Artigo | É sobre racismo religioso que precisamos falar

Esse ano, dezenas de ações acontecerão pelo país como parte da mobilização nacional promovida por diferentes terreiros

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Mãe Edelzuíta de Oxaguian, uma das principais referências na luta pelos direitos dos povos de terreiro, saúda padre / Roger Cipó

Primeiramente, Mãe Gilda, Presente!  

Era 1992, e o país gritava  "fora, Collor" em pedido de impeachment do então presidente Fernando Collor de Melo. Manifestações de insatisfação popular brotavam de todos os cantos e crenças, e foi nessa  época que a primeira imagem de Mãe Gilda surgiu na grande mídia. Em uma matéria da Veja, foi publicado um retrato da Iyalorixá trajada com sua baiana bem engomada e seus imponentes fios de conta, com uma oferenda aos seus pés.  Aquela fotografia era a forma de protesto da dela que, na reportagem, suplicava apoio dos orixás do candomblé para ajudar no difícil momento que o país vivia.

Já em 1999, o  mesmo retrato, agora com tarja preta sobre a Mãe de Santo filha de Ogun, foi exposto de forma violenta na primeira capa do jornal da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) com o título: “Macumbeiros charlatões lesam o bolso e a vida dos clientes”. O texto dizia crescer no país um mercado de enganação, comandado por sacerdotes e sacerdotisas do candomblé.  Foi um dos mais perversos ataques à comunidade candomblecista que a história já registrou.  Após a publicação, com mais de um milhão de exemplares, Mãe Gilda se tornou o principal alvo de ataques de evangélicos extremistas. Sua casa foi invadida, seu marido agredido verbal e fisicamente, e o terreiro, depredado.

Ao saber do atentado, sua filha Jaciara abriu uma ação contra o jornal por danos morais e uso indevido da sua imagem.  A violação da fé e da dignidade de fundadora e dirigente do Ilê Axé Abassá de Ogum resultou em sua morte, após ter a saúde agravada pelas recorrentes agressões. Um dia antes de falecer, Mãe Gilda assinou uma procuração instruindo seus advogados a defender o caso, em clara expressão do seu desejo por reparação. Uma luta que durou cinco anos e que resultou na condenação da IURD, em primeira instância. A Justiça:

- Condenou a IURD e a sua Gráfica a publicar a sentença na capa e encarte do Jornal Universal e por duas tiragens consecutivas;

- Condenou a IURD e a sua Gráfica a indenizar a família em R$ 1.372.000 (fazendo a equivalência de R$ 1 para cada exemplar da Folha Universal distribuído), reajustáveis pelo INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor) desde 1999;

- Determinou que o Ministério Público abra processo criminal contra a IURD.

O grupo neopentecostal recorreu da decisão, que por meses ficou sem resposta, até que em maio de 2005 o povo de terreiro de Salvador uniu forças e protestou no Tribunal de Justiça da Bahia, reivindicando agilidade da decisão do júri que condenou por unanimidade a IURD por danos morais e uso indevido de imagem.

"Saída de yawo", é a cerimônia pública do renascimento do filho de santo dentro dos mistérios do candomblé/Roger Cipó

Naquele momento, a luta por direitos de crença e liberdade de fé ganhou um novo tom, e movimentos sociais e religiosos passaram a reivindicar a data de morte de Mãe Gilda como o Dia de Luta contra a Intolerância Religiosa no Brasil. O pedido foi acolhido em 2007 pela Presidência da República e foi instituído pela  Lei nº 11.635, de 27 de dezembro de 2007, o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa.

A verdade é que a luta dos povos de terreiros é, sobretudo, a luta pela sobrevivência e preservação da religião dos orixás. Foi com muita inteligência e resistência que africanos, africanas e seus descendentes organizaram e fundaram o candomblé no Brasil. Uma tentativa de reconstruir as famílias destruídas, propositalmente, na escravização.

Não à toa, membros das comunidades se entendem pais, mães, filhos, netos, sobrinhos, tios de axé e outros laços de acolhimento, fortalecimento de identidade e reencontro com a África negada aos seus. A família de terreiro se conecta por laços sagrados, de crença e fé na ancestralidade africana, e, na contramão de uma cultura segregacionista e fundamentalista, a comunidade de terreiro nasce para acolher, com respeito à humanidade e singularidade que a ignorância nega.

