Opinião

Artigo: Unila - Resistir ao obscurantismo e avançar na integração

A agressão de uma pessoa pacífica e inofensiva foi um ato de pura covardia; A altivez dos haitianos incomoda os racistas

Foz do Iguaçu

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Estudante haitiano da Unila sofreu agressão racista / Divulgação

A agressão racista praticada contra um estudante haitiano da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila) no sábado passado (14) teve imediata repercussão nas redes sociais, no Brasil e no exterior. Repetiu-se agora – com o agravante da violência física – o mesmo espetáculo de intolerância contra o cubano negro do Programa Mais Médico, vaiado por jovens brancas de jaleco, cuja imagem percorreu o mundo e envergonhou o país.  Para compreender as causas desse ódio contra um estudante da Unila é preciso contextualizar a universidade nestes tempos de crispação golpista e regressão autoritária. Conseguirá a universidade pública sobreviver ao tosco obscurantismo que se abateu sobre o país?

A Unila é um projeto à frente do seu tempo. Seu pioneirismo, por si só, não é motivo de orgulho, e apenas prova o quanto o Brasil se atrasou em matéria de internacionalização e integração do ensino superior. Países mais pobres do que o nosso, aqui mesmo na América do Sul, contam com um grau de internacionalização maior que o nosso. Este é um grave problema, como apontam estudiosos do ensino superior. No atual estágio de globalização, a não integração condenaria as futuras gerações ao isolamento e ao atraso. Além do sentido de pertencimento cultural, das trocas simbólicas e do compartilhamento de conhecimentos, a mobilidade acadêmica estimula a prática de projetos científicos comuns entre pesquisadores de instituições do ensino de diferentes países. Na sua ausência, a tendência natural é o isolamento.

A Unila foi pensada, desde a sua criação, como uma universidade com vocação internacional, inspirada nas melhores práticas de integração acadêmica. Representa um projeto inovador, que faz jus ao legado dos maiores educadores brasileiros, de Anísio Teixeira e Darci Ribeiro a Paulo Freire. A Comissão Acadêmica formada para a implantação da Unila contou com a colaboração de estudiosos de vários países, não só da América Latina, como também da Europa e dos EUA. Ela nasce, portanto, como um experimento acadêmico que transcende as fronteiras nacionais.

A integração latino-americana e o bilinguismo são os traços que diferenciam a Unila das demais universidades federais brasileiras. Sua criação foi aprovada por unanimidade na Comissão Parlamentar que examinou a proposta do então presidente Lula. Desde 2010, a Unila funciona na cidade de Foz do Iguaçu, na fronteira com a Argentina e o Paraguai. O simbolismo da fronteira confunde-se com a própria universidade, cuja missão principal é a de estender pontes entre os países da região. Atualmente, conta com mais de três mil estudantes e trezentos professores oriundos de diferentes países.

Os desafios políticos, econômicos, sociais e culturais para a concretização desse projeto não são menores. A integração não é automática. Nações, classes e indivíduos não se integram automaticamente, ao contrário, se repelem na ausência de diretrizes políticas que os aproximem. Para que sejam colaborativos e não competitivos, os governos, as empresas, os partidos políticos e os movimentos sociais precisam atuar. E a experiência recente tem revelado que eles o fazem cada vez mais, mas normalmente em direções diferentes, às vezes opostas. Por isso a integração é complexa e contraditória. Requer perseverança. Estabelece um começo, mas não define um ponto de chegada. É processo histórico, nunca linear, implica avanços e recuos, disputa permanente. A universidade tem um papel crucial para ampliar e aprofundar a integração. Nem o comércio nem as empresas, com seus contenciosos permanentes, podem ser o carro chefe da integração. A educação, em todos os níveis e áreas do conhecimento, é um vetor incontornável e insubstituível da integração que ainda não foi suficientemente experimentado na América Latina.

É preciso reconhecer que apesar de todas as dificuldades, a integração latino-americana experimentou a positiva inflexão dos governos progressistas da região. A agenda neoliberal dos anos noventa foi substituída por novas prioridades políticas e produtivas. A criação da União das Nações Sul-Americanas (Unasul)  e da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) contribuiu enormemente para superar a lógica comercial da integração regional. O Mercado Comum do Sul (Mercosul), ampliado com a entrada da Venezuela e da Bolívia, adotou uma agenda produtiva e social ausente do Tratado de Assunção. Novos atores foram incorporados. Novos temas emergiram, como cultura, igualdade racial, direitos humanos, juventude, educação, agricultura familiar, Reforma Agrária, empregos, salários e renda, entre outros. Uma regressão da política externa brasileira na direção do alinhamento automático com os EUA seria um desastre não só para o Brasil como para toda a região.

