Opinião

Artigo: Àqueles que hoje ocupam nossos corações

Professores enviam carta aos alunos que ocupam as escolas no Rio Grande do Sul

Rio Grande do Sul

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No Rio Grande do Sul, já são mais de 150 escolas ocupadas / Reprodução/Facebook

Queridos estudantes, jovens almas que ocupam as escolas públicas do estado do RS. Saibam que com este gesto de grandeza vocês não apenas emocionam a nós, já experientes lutadores da educação. Vocês estão fazendo história e entrando para ela definitivamente, sem medo e com coragem. Estão dando uma aula indescritível de cidadania, de organização, de democracia, de fé no futuro. Vocês estão não apenas rompendo cercas e muros, estão construindo a história da luta presente, animando mais e mais lutadores a ocuparem novamente as ruas, para dizer a sua “palavra de ordem”. Vocês estão também semeando as lutas que daqui há 10, 20, 40 anos, serão relembradas e aquecerão as madrugadas das próximas gerações inconformadas com o capital opressor, com o desrespeito aos direitos humanos, com a falta de escolas de qualidade e de educadores respeitados e valorizados. Vocês são, hoje, a história presente e futura da luta!

A cada dia emociona a mais pessoas ver os jovens rostos de vocês, o brilho nos seus olhos, as lições em seus cartazes, cantos e atitudes, ocupando as escolas que são suas, por direito. Orgulha-nos sobremaneira ver vocês tomarem em suas próprias mãos este templo de amor e cuidado que deveriam ser as nossas escolas. E torná-los exatamente isso. Um local coletivo, organizado, alegre, onde cada um tem um papel protagonista para o todo. Onde o coletivo é maior que o indivíduo e o burocrático. Onde educadores e educandos dialogam, aprendem e ensinam, mutuamente.

E a coragem de vocês! O que falar dela? Enfrentando o frio do sul da América. Aquecendo-o com sua coragem e união. Buscando na sociedade o calor e a solidariedade que falta aos nossos governantes, omissos e descomprometidos com as estruturas escolares, frias, com goteiras, e com falta de segurança. Há denúncias de que muitas,quando tem luz, com os fios expostos, dão até choque em nossas crianças.

E a organização de vocês, meninada! É algo extraordinário e incrível o que vocês estão se propondo a fazer, e fazendo com suas próprias mãos, desejosas de justiça. Em poucos dias vocês construíram uma organização coletiva, uma divisão horizontal de tarefas, que nosso povo demorou anos para construir nos acampamentos espalhados pelas estradas e latifúndios deste país continental. E com esta sua divisão de tarefas e aulas diferenciadas, de cidadania, estão construindo uma nova escola, um novo aprendizado que brota de novas lideranças, e que podem chegar a uma educação revolucionária, tendo por base a vida real e as contradições sociais que nos cercam. Onde todos são protagonistas. Onde o mestre não professa, mas estimula, orienta, desafia. Onde a troca é a verdade e não a falsa “transmissão” de conhecimentos, que não servem para a vida.  Onde a prática e as vivências são as verdadeiras lições e aprendizados. Onde os mais velhos trocam com os mais novos, revisando e trocando seus conhecimentos, aprendendo enquanto ensinam.

Vocês estão desafiando as leis hipócritas daqueles que não cumprem as leis. Mas vocês o fazem em nome do bem, do belo e do melhor do mundo. E isso é que alimenta hoje os nossos corações. Vocês não se submetem mais às leis injustas e sem rosto humano. Vocês entraram nas escolas que são suas e disseram: o Estado que não cumpre seu dever de cuidar da educação não tem autoridade para nos tirar daqui. Não tem autoridade moral para dizer que estamos errados em cuidar das nossas escolas. E o Estado, meus caros, está perplexo com a coragem de vocês, e não sabe o que fazer para enfrentar a dignidade que levou os jovens estudantes a ocuparem as escolas neste momento.  

Contudo, há que se esperar que o Estado burguês, desumano, jogue suas garras sobre vossa organização. Saibam, no entanto, que nesta luta não há mais solidão. Há multidões levantando-se em vossa defesa.

Vocês nos dão lições de vida e de organização, que contagiam a mais e mais pessoas a serem solidárias ao Movimento de vocês em defesa incondicional da Escola Pública.  Se o Estado sem moral do RS tentar mexer com vocês, terá de enfrentar milhões de gaúchos e gaúchos que se levantarão, com os olhos marejados da democracia, na defesa de vocês.

Queridos jovens estudantes, não tenham medo do opressor. Organizem os oprimidos para enfrentá-lo. Permaneçam firmes em suas ideias democráticas e construtivas. Continuem fazendo história na ocupação das escolas. Escrevam sobre o que está ocorrendo dentro delas. Contem-nos a beleza do vosso aprendizado, na luta. Será um primoroso registro deste tempo em que vocês se desafiaram e construíram um novo modo de mexer e lutar pelo direito à educação dos filhos da classe trabalhadora. É tempo, sim de sermos protagonistas de novos movimentos revolucionários, de atitudes e comportamentos que façam a diferença. Que mexam com a consciência das pessoas. Porque a indiferença é o peso morto da história, dizia Gramsci.

Vocês nos emocionam a todos. E esta luta que agora começou será cada vez mais a luta de todas aquelas pessoas que se importam com a Educação Pública.

Obrigado, amados estudantes. O mês de maio de 2016 entrará na história do RS pelas mãos e pela ordem unida de vocês. Somos gratos por ocuparem nossas escolas públicas, nossos debates, e darem novo sentido para os nossos sonhos.

Seguiremos juntos, ocupando cada vez mais escolas, ruas, corações e mentes do nosso povo!

A luta de vocês será cada vez mais a luta de todos nós!!

Um abraço fraterno, cheio de energia e esperança,

 

Antônio e Isabela

Porto Alegre, 23 de maio de 2016

 

Antônio Lima é doutorando em Sociologia pela UFRGS e integrante do Setor de Educação do Cpers/Sindicato

Isabela Camini é doutora em Educação pela UFRGS e integrante do Setor de Educação do MST