Foi nessa atmosfera que negros e negras em situação de escravidão resistiram à crueldade da época e garantiram uma relação direta de seus descendentes com as práticas milenares de fé, cultura, política, organização social e religiosidade do continente mãe.

Origem do candomblé

Quando falo resistência, falo do sentido literal da palavra e de seu significado.  A organização do candomblé se dá ainda em período escravocrata, em uma país ainda dominado pela igreja católica, quando qualquer outra manifestação religiosa era entendida como contravenção penal. E, numa sociedade onde pessoas negras eram escravizadas, olhadas como objetos de posse e seres indignos de humanidade, como poderiam ter crença? Quais direitos de fé essas pessoas tinham, se nem propriedade sobre suas vidas detinham? Dessa forma, articulava-se o pensamento da tradicional sociedade brasileira escravizadora.

Na história do candomblé e dos povos negros, a  resistência tem sido palavra-chave para que nem suas vidas nem suas  histórias fossem apagadas.  Muitos foram os que deram a vida para garantir o acesso aos espaços sagrados do terreiro, que, ao longo da história, têm sido invadidos, incendiados e exterminados por um projeto que visava (e visa) construir um Brasil livre da presença de negros e de suas manifestações culturais. Por exemplo, no último dia 15 de janeiro, completou-se apenas 40 anos de "liberdade" dos terreiros da Bahia.

Antes disso, os terreiros eram obrigados a pedir autorização e pagar uma taxa para a polícia para promoverem cultos. Ou seja, mesmo sofrendo sistematicamente com a repressão e com o racismo institucionalizado e estrutural, o povo de candomblé se mantém vivo para o enfrentamento à violência racial e ao cerceamento de direitos.

É histórica a luta do candomblé contra a intolerância: a face do racismo que mata em nome de um deus. Em uma luta contínua, o direito pelo exercício da fé em divindades africanas tem sido conquistado com muito suor, e, a cada dia, enfrenta mais dificuldades, principalmente em um período em que a banalização da vida tem sido promovida por setores religiosos que patrocinam a violação de direitos de crenças distintas de seus grupos. Por aqui, a laicidade segue sendo uma das maiores ilusões já conhecida, só perdendo para o mito da democracia racial.  

Retrato da série Gravidez Sagrada. A retratada é Oyá Jinde, Iyatebese do Asé Iya G'unté, em Juquitiba/SP/Foto: Roger Cipó

Em 2015, houve um aumento de 69,13% nas denúncias de discriminação religiosa em relação ao ano anterior. Atentados contra candomblecistas e umbandistas são os mais recorrentes, segundo o disque 100. E é óbvio que esse número não representa nem metade das agressores sofridas diariamente por  meninas, mulheres, homens e meninos que se declaram adeptos das religiões de orixás. Um abismo de impunidade que faz com que a maioria desses casos não sejam criminalizados.

Atualmente, milhares são os casos que ganham as redes sociais, e vão desde xingamentos em espaços públicos a incêndios nos terreiros provocados por intolerantes. Por trás de toda essa violência, está a negação e a demonização dos símbolos sagrados, incentivadas pelo racismo. É dessa forma que o  Brasil vive uma guerra religiosa e se omite. A mídia tradicional segue sendo "je suis" qualquer outra fatalidade, e não se preocupa com a violência gratuita contra as religiões afro.

Para remomorar a história de Mãe Gilda, de Mãe Dede de Yansan (que faleceu em 2015 após ver seu terreiro invadido) e de tantas vítimas fatais do racismo religioso, para defender o direito de toda criança hostilizada no ambiente escolar por sua crença e garantir o direito de preservação dos territórios sagrados de orixás, que o povo de candomblé une forças e marca o 21 de janeiro como Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa.

Esse ano, dezenas de ações sincronizadas acontecerão pelo país em reflexão e afirmação dessa luta,como parte da mobilização nacional promovida por diferentes comunidades de terreiro.  

Em São Paulo, o Vão do MASP será ocupado por militantes religiosos e membros de outras vertentes da luta pró-direitos negros que somam forças para combater o racismo em todas as suas ramificações.  Por nenhum direito a menos, e pela preservação da África que vive nas casas de terreiros de candomblé de todo o Brasil.  

* Roger Cipó é fotógrafo-pesquisador, candomblecista e militante contra os crimes de intolerância religiosa e racismo. Gestor da plataforma Olhar de um Cipó, que tem como objetivo reconstruir a imagem do candomblé a partir do olhar de de quem vivencia essa prática.