Rio Grande do Sul

ESPECIAL

A semente do MST: 40 anos da ocupação Macali e Brilhante

Ações marcam o recomeço da luta pela terra no Brasil, ainda em tempos de ditadura militar

Brasil de Fato | Porto Alegre (RS) |
Camponeses sem-terra foram homenageados em monumento na Encruzilhada Natalino
Camponeses sem-terra foram homenageados em monumento na Encruzilhada Natalino - Foto: Catiana de Medeiros

A história das ocupações que marcou a Reforma Agrária no Rio Grande do Sul inicia quase vinte anos antes da ocupação Macali e Brilhante. Na Fazenda Sarandi, em 1962, na região Norte do estado, houve a primeira ocupação por integrantes do Movimento dos Agricultores Sem Terra (Master). As ações realizadas por esse movimento tinham como objetivo organizar acampamentos ao lado de áreas que queriam ver desapropriadas. Geralmente eram terras públicas ou ainda terras particulares, as quais não possuíam comprovação de posse ou eram improdutivas.

Na época, o Master foi apoiado pelo então governador do estado, Leonel Brizola (PTB). No mesmo ano, Brizola implementou o Programa de Projetos Especiais de Reforma Agrária e Desenvolvimento Econômico-Social e criou o Instituto Gaúcho de Reforma Agrária (Igra). Ambos tinham o intuito de organizar cooperativas, comunidades de pequenos e médios agricultores e promover a democratização da propriedade da terra. No entanto, com a derrota do governador Brizola e o inicio da ditadura militar no Brasil, muitos foram expulsos daquele local. 

Brizola visita o acampamento na Fazenda Sarandi | Foto: Acervo Paulo Schmidt 

Além disso, muitas famílias Sem Terra, ainda na década de 60, ocuparam reservas indígenas em Nonoai, também na região Norte, estimuladas pela Fundação Nacional do Índio (Funai). Depois de quase duas décadas, essas famílias já se somavam em aproximadamente 1200. Em maio de 1978, com o apoio do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), os índios caingangues expulsaram esse grupo de pessoas de suas terras.

Diante do ocorrido, o governo gaúcho iniciou, junto com o governo federal, um processo de transferência desses Sem Terra. Algumas famílias aceitaram fazer parte do processo de colonização no Mato Grosso. No entanto, cerca de 500 delas optaram por não sair do estado.

Parte dessas famílias passaram a acampar nas proximidades da reserva indígena, no município de Nonoai, em Planalto e em Três Palmeiras. Outras, porém, foram deslocadas para o Parque de Exposições de Esteio, na região Metropolitana de Porto Alegre, as quais após alguns messes foram assentadas em Bagé, na região da Campanha gaúcha.

O problema ainda não estava resolvido. De acordo com o economista e então servidor público pela Secretaria de Agricultura do RS, Nilton Pinho de Bem, a Central de Comandos Mecanizados de Apoio à Agricultura (Cemapa) ficou como responsável de prover soluções para essas famílias Sem Terra.

O coletivo é Moisés 

Uma passagem da Bíblia reiniciou a luta pela terra. Padre Arnildo Afonso Fritzen, de 76 anos, fez o que qualquer sacerdote da igreja católica faria: socorreu três famílias da chuva que estavam passando fome. Naquela noite, no início do ano de 1979, o padre leu um passagem da Bíblia que marcou e ainda marca a sua vida.

“O livro do Êxodo, no Capítulo 3, fala que na situação da escravidão do povo de Israel, lá no Egito, Deus diz: eu vi a afiliação do meu povo, eu desci até eles, vi os seus sofrimentos, vi quem os oprimia e decidi libertá-los da escravidão. E aí manda Moisés negociar com o faraó para libertar esse povo da escravidão”, declama padre Arnildo.

Na manhã seguinte, ele lê esse texto para as famílias. “Esse povo somos nós. Esses escravos aí somos nós, e Deus viu a nossa situação e decidiu tirar nós dessa escravidão”, lembra com alegria a reação desses Sem Terra, e percebe que a Bíblia está no sangue, na vida do povo.

Padre Arnildo fala sobre a sua participação nas ocupações Macali e Brilhante | Foto: Catiana de Medeiros 

A partir disso, se questionam: “Quem é Moisés hoje? Moisés somos nós, o coletivo”, salientou o padre Arnildo. Depois essas famílias passaram a organizar o povo que tinha sido expulso das terras indígenas e que estavam nos municípios da volta.

Com o tempo organizaram assembleias, já com o auxilio de estudantes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), e decidiram ir a Porto Alegre conversar com o governador Augusto Amaral de Souza (Arena). “Conseguiram agendar uma audiência. A turma reivindicou: nós queremos a terra lá na Macali e Brilhante, porque nós sabemos que é uma área do estado e que foi cedida para particulares, o que não é justo”, conta o padre.

Carta para o Governador | Disponibilizado por Ivaldo Geehlen 

“Fui eu que fui o chefão lá para falar com o governador Amaral de Souza. Na época a gente era meio receoso, porque era a ditadura”, afirma o assentado da Brilhante, Lucival Brachak. “O governo dizia que ia assentar a gente, e eu perguntava: quando?”, lembra.

Vendo que as promessas de solucionar o problema em 30 dias eram rasas, os camponeses e seus apoiadores passaram a enviar telegramas diariamente para o governador, cobrando-o. “Ele não resolveu nada, então numa nova reunião decidimos que iríamos ocupar”, pontua padre Arnildo.

Problema social a ser resolvido 

Depois de algumas ocupações mal sucedidas, com o auxilio da Comissão Pastoral da Terra (CPT), de sindicatos, estudantes, servidores públicos da Secretaria de Agricultura, entre outras entidades, os camponeses passam a se organizar para a ocupação da Macali.

Ivaldo Gehlen, atualmente professor do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Rural da UFRGS, em Porto Alegre, ressalta a importância da organização para a conquista da terra. Ele destaca que obviamente não haveria luta sem os pequenos agricultores, no entanto, deve ser lembrada a articulação feita pelas instituições e entidades que não visavam nenhum interesse, a não ser auxiliar os Sem Terra na busca pela terra e pela Reforma Agrária.

De acordo com Gehlen, essa equipe multidisciplinar, a qual ele estava incluso, foi fundamental para a luta. “Esse grupo se ocupou e começou a usar a sua experiência, seu conhecimento, e levou aos agricultores para ajudá-los a enxergarem as coisas como eram e para onde eventualmente poderiam caminhar”, enfatiza o sociólogo.

Após algumas reuniões com as lideranças camponesas Sem Terra, foi decidido ocupar a Fazenda Macali. A granja, que na época era considerada moderna e bem equipada, segundo Gehlen, produzia sementes de milho e trigo. No entanto, os proprietários possuíam um contrato irregular com o Estado, pois como eram terras públicas, essas não poderiam ser arrendadas. “Eles sabiam que estavam irregulares. Então não foi difícil tirar a Macali de lá de dentro. Foi só ocupar a terra e eles foram embora”, relembra.

Edição: Da Página do MST