Escravidão

Porto de entrada de africanos escravizados deve se tornar patrimônio mundial em 2017

Cerca de um milhão de escravos chegaram ao Brasil pelo Cais do Valongo, no Rio de Janeiro

Agência Brasil

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O Cais do Valongo foi construído em 1811 e foi porta de entrada mais de 1 milhão de escravos africanos no Brasil / Tomaz Silva/Agência Brasil

A vista para um longo vale entre os morros da Conceição e do Livramento era o que aguardava os sobreviventes que desembarcavam no Cais do Valongo, no Rio de Janeiro, depois de uma viagem degradante entre a África e o Brasil, no século 18.

Dos quatro milhões de africanos escravizadas do outro lado do Atlântico e que chegaram vivos para o trabalho forçado, um milhão passaram pelo Valongo – o que torna o porto a principal porta de entrada de mulheres e homens escravizados nas Américas.

Por ser o único local de desembarque do tráfico negreiro que restou preservado no mundo, o Cais do Valongo, já declarado patrimônio carioca e nacional, deve se tornar agora patrimônio mundial da Unesco, a Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura).

Uma comissão do órgão vistoriou o antigo atracadouro em setembro e a expectativa é que em maio de 2017, o Brasil saiba se são suficientes ou não as condições apresentadas em um dossiê de 400 páginas. A inscrição foi feita pelo Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o IPHAN, e a decisão sai em junho do ano que vem.

O Cais do Valongo foi desativado por leis que proibiam o tráfico transatlântico e foi aterrado para receber a imperatriz Teresa Cristina, no Rio de Janeiro de 1843. Recentemente, durante obras de revitalização da região portuária, o cais acabou redescoberto, como explica o antropólogo e coordenador da candidatura do cais a patrimônio, Milton Guran.

No antigo porto, foram encontrados milhares de vestígios da passagem de africanos de diversos países e etnias. Entre os objetos, búzios utilizados à época como moedas, colares, cachimbos, brincos e braceletes. São mais de um milhão e meio de peças, guardadas em um galpão e que só devem ser expostas ao público em 2018.

A prefeitura do Rio de Janeiro e o IPHAN querem que o material fique em museu próximo ao cais.

Integrante do grupo da sociedade civil que monitora a candidatura do Valongo à patrimônio da Humanidade, Giovanni Harvey, ex-secretário executivo da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial e morador do bairro do bairro do porto, explica que o local é parte de um “quebra-cabeça' da diáspora africana.

Para Harvey, que já esteve na Casa dos Escravos, em Goré, no Senegal, na costa oeste da África, onde os escravizados eram embarcados o Valongo é uma referência material, que prova a chegada de africanos escravizados no Brasil.

O antropólogo Milton Guran também aposta no tombamento do cais por ser um marco da violência da escravidão e lembra que já foram tombados pela Unesco os portos de embarque de africanos escravizados para as Américas em Goré, no Senegal, o Castelo El Mina, em Gana e o porto da Ilha de Moçambique, em Moçambique.