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Aracruz explora e demite trabalhadores lesionados

by peruano last modified 2009-11-18 08:47

DENÚNCIA Fabricante de celulose provoca doenças laborais ao impor jornadas excessivas aos seus funcionários

Andréa Margon
de Vitória (ES)


“INVESTIMOS NO cultivo de florestas como fonte renovável e sustentável de vida, para produzir riqueza e crescimento econômico, promover desenvolvimento humano e social e garantir conservação ambiental”. Estas são palavras encontradas no site da Fibria, resultado da união da Aracruz Celulose (do Espírito Santo) e da Votorantim Celulose e Papel, fortes empresas no mercado global de produtos florestais.
Mas, se por um lado ela produz “riqueza e crescimento econômico”, por outro não promove “desenvolvimento humano e social”. Quem denuncia isso são funcionários lesionados que atuavam ou atuam na colheita do eucalipto. Os trabalhadores contam com o apoio da Fundação Jorge Duprat Figueiredo de Segurança e Medicina do Trabalho (Fundacentro), da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) e do Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos (PPDDH).
São horas excessivas de trabalho em terreno acidentado que levam os cerca de 400 trabalhadores do Espírito Santo e da Bahia a desenvolverem, precocemente, problemas físicos relacionados às atividades, ou seja, doenças do trabalho. Os mais antigos cultivam uma relação de amor e ódio pela empresa, que ainda chamam de Aracruz. “O amor que tinha na empresa, trabalhei 24 anos, doei até a última gota do meu sangue.
Infelizmente na empresa somos uma matrícula, um número. Não querem saber que trabalhador é humano e tem família”, lamenta Anjo Gabriel Martins, operador de máquina de processamento florestal, afastado há quatro anos.
Em encontro no município de Aracruz (norte capixaba), alguns trabalhadores lesionados conversaram com a reportagem e revelaram suas angústias, mágoas e dores (literalmente), já que as lesões são irreversíveis, conforme laudos médicos. Eles informam que um fiscal da perícia médica da Previdência Social foi ao campo de trabalho com um funcionário da Aracruz para checar a máquina, que é de origem sueca. Entretanto, o equipamento estava parado, impedindo uma avaliação completa sobre a sua responsabilidade com relação às enfermidades.
Segundo os lesionados, esse fiscal ainda falou que trabalhar na máquina é melhor que no escritório. Eles dizem que o equipamento é bom para se trabalhar, mas deveria ser utilizado de forma correta.
Outro problema enfrentado pelos trabalhadores é com relação aos médicos peritos da Previdência Social. Segundo eles, os atendimentos, realizados em São Mateus (norte do Espírito Santo), são feitos por profissionais de diversas áreas, como cardiologia e clínica geral. Nunca em ortopedia, que é o caso em questão. Além disso, esses peritos não concordam com os laudos dos ortopedistas que atendem os trabalhadores.
Em 2007, os trabalhadores entraram com processos na Justiça e também ingressaram com denúncia junto ao Ministério Público do Trabalho. A Delegacia Regional do Trabalho (DRT) fez um laudo de 142 folhas dizendo que as lesões são decorrentes da função. E o Ministério Público do Trabalho de São Mateus concorda. “Não temos apoio dos órgãos públicos. É como se nós estivéssemos errados e a empresa certa”, reclama um trabalhador.
E mais: os exames periódicos não contemplam a ortopedia (só raio-X e exames sanguíneos), “porque sabem que o problema vai aparecer”.
Os trabalhadores não questionam a ergonomia da máquina, mas sim o tempo de trabalho. Não há intervalos. Anjo Gabriel fala que “o ritmo da Aracruz é acelerado. A empresa pede três viagens de florestal por hora. Se você trabalha oito horas, dá uma média de 22 viagens. Em cada operação o trabalhador faz cerca de 30 movimentos com os braços [joystick], se não houver erro.
Por ano são cerca de 7 milhões de movimentos”. Enquanto a Fibria se vangloria do alto desempenho na colheita, o manual da máquina fala que, para cada hora trabalhada, deve haver um período de descanso de 20 minutos. Além disso, ele indica que não se trabalhe diariamente.
O Sindicato dos Trabalhadores em Atividades de Extração e Exploração de Madeira e Lenha (Sintral) também foi denunciado pelos trabalhadores. Segundo eles, a entidade não se manifesta a favor dos representados por manter estreitas relações com a Aracruz (Fibria).
Procurados pela reportagem, Sintral e Fibria não se manifestaram até o fechamento desta edição.