Uma série de interrogações quanto ao futuro da América do Sul interpelam os estudiosos da integração. Qual é o significado e o alcance da anunciada convergência do Mercosul com a Aliança do Pacífico? Em que medida essa aproximação não representaria apenas uma acoplagem da América Latina à lógica dos Mega-Tratados comercias como o Tratado Transatlântico de Investimento e Cooperação (TTIP), o Tratado Trans-Pacífico (TPP) e o Tratado Internacional de Serviço (Tisa). O que fazer e com que recursos contar para resistir a esta convergência e ao mesmo tempo ampliar e aprofundar a integração dos povos? A agenda de política externa regressiva do chanceler interino é um motivo ainda maior de preocupação. Ela representa um retrocesso de pelo menos trinta anos para a região. Com consequências para todos os países e também para projetos inovadores como o da Unila.

Em outro nível, a incompreensão do papel da Unila - não só por parte de alguns setores da comunidade local como da própria universidade - também resulta em dificuldades. Toda universidade tem o dever de dialogar com a comunidade local. Tampouco são automáticos os mecanismos de integração de uma instituição complexa como a Universidade com a comunidade local. Não são simples essas relações, em particular em uma cidade com o perfil de Foz do Iguaçu, e uma Universidade com o perfil da Unila. O caso de agressão contra o haitiano revelou a extensão dessas complexidades. Não foi a primeira vez que estudantes da Unila, brasileiros ou estrangeiros, foram agredidos. São frequentes as abordagens policiais que não ocultam o racismo que as motivam. Os veículos da mídia sensacionalista, em vez de mostrar os benefícios de longo prazo da universidade para a cidade, estigmatizam os estudantes, especialmente os estrangeiros. Inúmeros deles se sentem vulneráveis e desprotegidos, principalmente em razão de sua nacionalidade, cor ou opção afetiva e amorosa.

A agressão sofrida por Getho Mondesir, aluno do primeiro ano do curso de Administração Pública, se insere neste contexto. É repugnante o que fizeram com ele. Causa indignação e vergonha. Não foi com isso que os haitianos sonharam quando vieram para a Unila, a Universidade da Integração! Tampouco foi isso que imaginávamos quando eles chegaram, em 2014, cheios de esperança, dispostos a recomeçar a vida. Essa não foi a primeira manifestação odiosa de racismo contra os haitianos. Certamente não será a última. É preciso estar consciente e preparado para o que nos aguarda o futuro próximo, nestes tempos de regressão e tosco obscurantismo. Getho simplesmente poderia estar morto neste momento. Compatriotas dele, que chegaram antes ao Brasil, foram assassinados, sem motivo aparente.

O ódio dos agressores de Getho é irracional e ilimitado. Chamá-los de fascistas seria incorreto, pois implicaria atribuir-lhes uma ideologia que eles são incapazes de entender. Como os animais predadores, eles agem por instinto, não raciocinam. A intolerância racial é uma doença do espírito. Frantz Fanon, com sua autoridade de médico-pesquisará, sabia o quanto essa doença contagiosa havia penetrado a alma do homem branco, rico e macho. Os agressores de Getho estão doentes. Sofrem dessa moléstia contagiosa. Eles agem por instinto selvagem. Imaginam que podem espancar qualquer um que encontram pela frente. Principalmente se forem negros, índios, gays, mulheres, velhos e pobres. Eles estão inseguros por conta das Jéssicas, as filhas das domésticas que passaram a tomar o lugar deles nas universidades. Uma classe média cada vez mais medíocre, consumista, individualista.

A agressão de uma pessoa pacífica e inofensiva foi um ato de pura covardia. A altivez dos haitianos incomoda aos racistas que não os toleram. Eles a invejam, pois ela contrasta enormemente com a estreiteza do caráter deles. Por isso eles têm ódio e medo dos haitianos. Eles odeiam a sua beleza étnica e racial. Temem sua cultura diversa. Nascidos e criados nesses incultos campos de soja, regados a juros subsidiados e a agrotóxico das multinacionais, eles têm o horizonte espiritual das Feiras do Agronegócio. Neste momento lamentável da vida nacional, lutar contra o golpe e combater o racismo são tarefas imperiosas em defesa da democracia e também da Unila. Por isso estudantes e professores protestaram nas ruas de Foz do Iguaçu na última sexta feira (20), no Ato contra o racismo e a xenofobia, exigindo Justiça. Na ocasião tive oportunidade de dizer publicamente o que já havia escrito a ele:

“Getho, vamos fazer um trato. Vamos combinar entre nós todos que não vamos sossegar enquanto os teus agressores não forem identificados e punidos. Eles são criminosos. Vamos exigir que sejam encontrados e dar a eles o direito de defesa que eles não deram a você. Vamos exigir que eles sejam identificados e presos. É o mínimo que podemos fazer diante da humilhação que te impuseram. Que impuseram a todos nós! ”.

* José Renato Vieira Martins é professor adjunto de Ciência Política e Sociologia na Unila epresidente do Fórum Universitário Mercosul.