Água

Governo de São Paulo não aprendeu com a crise da água, afirmam especialistas

Modelo de gestão dos recursos hídricos continua inalterado desde os primeiros sinais de desabastecimento

Brasil de Fato

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Entre 2014 e 2015, o Sistema Cantareira, que abastece o estado de São Paulo, ficou abaixo do volume útil / Divulgação/Sabesp

O governo do estado de São Paulo não aprendeu com o período da “crise hídrica”. A avaliação é da coordenadora da organização Aliança pela Água, Marússia Whately, em entrevista para a Rádio Brasil Atual.

"O preocupante é que nós estamos convivendo com a solução de 'ah, passou, a crise acabou, nunca mais vai acontecer'. E estamos perdendo a oportunidade de refletir o que poderia ter sido feito melhor, o que poderia ter sido prevenido para o futuro, para evitar se colocar na mesma situação que a gente ficou naquele momento".

Entre 2014 e 2015, o Sistema Cantareira, um dos principais reservatórios de água que abastece o estado de São Paulo, ficou abaixo do volume útil, o que causou grande desabastecimento na região. Para Marússia, no entanto, o sistema hídrico do estado vive uma crise permanente e estrutural.

"Nós estamos em cima das bacias hidrográficas mais alteradas do mundo, nossos rios todos estão canalizados, colocados debaixo da terra, poluídos no caso dos dois maiores, Tietê e Pinheiros", disse.

Segundo Edson Aparecido da Silva, membro do Coletivo de Luta pela Água, o modelo de gestão dos recursos hídricos não foi alterado desde 2014, quando os primeiros sinais de desabastecimento foram notificados.

"Nenhuma medida estrutural no sentido de desenvolver campanhas permanentes de redução do consumo da água pela população, não tem sido feita. Segundo, não existe um plano de ampliação da utilização da água de reúso para fins que não sejam de abastecimento público. Isso é uma prova de que o governo continua com a política de cada vez buscar água mais longe, com grandes obras, para atender a demanda da população, em vez de adequar a demanda para a água disponível".

Diante desse cenário, Edson acredita que dias de racionamento e falta de água podem se repetir.

"Nós não estamos livres de passarmos pelo que passamos nos anos de 2014 e 2015", afirmou.

No entanto, se o governo não tirou lições com a crise, a população, de acordo com Marússia, diminuiu o consumo diário de água após a crise.

"Muitos estabelecimentos, residência, prédios, fizeram investimentos no sentido de aumentar sua autonomia hídrica. As pessoas fizeram cisternas, criaram sistemas de reúso de água. Além do aprendizado há essa questão do investimento de fato".

Apesar disso, a grande perda de água nas tubulações, a falta de transparência na gestão de água do estado e a resistência em produzir campanhas prolongadas para a redução do consumo, continuam, na opinião dos pesquisadores, problemas centrais na discussão.

"Nós não avançamos praticamente nada em uma questão fundamental em qualquer documento contemporâneo sobre a água, que é a importância de construir e aprimorar constantemente a governança sobre a água. Nesse sentido nós continuamos com informações que não estão claramente acessíveis. Continuamos com as prefeituras participando muito pouco da questão do saneamento".

Edição: Daniela Stefano