quando o trabalhador chega ao ponto de não conseguir mais trabalhar na função de operador florestal, é inserido em outra função na empresa.
“Depois da colheita vão para vigia de campo (operador de apoio de operação de colheita). Quando acaba a estabilidade são demitidos. É muito fácil mandar embora no Brasil.
O país não ratifica uma legislação de proteção do indivíduo. Resultado: tem indivíduo sequelado fora da faixa de mercado”.
Bourguignon ainda questiona: “qual a estrutura do sujeito para enfrentar uma demissão? Qual o impacto pela perda da capacidade profissional? Não dá para lesionar um sujeito e conceder uma estabilidade hipócrita, que é mal interpretada quando a limita em apenas um ano. A empresa tem responsabilidade social.
Se lesionou, tem que ser indenizado”.