Poesia

Cora Coralina: a mulher de “Todas as vidas”

Nascida na Cidade de Goiás em 20 de agosto de 1889, Cora Coralina, só teve seu primeiro livro publicado aos 76 anos

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Da janela da Casa de Cora Coralina, visitantes veem o Rio Vermelho que corta a cidade de Goiás / Arquivo/ Agência Brasil

“Beco da minha terra…/ Amo tua paisagem triste, ausente e suja / Teu ar sombrio. Tua velha umidade andrajosa / Teu lodo negro, esverdeado, escorregadio / E a réstia de sol que ao meio-dia desce, fugidia, / e semeia polmes dourados no teu lixo pobre, / calçando de ouro a sandália velha, / jogada no teu monturo”.

Parte inicial do poema Becos de Goiás, estes versos publicados em 1975 integram o primeiro livro de Cora Coralina, pseudônimo de Anna Lins dos Guimarães Peixoto Bretas. 

A obra, chamada Poema dos Becos de Goiás e Estórias Mais, já indicava o estilo poético de Coralina, pautado pela vida cotidiana do interior brasileiro, principalmente de seu estado natal. 

Nascida na Cidade de Goiás em 20 de agosto de 1889, Cora Coralina, só teve seu primeiro, portanto, publicado aos 76 anos de idade. Escrevia, porém, desde os 14 anos. 

Doceira de profissão, viveu em São Paulo acompanhando o marido, o advogado Cantídio Tolentino de Figueiredo Bretas. Com a morte de Bretas, passou a vender livros. Instalada no interior do estado, na cidade de Penapólis, começou a produzir e vender linguiças. Em 1956, retorna a Goiás. 

Aos 50 anos, afirma ter passado por um processo de “perda do medo”, no qual assumiu o pseudônimo criado anos antes. 

“Mulher sertaneja, livre turbulenta, cultivadamente rude. Inserida na gleba. Mulher terra. Nos meus reservatórios secretos um vago sentido de analfabetismo”, assim se definiu a própria Cora Coralina. 

A projeção nacional veio com a segunda edição de seu primeiro livro. O poeta Carlos Drummond de Andrade, de posse de um dos volumes, escreve um texto em homenagem a Coralina no Jornal do Brasil. 

“Cora Coralina, para mim a pessoa mais importante de Goiás, mais do que o governador, as excelências, os homens ricos e influentes do Estado. Entretanto, uma velhinha sem posses, rica apenas de sua poesia, de sua invenção, e identificada com a vida como é, por exemplo, uma estrada.”

Cora Coralina recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Federal de Goiás em 1983. No mesmo ano, foi eleita intelectual do ano e recebe  o Prêmio Juca Pato da União Brasileira dos Escritores.

Cora Coralina faleceu em Goiânia. No último dia 10 de abril, completaram-se 32 anos de sua morte, em decorrência de pneumonia. 

Edição: Anelize Moreira