Equipamentos da colheita
Corte e descascamento:
escavadeiras harvester (For Word – Valmet) adaptadas às condições florestais e equipadas com cabeçotes processadores. Adquiridas pela Aracruz Celulose em 1997.

Transporte: tratores forwarder com capacidade de carga de 14 a 18 toneladas por viagem.

Perfis
Nome:
Sebastião Peverotti
Idade: 43 anos
Lesões: ombro direito (já fez cirurgia), ombro esquerdo (não fez cirurgia porque não acredita no resultado, já que no direito não deu certo), joelho (já fez a cirurgia), hérnia de serviçal e hérnia de disco.
Resultado: depois de sete meses da última cirurgia (joelho), a Fibria demitiu o trabalhador, ignorando a lei que prevê um ano de estabilidade após esse tipo de intervenção. Já ingressou com ação na Justiça e aguarda resultado. “Vamos ver se a Justiça dá o direito do trabalhador. Tento trabalhar e não consigo. Tento sobreviver do dinheiro que recebi. Mas um dia vai acabar”. Foram 22 anos trabalhando para a Aracruz (hoje Fibria). Tenta retornar ao mercado de trabalho, mas não consegue passar nos exames médicos. “Nenhuma empresa quer pegar um trabalhador doente como eu”. Segundo ele, a empresa exige produção e “não pensa que o ser humano não é uma máquina. A empresa não olhou para o que eu fiz por ela nesses 22 anos, a única empresa em que trabalhei na vida”.

Nome: Geraldo Sarmegui Júnior
Idade: 37 anos
Lesões: ombro, coluna cervical, lombar e coração.
Resultado: está há um ano e quatro meses afastado e aguarda decisão da Justiça para a aposentadoria. Depois de 19 anos na empresa, tendo como última função operador de máquina, hoje, “estou vivendo do jeito que posso”.

Nome: Paulo Henrique Nunes Rezende
Idade: 37 anos
Lesões: lesão cervical, lombar e ombros, lesão renal no 4º estágio e, por consequência, hipertensão.
Resultado: a empresa diz que é doença degenerativa. “O médico da Fibria chegou a dizer que somos vagabundos, que não queremos trabalhar”. Chorando, Paulo Henrique lamentou não conseguir pegar a filha nos braços porque não tem mais forças. “Tudo isso poderia ser evitado. Me revolta ver os colegas lesionados. Os novatos, também, vão ficar como eu”. Segundo ele, trabalhadores com quatro anos na empresa já apresentam lesões graves. Há 22 anos na empresa, hoje atua como vigia após um período de licença e teme que, com o término da estabilidade pós-cirurgia, seja mais um demitido.

Nome: Anjo Gabriel Martins Idade: 48 anos
Lesões: coluna cervical – todos os elos (cartilagens) estão desgastados, lombar, perdeu a força nas mãos (dedos adormecidos), fez cirurgia e tem síndrome de impacto no corpo.
Resultado: há quatro anos afastado. Fez duas cirurgias no ombro direito e o esquerdo está inflamado. De acordo com ele, o médico que o atendeu falou que não vale mais a pena operar, “virou crônico”. “Depois de 24 anos na empresa, a dedicação não valeu nada. Ela nos pagou, mas demos nosso suor. Cheguei ao ponto de pensar em cometer suicídio. Pensei em maltratar meu próprio corpo para alguém ver o que estava acontecendo”. Em um dos inúmeros delírios operando a máquina colheitadeira, Gabriel disse que sonhava com a família morta em casa e que o delírio somente parava quando terminava o enterro dos familiares (mulher e duas filhas). Ele fala que a empresa tenta descaracterizar a doença. “Para eles tudo é degenerativo. Só queremos que se utilize a ética médica. A Aracruz pressiona os médicos para fazer o que ela quer”.