Agricultura

Horta comunitária em Caxias, no Rio, levanta discussão sobre alimentação saudável

Moradores de comunidade na Baixada Fluminense cultivam alimentos sem venenos

Rio de Janeiro

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Moradoras se reúnem para manter horta viva em Duque de Caxias / Divulgação

Hortaliças Esperança. Esse foi o nome dado à horta da comunidade Getúlio Cabral, no bairro de Parada Angélica, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Criada em abril de 2015 para estimular a agricultura urbana e a produção de alimentos, a horta é fruto de uma parceria entre a associação de moradores da comunidade, o Internato de Nutrição em Saúde Coletiva da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e estudantes de agronomia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). 

A horta envolve oito famílias e uma enorme quantidade de crianças. A ideia é produzir alimentos saudáveis e sem veneno. Portanto, nessa horta só entram sementes e mudas agroecológicas, ou seja, livre de agrotóxicos. Lá já foram colhidos alface, couve, quiabo, milho, brócolis, pimenta, cebolinha, e outros itens. 

Moradores aproveitam para vender o que produzem, mas boa parte é distribuída para as próprias famílias. Cada um dá o tempo que pode e contribui com o que tem de melhor, dependendo das suas habilidades e da força física. 

Comida de verdade

A plantação surgiu depois que estudantes de Nutrição da Uerj foram a Caxias e visitaram uma dona de casa acima do peso e com problemas de saúde. Quando se soube que, quinze anos atrás, a comunidade já havia passado por uma experiência com horta, o grupo da Uerj propôs revitalizar a área para estimular uma alimentação mais saudável.

Segundo a professora de Nutrição e responsável pelo projeto, Juliana Casemiro, a horta resgata o vínculo entre os moradores locais e a terra. A professora explica que a história da comunidade em Caxias é parecida com a de várias outras na Baixada. A região era uma área rural em 1960, mas décadas depois a agricultura perdeu espaço porque a população ocupou esses lugares para morar.

“A produção agrícola perdeu para a expansão de área de moradia, mas em muitos quintais a agricultura sobrevive. Isso nos interessa valorizar. Isso é o que a gente chama de ‘comida de verdade’”, opina Juliana.

Um direito nosso

De acordo com o presidente da associação de moradores do local e também responsável pelo projeto, Luiz Cabral, a horta trouxe muitos benefícios à comunidade. “Hoje toda plantação tradicional tem muitos componentes químicos e transmite doenças. Ter uma horta como essa é ter uma alimentação saudável”, explica.

Além disso, ele aponta que a participação popular também é muito importante pelo resgate do contato com a terra. “Tem que vigiar a planta, regar, cuidar do solo. Para isso, é necessário um bom número de pessoas. Aqui, na nossa comunidade, temos uma boa participação. Muitos estão interessados em ter uma horta também em seu quintal”, conta.

Para a estudante de agronomia da UFRRJ e apoiadora do projeto, Larissa Cabral, o trabalho é importante para dialogar com os moradores. “A gente precisa muito convencer as pessoas de que ter acesso a uma alimentação sem veneno é um direito nosso. A gente não pode se deixar levar por esse discurso capitalista do agronegócio de que precisamos comer com veneno para garantir mais produção”, questiona Larissa. 

A professora Juliana Casemiro também vê na horta a oportunidade de debater diversos temas importantes. “A horta permite discutir direitos básicos como saúde, saneamento, coleta de lixo, acesso à água potável e alimentação de qualidade. É um contexto de violações, mas investir numa horta comunitária é investir na esperança de dias melhores e plantar possibilidades de uma vida mais feliz e com mais qualidade”, comenta a nutricionista.