Coluna

Precisamos falar sobre religião

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É preciso pensar em outro sentido para o crescimento da religião na política

Em muitas análises dos resultados das eleições municipais esteve presente o fator religião, que, ao lado do chamado “não voto”, parecem ter sidos os protagonistas mais indesejados. Quase sempre a religião foi tratada de maneira crítica, como se fosse a explicitação de um erro, um retrocesso, uma antiga reedição da mistura entre interesses do Estado e da Igreja. Por esse olhar, a política seria uma forma derivada de interesses pretensamente eternos, que garantiriam sua presença na estrutura do Estado na forma de dogmas e tabus incivilizados. Uma conversão do laicismo aos valores torpes da alienação.

Outra avaliação negativa do fenômeno religioso remarca o papel conservador da pauta defendida sobretudo pelas igrejas neopentecostais. Aqui, navega o que há de mais perigoso, com impacto tanto no âmbito dos direitos humanos como da própria democracia, tomada como expressão dinâmica do desejo da maioria em permanente diálogo respeitoso com os direitos das minorias. O fundamentalismo que começa na visão de mundo se traduz primeiro na constrição moral repressiva, para se afirmar numa divisão social que teologiza a política. Não são interpretações descabidas, pelo contrário, apontam riscos reais e exigem atenção permanente. O diabo mora nos detalhes.

No entanto, talvez seja o momento de se pensar em outro sentido para o crescimento da expressão religiosa no âmbito da política. Tanto à esquerda como à direita, atravessamos um momento de redução epistemológica, com a retirada de outras dimensões que não as aquelas consideradas estritamente racionais e científicas. Basta trocar a palavra para ver que há algo que merece ser considerado: em vez de religião, vamos falar em espiritualidade. A forte inclinação do eleitorado por apelos no campo da espiritualidade não estará querendo indicar um caminho? Nem recusar, nem se submeter: compreender.

Até algumas gerações atrás, era comum se considerar, tanto no pensamento conservador como no progressista, a presença da dimensão religiosa. Mesmo que fosse algo pontual, no campo da moral, da organização familiar, dos debates sobre educação, sexualidade, explicação para a desigualdade ou participação social. Havia a vertente conservadora herdeira do catolicismo tradicional, com sua caridade desmobilizadora; e as tentativas de diálogo com a ciência da história, sobretudo com o marxismo, que veio a dar na teologia da libertação. Nos dois casos, independentemente da ideologia, parecia haver a certeza de um campo que merecia cuidado: a espiritualidade. Um fundamento antropológico para diferentes práticas políticas.

Como tempo, a espiritualidade foi se tornando uma espécie de ausência no campo da política. Talvez por isso tenha retornado pela porta dos fundos, da pior maneira possível, deixando de ser a expressão de uma presença real. Há alguns anos, em outro contexto, o pensador português Boaventura de Sousa Santos classificou a redução do cenário político como “sociologia das ausências”, que, segundo ele, fundamentava-se em uma série de monoculturas da racionalidade ocidental. Assim como a agroindústria da soja destrói outras culturas, a monocultura de outras formas de expressão – no caso a ciência – pode amortecer possibilidades reais da emergência da humanidade do homem.

O que temos visto no campo da política em todo o mundo, com a retomada de bandeiras libertárias, do intenso debate sobre a questão de gênero, acerca do racismo, no que diz respeito a novos modelos de produção, na crítica do produtivismo consumista, na proposição de novos modelos de democracia direta, na recusa do universalismo globalizante, entre outros temas e práticas, é um sinal a ser considerado. Quase sempre empurrada para o terreno das decisões íntimas, quem sabe tenha chegado a hora de se inclinar novamente para a verdadeira dimensão da espiritualidade em política?

É uma provocação que pode parecer difícil para alguns de nós, materialistas, marxistas, comunistas, ateus e bolivarianos. O gesto inicial é mesmo de recusa e crítica, no sentido filosófico e político. Sobretudo quando a onda vem atravessada por representantes do atraso como Malafaias, Crivelas, Macedos, Felicianos e outras entidades menos cotadas. Mais difícil ainda quando sublinham pautas reacionárias, machistas, desumanas, alienantes e homofóbicas. Um profeta judeu, que depois se tornou preso político, propôs há alguns séculos a separar o joio do trigo. Ultimamente, por obra e graça dos pastores neopentecostais, a tarefa tem sido feita com o intuito de jogar fora o trigo. 

Homens que acreditam em Deus provam a existência dos homens. E é pelos homens que temos que levar Deus a sério, mesmo que não acreditemos Nele. A religião é importante demais para ficar nas mãos de picaretas do eterno.