MOBILIDADE

Em Pernambuco, obras para ciclistas não saem do papel

Estado tem um Plano Diretor Cicloviário há três anos e pouco foi feito

Brasil de Fato | Recife (PE)

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PDC prevê a construção de 500 km de ciclofaixas e ciclorrotas até 2024, mas apenas 1% foi feito / Ameciclo

Passagens de ônibus caras, transportes públicos lotados, além do trânsito travado em vários pontos do Recife são alguns dos fatores que levam diversas pessoas a usarem a bicicleta como meio de locomoção no cotidiano. Apesar do baixo custo e da rapidez nos trajetos, quem usa a bike todo o dia se arrisca entre os outros veículos, já que quase não existem vias exclusivas para ciclistas.

Tank da Várzea, trabalhador autônomo, usa sua bicicleta desde sempre, como ele mesmo diz. “Ela é meu transporte. Pra mim é igual a usar chinela. Pedalo todo dia por Jardim São Paulo, San Martin, pelo centro, Casa Forte, Madalena, Dois Irmãos. A maior dificuldade é porque não temos vias exclusivas, falta sinalização e tem a inconveniência dos motoristas”, reclama. “Eles não respeitam, não andam nas suas faixas, trocam de faixa sem dar sinal, freiam bruscamente. É um risco. Já me acidentei quando um carro foi trancado e eu acabei caindo por cima dele”, conta Tank.

O coordenador de comunicação da Associação Metropolitana de Ciclistas do Grande Recife (Ameciclo), Roderick Jordão, reforça a fala de Tank e afirma: “o ciclista recifense não tem uma vida fácil, porque, só para você ter uma noção, no Recife, temos 2.400 km de vias para carros e outros veículos. Faixas exclusivas para a bicicleta só temos pouco mais de 40 km. Aí você já sente a diferença de uma estrutura para outra, a prioridade de um e do outro”.

Além das poucas vias exclusivas, Roderick pontua sobre a situação em que se encontram. “O pior é que essa estrutura cicloviária é desmantelada. Eu moro aqui na Zona Norte e vou para o centro. Só tenho 1 km de faixa exclusiva para ciclista. O resto do percurso eu vou dividindo a rua com os carros e outros veículos”, relata. Sobre a ciclofaixa de lazer e turismo, ele observa: “esse projeto da Prefeitura do Recife tem pouco mais de 35 km de ciclofaixas, que só são montadas em domingos e feriados. Há 4 anos que existe esse incentivo à população para pedalar nesses dias, o que é bom, mas eles pararam por aí”.

Em 2014, foi criado o Plano Diretor Cicloviário (PDC) de Pernambuco, que prevê, até 2024, a construção de mais de 500km de ciclovias, ciclorrotas e ciclofaixas ligando 14 cidades da Região Metropolitana do Recife. De acordo com o projeto, parte destas vias ficam a cargo no Governo do Estado e parte a cargo das prefeituras que assinaram o acordo. Três anos após a criação do PDC, só pouco mais de 5 km foi construído no Recife. O trecho corresponde a uma área turística da cidade, onde as rotas são de obrigação da prefeitura, mas quem fez foi a Secretaria de Turismo de Pernambuco, por meio do Programa de Desenvolvimento do Turismo e com recursos do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). 

Sobre esta questão, Roderick observa: “o PDC foi lançado no dia 3 de fevereiro de 2014. Há 3 anos que ele foi assinado pelos 14 municípios da RMR. Foi gasto 600 mil reais só para fazer o plano, que prevê uma malha cicloviária muito boa e eficiente. A única coisa que estado e prefeituras deveriam fazer era implantar. A primeira intenção do Governo do Estado de tirar o plano do papel é justamente esse eixo estruturador. Com apelo ao turismo, o governo conseguiu dinheiro para viabilizar os cinco primeiros quilômetros [do Marco Zero à Fábrica Tacaruna] que serão inaugurados agora”.

Com foco ainda no turismo, o pouco que está sendo feito a partir do PDC não beneficia os trabalhadores e trabalhadoras no dia a dia. “A nossa realidade é andar no meio dos carros ou andar por cima da calçada, que é errado. Porque a calçada é para o pedestre, a pista para os carros, mas e as bicicletas? Para mim ela é necessidade. Pegar ônibus torna-se difícil. Não tenho R$ 3,20 para pagar passagem. Essas vias para bicicletas que são montadas nos domingos e feriados em pontos turísticos são para as pessoas passearem. É gostoso, mas não traz benefícios para o meio popular, porque é um rolê de turismo”, comenta Tank. 

A reportagem do Brasil de Fato entrou em contato com a Secretaria de Turismo e Lazer do Estado de Pernambuco e não obteve resposta.

Edição: Monyse Ravena