Mobilização

Usuários organizam boicote a Uber e 99 por causa de parceria com prefeitura de SP

Empresas fizeram um acordo com João Doria (PSDB) para oferecer descontos nos aplicativos no dia da greve geral

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Nas redes sociais, internautas relatam a exclusão dos apps / Filipe Araújo/Fotos Públicas

Usuários dos aplicativos de transporte privado Uber e 99 organizam, a partir desta sexta-feira (28) um boicote ao serviço das empresas. A ação é uma resposta à parceria dos aplicativos com o prefeito de São Paulo (SP), João Doria Jr. (PSDB).

O tucano fez o acordo com as empresas para garantir que os servidores municipais trabalhem nesta sexta-feira, data em que as centrais sindicais, movimentos populares e diversos setores da sociedade organizam uma greve geral. As mobilizações se posicionam contra as reformas trabalhista e da Previdência.

O transporte público da capital paulista tem indicativo de paralisação por 24h. Os sindicatos de metroviários, ferroviários e motoristas de ônibus da capital paulista decidiram aderir à greve geral.

Como resposta à paralisação, a Prefeitura de João Doria anunciou que irá fornecer para seus empregados vouchers de desconto para o transporte individual através dos aplicativos.

O evento pelo boicote dos aplicativos no Facebook já tem cerca de 6 mil pessoas confirmadas, além de mais de 2 mil interessadas. A produtora audiovisual Gabriela Paschoal, de 45 anos, decidiu excluir o aplicativo do seu celular e também a conta de toda a família, que estava associada ao seu nome. "Aqui na minha casa são cinco contas, e nós temos uma despesa alta de Uber. Mas não vamos usar mais", disse.

Para Paschoal, a medida do prefeito paulistano é uma tentativa de burlar a convocação da greve geral. "No momento de uma greve convocada para trabalhadores que estão na iminência de terem direitos bastantes essenciais cortados, tanto na aposentadoria como no cotidiano do trabalho, um prefeito propõe esse acordo que não se sabe qual é a contrapartida?", questionou.

Assédio moral

Em nota enviada por e-mail, a Secretaria de Comunicação da Prefeitura de São Paulo afirmou que a parceria foi uma doação da iniciativa privada. A administração municipal disse ainda que organizou alternativas de transporte para "preservar serviços essenciais" e não prejudicar a população.

A vereadora Sâmia Bonfim (PSOL) considera "lamentável" a postura da Prefeitura, que, segundo ela, pode ser caracterizada como uma tentativa de assédio moral. "Greve é um direito constitucional. É absurdo que o prefeito se posicione tentando desmobilizar as pessoas", pontuou.

Bonfim afirma, no entanto, que a movimentação mostra o fortalecimento da greve geral desta sexta-feira. "Os governos federal, estadual e municipal estão tendo que se posicionar e, de algum modo, estão tentando desarticular o movimento. Isso significa que nós estamos, de fato, muito fortes e que o movimento está conseguindo extrapolar as organizações sindicais e está tendo muito apelo popular", avaliou.

Recuo

No início desta tarde, a Uber afirmou que os motoristas "são autônomos" e "têm o poder de escolher se desejam ou não dirigir pela plataforma". A empresa afirmou ainda que incentivar a população a se movimentar e compartilhar um carro é "a forma como a Uber pode ajudar". A empresa estadunidense anunciou descontos ampliados pela categoria Uber Pool nos horários de picos.

Já a 99, depois da repercussão do acordo com o município, decidiu também oferecer corridas no valor de até R$ 20 nas mais de 1 mil cidades brasileiras atendidas pelo aplicativo. "A 99, como empresa de mobilidade, acredita que o seu papel é fornecer às pessoas uma alternativa de transporte, seja para ir ao trabalho, às manifestações, aos hospitais ou qualquer outro lugar", apontou em nota.

O recuo das empresas, porém, não foi suficiente para que Paschoal decidisse voltar atrás no boicote aos aplicativos. "Não tem bondade nisso, nem luta pelo trabalhador. A luta da empresa é pelo lucro dela. Ela viu que poderia ser um estrago grande em sua porcentagem pelas corridas", disse. "Eles não passarão e nós não passaremos de Uber", brincou.

Apoios

Pelo Facebook, Doria informou que vai cortar o ponto dos servidores em greve neste dia 28. O tucano disse ter "orgulho" dos servidores que vão trabalhar: "Só quem não quer trabalhar é quem vai fazer greve. Porque mesmo quem deseja manifestar-se, faz isso em horário fora de expediente, faz isso no sábado, faz isso no domingo, faz isso de noite, faz isso na hora do almoço", explicou.

Na mesma linha, em Porto Alegre (RS), a Prefeitura e a espanhola Cabify também fizeram um acordo. Desde a tarde desta quinta-feira (27), os servidores estão recebendo um código exclusivo para ser usado nos deslocamentos para o trabalho.

Já em outros municípios do país, a linha pela garantia ao direito à greve prevaleceu. Algumas prefeituras decidiram apoiar a paralisação.  Esse é o caso dos prefeitos José Maria Gomes Pereira (PCdoB), da cidade de Farias Brito (CE), e Ary José Vanazzi (PT), de São Leopoldo (RS), que publicaram decretos de ponto facultativo para que os trabalhadores não sejam prejudicados ao aderir à paralisação.

Já em Campo Grande (MS), o prefeito Marquinhos Trad (PSD) prometeu que não vai cortar o ponto dos servidores municipais que aderirem à greve.

Edição: Vivian Fernandes